Em 1963, de 18 de Outubro a 29 de Dezembro, Akira Nishiguchi assassinou cinco pessoas entre Tokyo, Shizuoka e Fukuoka. Akira começou por cometer crimes de burla até a sua veia mais violenta despertar e partir para o homicídio de algumas das suas vítimas. Tendo sido preso após a denúncia de uma criança de onze anos, que tinha visto a sua cara num dos milhares de posters que na altura estavam espalhados por todo o Japão, Akira ganhou a alcunha de o “Medalhista de Ouro Preto” por parte da polícia japonesa da altura.

A sua personalidade, história de vida e as motivações que o levaram nesta onda de assassinatos foram analisadas pelo escritor Ryūzō Saki na sua obra 復讐するは我にあり(Fukushū suru wa ware ni ari), que em 1979 foi adaptada ao filme do mesmo nome realizado por Shōhei Imamura, filme este ao qual este texto se dedica.

No filme, o nome do serial killer no qual este se baseia foi mudado para Iwao Enokizu, cujo papel é interpretado por Ken Ogata. Não tendo o filme uma linha temporal contínua, somos levados numa viagem quase documental que vai saltando durante várias épocas fulcrais da vida de Iwao.

A sua infância, os problemas que sempre teve com figuras de autoridade, os vários relacionamentos com mulheres que teve ao longo da vida, a sua peculiar relação com os membros mais próximos da sua família e a evolução da gravidade dos seus crimes ao longo da sua vida, são todos alvos de análise ao longo das quase duas horas e meia de filme. Iwao é retratado como um verdadeiro sociopata, não parecendo sentir grande empatia por aqueles que o rodeiam, nem sentido qualquer remorso pelos crimes que comete.

Ao longo do filme é-nos dada não só a visão da vida de Iwao pelos olhos do mesmo, mas também pelos testemunhos das pessoas que lhe seriam mais próximas, através das entrevistas levadas a cabo pelos polícias que andavam no seu encalce. De todos este relatos, o filme foca-se mais na relação com a sua primeira esposa e os seus pais, sendo a relação com o seu pai e a vida deste também alvo de análise ao longo do filme, de modo a determinar que tipo de influência é que este possa ter tido na vida do seu filho.

Os setenta e oito dias da fuga de Iwao às autoridades são retratados de forma fria e objectiva. Não há espaço para sentimentalismos ou para tentar humanizar mais ou menos certos personagens. O filme analisa o personagem principal como ele era, um homem mais motivado por impulsos momentâneos do que propriamente por uma lógica que nos faça entender a crueldade dos seus actos.

Ken Ogata é fantástico, roubando o protagonismo do filme quase todo para si. É intenso, assustador, depravado e intimidante, num dos melhores papéis da sua carreira que lhe valeu o prémio de melhor actor no Festival de Cinema de Yokohama. Rentarō Mikuni, que interpreta o papel do pai de Iwao no filme, tem também uma presenta forte no filme, parecendo ser o único personagem que tem a capacidade de intimidar o seu filho sociopata.

Mitsuko Baisho destaca-se como a esposa de Iwao, interpretando um personagem cuja relação com o seu marido e com o pai deste é conturbada. Mayumi Ogawa, no papel de Haru Asano e Nijiko Kiyokawa, no papel de mãe desta, destacam-se como as donas de uma estalagem modesta onde Iwao se refugia, fazendo-se passar por professor universitário enquanto anda fugido da polícia.

Fukushū suru wa ware ni ari é não só um retrato muito interessante e até certo ponto assustador da vida deste sociopata, como também põe a nu alguns dos elementos mais decadentes da sociedade japonesa, apresentando-nos um leque de personagens que estão longe de ser inocentes, tendo cada uma deles as suas próprias motivações perversas para atingirem o que desejam na vida, apresentando um retrato cruel das pessoas que rodearam Iwao ao longo da sua vida.

Com a forma excelente e realista que o realizador arranjou para contar a história, Fukushū suru wa ware ni ari é um excelente filme, uma das grandes obras do cinema japonês, tendo ganho justamente o “Oscar” de melhor filme japonês em 1979 nos prémios da Academia Japonesa.

Escrito por: Nuno Rocha