Conhecido por “Saint Young Men” (聖☆おにいさん, leia-se Saint Oniisan) este desenho animado japonês tem possivelmente um dos conceitos mais simples e mais estranhos que já vi. Buddah e Jesus são amigos e estão a viver no Japão moderno juntos. É mesmo isso, eu não estou a brincar.

Saint Oniisan é um anime de slice-of-life (não deveria ser divine life?) e comédia, seguindo os nossos dois protagonistas. Fazendo um apanhado histórico Saint Oniisan começou como um mangá ilustrado por Hikaru Nakamura, mais tarde foi adaptado num OVA (Original Video Animation) de dois episódios, e uns anos mais tarde, teve direito a um filme de hora e meia. É deste último que vamos falar.

Plot e Atmosfera: Sendo uma comédia slice-of-life, o plot da série não precisa de ser tão explorado, pois a história está mais focada nas personagens. Tal como dito antes, Jesus e Buddah estão a viver juntos no Japão moderno, partilhando um pequeno apartamento. Como foi adaptado de um mangá de comédia, a narrativa não é propriamente ‘contínua’ e está estruturado de forma a mostrar múltiplos momentos das suas vidas, tal e qual como as séries do mesmo género, como ‘Lucky Star’ e ‘Acchi Kocchi’. É claro que uma existe continuidade entre estes momentos de vez em quando dada pela inclusão de personagens que conheceram previamente.

A atmosfera do filme é estranhamente relaxante. Este é o tipo de filme para ver se não quiserem sair do sofá e ter umas quantas gargalhadas enquanto observam as aventuras destas duas figuras principais. O que nos leva à próxima categoria…

Personagens: Tal como dito antes, as personagens principais deste filme são Buddah e Jesus. Vê-se mesmo que isto nunca será mostrado nos Estados Unidos, não é? O que é engraçado nestas duas personagens é o quão próximas são. Dá para ver e sentir que a amizade entre os dois é verdadeira pela maneira como interagem. Tendo personalidades semelhantes, nunca existe um grande confronto entre os dois ou uma discussão violenta.

Buddah, ‘the Enlightened One’, e o fundador do Budismo, é o mais calmo e tímido dos dois, e aparentemente quem trata de fazer as contas em casa. Estranhamente, é ele que faz as t-shirts que ele e Jesus vestem ao longo do filme. Jesus, ‘the son of God’ e o fundador da Cristianidade, é quem fica mais entusiasmado entre os dois, sempre disposto a experimentar coisas novas e qualquer coisa que pareça divertido ou engraçado. Ele também é relaxado, mas não tanto quanto o Buddah.

O que acho interessante é a dinâmica entre estes dois personagens tornando vários momentos da história bastante divertidos. Seja Jesus a aprender a nadar com a ajuda de Buddah ou o Buddah a esconder uma surpresa a Jesus, não seria a mesma coisa se fosse com personagens diferentes.

O resto das personagens vão de secundárias com pequenos papéis a apenas figurantes, mas é sempre engraçado ver pessoas normais reagirem às coisas que acontecem à volta de Buddah e Jesus.

Animação e Artstyle: O artstyle utilizado neste filme é um dos meus favoritos. Pode ser simples e estranho por vezes, assemelhando-se a figuras geométricas por vezes, os detalhes conquistaram-me. Se olharem com atenção para, por exemplo, as sombras nos pescoços das personagens, conseguem ver pequenas imperfeições, como se tivesse sido preenchido a lápis, algo que simplesmente adora ver (um exemplo que me ocorre é nos olhos das personagens em Madoka Magica fazem algo semelhante). Isto é a um nível pessoal, claro, pois artstyle é algo que depende muito no gosto da pessoa em questão.

Algo que achei estranho, ou melhor diferente foi a palete de cores escolhida. Não tenho nada contra, mas tudo parece muito esbranquiçado e bem claro. Sem dúvida que a escolha cromática foi pouco usual, mas não me degostou.

A animação é o que dá o efeito calmo mencionado antes. Não existem movimentos muito bruscos, é simples, realmente parece que o mangá ganhou vida, e gostei do facto que personagens presentes no background muitas vezes estão animadas e mexem-se, apesar do foco estar dos nossos protagonistas. Dá uma sensação que o mundo está vivo.

Música: Não existem muitas músicas no filme em si. Muitos dos momentos passam-se sem música de background. Mas as existentes são ‘enjoyable’ e acentuam muito bem os momentos e as emoções em destaque quando necessário.

Moral: Algo que gostaria de mencionar é que apesar das personagens principais serem figuras religiosas, não é muito explorado ou discutido, bem, religião. Religioso ou não, duvido que alguém acharia este filme ofensivo. Ainda mais, Jesus e Buddah serem bons amigos, dá um bom sentimento de unificação e paz. Claro, existem referências a certos aspetos aqui e ali, como o Mantra de Buddah ou Jesus conseguir andar sobre água, mas esses aspetos são utilizados mais para piadas, que estranhamente funcionam. Claro, tal como qualquer personagem duma comédia, Buddah e Jesus têm as suas ‘falhas’, que também funcionam, e duvido que estas falhas sejam ofensivas de alguma maneira.

Recomendo vivamente este filme. Nem precisam de saber muito sobre Jesus ou Buddah para entenderem os “gags” e as piadas, por isso, se quiserem relaxar um bocado e rir entretanto, Saint Young Men é uma boa escolha.

Escrito por: Bernardo Pacheco