Depois de alguns meses de espera finalmente consegui ver a sequela de um dos melhores filmes japoneses de 2013, Rurouni Kenshin. Rurouni Kenshin Kyoto Taika Hen (Kyoto Inferno) e Rurouni Kenshin Densetsu no Saigo (The Legend Ends) englobam dezassete volumes (7 – 17) do manga original criado por Nobuhiro Watsuki divididos mais ou menos pela metade em duas longas-metragens realizadas por Keishi Otomo. Nesta review irei focar-me então na primeira parte, Rurouni Kenshin Kyoto Taika Hen (lançado a 01 de Agosto de 2014), deixando a segunda parte para uma próxima review.

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Semelhante ao primeiro filme, Rurouni Kenshin Kyoto Taika Hen conheça por nos apresentar aquele que será o vilão principal da história. Estamos em Hyogo no ano de 1878 num local aparentemente abandonado que é varrido pela polícia, liderada claro por Hajime Saito (Yosuke Eguchi). Procuram Makoto Shishio (Tatsuya Fujiwara). Apesar dos esforços, a maioria dos polícias acabam por ser assassinados e Hajime Saito falha a captura do antigo Hitokiri Battousai.

De regresso a Tokyo, o Superintendente Kawaii visita o dojo para pedir a Kenshin Himura (Takeru Sato) que o acompanhe até à presença do Ministro Toshimichi Okubo (Kazufumi Miyazawa). Sabendo que Shishio pretende atacar e derrubar o novo governo e que Kenshin é o único cuja técnica é comparável à sua, Okubo pede-lhe ajuda. Apesar de inicialmente rejeitar a proposta, recusando-se a voltar a matar seja quem for, Himura não tem outra escolha senão encontrar-se com Shishio após o assassinato de Okubo.

Durante o percurso para Kyoto, tentando não dar nas vistas, Himura opta por um caminho mais remoto que passa por uma aldeia mas Shishio chega primeiro, conhecendo os planos do protagonista. No local o antigo Battousai depara-se com uma aldeia completamente destruída pelos homens de Shishio. Para além de escombros e pessoas aterrorizadas, o personagem encontra ainda Sojiro Seta (Ryunosuke Kamiki) que para além de ser o assassino de Okubo é ainda o braço direito do vilão.

Desapontado com o novo modo de vida de Kenshin, marcado pela Sakabatou, Shishio pede a Sojiro que “brinque” com o protagonista enquanto ele regressa ao seu “covil”. A luta entre os dois mostra as verdadeiras capacidades técnicas do jovem assassino. Após alguns minutos de confronto, as espadas acabam por ceder – a espada de Sojiro fica completamente danificada e a Sakabatou não resiste aos ataques, acabando por partir. Sojiro despede-se com um “até breve”.

Já em Tokyo, Kenshin é levado por Misao Makimachi (Tao Tsuchiya), uma rapariga que conhece no caminho, até ao Aoi-Ha, uma pensão que mascara a cede de um clã de ninjas conhecido como o Oniwabanchu. Lá ele encontra Nenji Kashiwazaki (Min Tanaka) também conhecido como Okina. Sentindo que o seu clã ainda pode ajudar o seu país, Okina oferece ajuda a Kenshin e este pede-lhe que encontre, Sekku Arai – o pai da Sakabatou. Embora Sekku tenha morrido há alguns anos, Himura visita o seu filho, Shakku Arai, na esperança que este lhe possa fazer uma Sakabatou. Mas o protagonista não é o único à procura de uma nova espada.

Cho Sawagejo (Ryosuke Miura) é um dos mercenários de Shishio e um amante de espadas que sabendo da existência de uma última espada feita por Sekku, rapta o seu neto para a conseguir adquirir à força. Himura enfrenta-o, tentando salvar a criança e vendo este acto de sacrifício, Shakku decide ir buscar a espada para a entregar a Kenshin. O duelo termina, Cho é preso e Himura consegue uma nova Sakabatou para além de se reencontrar com Kaoru Kamiya (Emi Takei) e Yahiko Myojin (Kaito Oyagi) que entretanto decidiram seguir o protagonista até Kyoto.

Na prisão, Cho acaba por confessar que Shishio pretende incendiar Kyoto e a polícia alerta a população imediatamente. Todos se preparam para o ataque, incluindo os Oniwabanchu, Kaoru, Yahiko, Kenshin, Saito e inclusivamente Sanosuke Sagara (Munetaka Aoki) que entretanto chega também à cidade.

No final da noite, quando tudo parece ter terminado, Sojiro rapta Kaoru para atrair Himura até ao navio de guerra que Shishio tinha construído para bombardear Tokyo, o seu verdadeiro plano. No navio, o vilão tenta duelar Kenshin mas falha quando manda atirar Kaoru ao mar, fazendo com que o protagonista deixe tudo para a tentar salvar.

