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Jūsangō taihisen yori: Sono gosōsha o nerae

Embora nunca tenha chegado aos níveis de popularidade de Kurosawa, Ozu ou Mizoguchi, a obra de Seijun Suzuki (鈴木 清順), cujo estilo e temática se afasta dos realizadores anteriormente referidos, merece um lugar de destaque na história do cinema japonês (e mundial).

Seijun Suzuki, que infelizmente faleceu em 2017, criou um estilo muito próprio que influenciou, e continua a influenciar, bastantes realizadores à volta do mundo. As suas obras mais famosas, como Koroshi no rakuin ou Tōkyō nagaremono, apresentam uma estética baseada no estilo film noir, embora entrem  bastante pelo campo do surrealismo, o que na altura criou a Suzuki bastantes problemas com o estúdio Nikkatsu, que exigia que o realizador seguisse um caminho mais “normal” na realização das suas obras.

Antes das obras que se viriam a destacar mais na sua carreira, Seijun Suzuki realizou em 1960 Jūsangō taihisen yori: Sono gosōsha o nerae (13号待避線より その護送車を狙え), um film noir que segue a investigação levada a cabo por Daijiro (Michitaro Mizushima), um guarda prisional suspenso após a carrinha onde transportava alguns prisioneiros ter sido atacada. Determinado a descobrir quem atacou a carrinha e as motivações que estiveram por detrás do ataque, Daijiro Tamon embarca numa investigação pessoal que o leva a conhecer um leque estranho de personagens ligados ao submundo do crime e da prostituição. Sendo um film noir, não poderia deixar de haver a presença de uma femme fatale, que aqui aparece no papel de Yuko (Misako Watanabe), a gerente de uma empresa de acompanhantes com um talento invulgar para o tiro com arco.

Jūsangō taihisen yori: Sono gosōsha o nerae é uma obra, que mesmo já tendo sido lançada há mais de cinquenta anos, continua a aguentar-se bem e a não parecer nada datada. Numa altura em que o cinema japonês enveredava por apostar em jovens talentos para este tipo de filmes (algo que Suzuki também viria a fazer nos seus seguintes filmes), em Jūsangō taihisen yori: Sono gosōsha o nerae o herói é um polícia experiente já com uma certa idade.

Embora seja duro e bastante sério no seu trabalho, não é o típico herói taciturno deste tipo de filmes, apresentando-se antes como um homem normalmente simpático que se vê numa situação inesperada. Daijiro mantém sempre a calma ao longo do filme, seja quando está debaixo de fogo ou quando é inesperadamente atacado por um grupo de adolescentes japonesas. Michitaro Mizushima faz um excelente trabalho neste filme, indo o seu apelo e carisma crescendo à medida que o filme avança.

A cinematografia do filme é excelente, com todos os planos do filme a parecerem terem sido planeados cuidadosamente, sendo dada bastante atenção a pequenos pormenores que são vitais para o avançar da intriga do filme. Nas cenas de acção, o estilo do realizador acentua-se, com as sequências de planos e constante movimento no ecrã a contribuírem para o aumento da intensidade, que é reforçada pela utilização de música jazz acelerada em toda estas.

Jūsangō taihisen yori: Sono gosōsha o nerae é uma boa introdução à obra de Seijun Suzuki. O enredo dá algumas reviravoltas que fazem com que o filme não se torne demasiado previsível, mas o maior destaque do filme vai para o seu protagonista e restantes personagens. Todos os personagens do filme têm algum pequeno pormenor que os destaca, seja pela sua personalidade nefasta ou charme peculiar, motivando o interesse do espectador em saber qual será o desfecho da história destes.

 Jūsangō taihisen yori: Sono gosōsha o nerae é uma boa introdução à obra de Seijun Suzuki. Com cenas de ação empolgantes, personagens peculiares, um enredo interessante e um estilo muito cool, Jūsangō taihisen yori: Sono gosōsha o nerae é um filme que marca uma época de transição (para o melhor) na carreira de um realizador único e cujo legado que deixou é sem dúvida inspirador.

 Escrito por: Nuno Rocha

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