Rurouni Kenshin Kyoto Taika Hen termina com Kenshin a ser encontrado na praia na manhã seguinte pelo seu Mestre, Seijuro Hiko (Masaharu Fukuyama).

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Em termos de Cinematografia confesso que Rurouni Kenshin Kyoto Taika Hen me desiludiu profundamente embora seja também executada por Takuro Ishizaka. Para quem não se recorda, uma das características que eu adorei ao ver Rurouni Kenshin foi o facto de a Fotografia não ser apenas uma iluminação simples e habitual mas um trabalho de plena Arte, onde praticamente cada plano transmite uma mensagem, mesmo que subliminar. No entanto, Rurouni Kenshin Kyoto Taika Hen abandona por completo essa abordagem, deixando o espectador com uma Fotografia que, apesar de não ser má, podia ser muito melhor.

Outro facto negativo que também não posso deixar de referir é a forma como alguns eventos do manga foram adaptados, especialmente a caracterização de Shishio e a “preguiça” em criar um argumento sólido, deixando-o com alguns buracos narrativos.

Makoto Shishio é desde sempre um dos meus vilões favoritos e de facto houve apenas um “pequeno elemento” que não gostei na sua versão live-action: as ligaduras. Sim, parece estranho mas continuo a achar que as ligaduras do anime conseguiam ser mais realistas do que as do filme.

Quem leu o manga, e até quem viu o anime, decerto se lembra da depressão que Kaoru sofre perante a possibilidade de nunca mais ver Kenshin. No filme, no entanto, a personagem parece perfeitamente bem, preferindo apenas afastar-se dos amigos (procurando alguma solitude). Quando Megumi a tenta convencer a seguir para Kyoto, a discussão do manga transforma-se numa conversa quase casual.

Há ainda a viagem de Sanosuke Sagara que é deveras curiosa. No manga a personagem segue caminho e encontra Yukyuzan Anji (cujo aparece mais tarde no filme), um monge que lhe ensina uma técnica chamada Futae no Kiwami, capaz de pulverizar pedras. Chegado a Kyoto, Sanosuke encontra-se com Saito e Kenshin antes do incêndio da cidade. No filme vemos a personagem começar a sua viagem até Kyoto mas a sua localização é completamente esquecida até ao início do incêndio de Kyoto onde Sano aparece literalmente do nada. Terá a viagem dele demorado mais que a de Kaoru e Yahiko? Terá ele se encontrado com alguém? Este é deveras um dos exemplos em que ou é esperado que o espectador tenha feito o seu trabalho de casa (lido o manga antes da visualização do filme) ou trata-se de uma falha do argumentista em criar uma lógica sequencial. Desculpa Sano, mas o argumentista esqueceu-se de ti.

Fora estes elementos que tornaram Rurouni Kenshin Kyoto Taika Hen numa experiência a provavelmente não repetir tão depressa, a obra tem de facto alguns outros elementos que me surpreenderam pela positiva.

O trabalho de Ryosuke Miura e Ryunosuke Kamiki, que interpretam Cho Sawagejo e Sojiro Seta respectivamente, surpreendeu-me bastante pela positiva, talvez por não conhecer ainda trabalhos dos actores. Ambos conferem às personagens uma personalidade única e bem trabalhada, desde o ar descontraído de Cho à técnica rápida e ágil de Sojiro.

Gostei também de algumas adaptações de cenário como o facto de terem optado por fazer a batalha final no navio de Shishio (embora tenha pena de não terem referido o seu nome, o “Purgatório”, que vai de encontro ao estado mental e físico de Shishio) em vez da mansão de que muitos se devem lembrar. Esta mudança acarretou algumas alterações que não foram completamente bem executadas mas depois da batalha na mansão de Kanryu Takeda no primeiro filme foi bom ver uma batalha num cenário tão diferente quanto a de um navio de guerra.

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Em discussão com alguns colegas chego à conclusão que Rurouni Kenshin Kyoto Taika Hen acabou por ser um trabalho feito à pressa, pelo lucro. Isto vê-se quer na Fotografia que embora feita pelo mesmo Director de Fotografia está longe da Arte do primeiro filme, quer no Argumento e Guião que oferecendo momentos de reflexão em Rurouni Kenshin se tornam aqui quase banais nos momentos mais importantes.

Culpa provavelmente dos Produtores que escolheram fazer dois filmes no tempo de um, com o financiamento de um, sem a ambição que o primeiro filme tivera e com uma enorme preocupação em mostrar eventos relativamente importantes, deixando de lado eventos fundamentais ao desenvolvimento narrativo e dos personagens, gastando mais tempo de filme com os primeiros do que com os segundos.

Recomendo? Sim, aos fãs. Apesar das grandes falhas, perceptíveis na maioria das vezes apenas quando comparadas ao primeiro filme, a obra consegue trazer à vida personagens que conhecemos bem e oferecer momentos de bom entretenimento. Apesar do “desgosto” gostaria de ver o resto do manga ser adaptado a Live-Action.

Escrito por: Ângela Costa