Depois de termos visto a versão original do filme Silêncio (ler artigo), era obrigatório vermos esta longa metragem com aproximadamente 160 minutos baseada no romance de Shusaku Endo realizada por Martin Scorsese e protagonizado por Liam Neeson, Andrew Garfield e Adam Driver como cabeças de cartaz.

Silêncio narra a vida de Padre Ferreira (Liam Neeson), um missionário que abandonou a sua crença como consequência da persecução e tortura sofrida no Japão, país onde dois jovens jesuítas (Andrew Garfield e Adam Driver, Padre Rodrigues e Padre Garupe, respectivamente) tem como missão encontrar o terceiro em desgraça. Estes homens de fé vão viver na própria pele a violência como “kakure kirishitan” (japoneses cristãos) viveram. O conceito “kakure kirishitan” surge nos anos seguintes à derrota dos camponeses japoneses – a maioria católicos – contra o xogum (chefe militar) Tokugawa Ieyasu na Rebelião de Shimabara (1637-1638).

Até então, e desde que o missionário Francisco Javier introduziu a religião no Japão em 1549, o catolicismo tinha sido – salvo raras exceções – bem recebido e prosperado principalmente em Kyushu, com Nagasaki como centro da Igreja. Por volta do final do século XVI eram mais de 300 mil os convertidos. No entanto os poderosos senhores feudais acharam que a entrada de uma religião estrangeira enfraqueceria o poder que eles tinham e foi então que cerca de 5.500 cristãos foram assassinados no arquipélago.

Em Silêncio o espectador, sem dar conta é constantemente desafiado a considerar a profundidade das suas crenças, enquanto o protagonista, Andrew Garfield (Padre Rodrigues), visa alcançar o seu objetivo durante a execução de seu trabalho como um padre entre os cristãos. O olhar superficial de alguém de fora poderia pensar que este tipo de desafio diz apenas respeito aqueles que professam a fé cristã, mas nada está mais longe da realidade. O filme foi estruturado de modo a que mesmo o mais comum dos mortais e afastado da fé consiga atingir valores universais.

Silêncio não é um filme panfletário ou dogmático. Também não tem nenhuma mensagem a favor ou contra. A narrativa permanece fora de tais possibilidades e são irrelevantes para a essência do filme. Qualquer pessoa, independentemente da crença ou que siga o culto que segue, vai encontrar uma maneira cinematográfica fascinante de viver e presenciar a experiência pessoal dos dois jesuítas durante a sua viagem fascinante.

O argumento do filme é sólido, longo e carregado de cenas e diálogos complexos, monólogos subtis de extensa narração narrando o que acontece em imagens. Martin Scorsese mede o tempo do filme perfeitamente. Dilata as cenas para nos transmitir uma sensação contínua de desconforto. Sem música enche o filme para dirigir as emoções.

O elenco do filme é também um ponto alto de Silêncio. Não só destacamos as representações dos actores principais como o papel do interprete representado por Tadanobu Asano (o actor mais conhecido para quem está familiarizado com o cinema japonês), o velho samurai Inoue interpretado por Issei Ogata ou Yousuke Kubozuka em Kichijiro, mas também todos aqueles figurantes que representaram de uma forma devota e realista toda a difícil vivência dos “kirishitan”. É sem dúvida impressionante.

Outro aspecto interessante é a inexsistência de música, opção penso que propositada do realizador para dirigir todas as emoções da longa metragem aos espectadores. Scorsese simplesmente afirma os factos e deixa que o espectador olhe, ouça e julgue atingir a catarse.

Com este “Silêncio”, Scorsese cumpre um sonho que manteve por quase 30 anos: levar ao grande ecrã a origem deste misterioso culto japonês que pode desaparecer, pois segundo as últimas estatísticas o Cristianismo no país do Sol Nascente é apenas de 1%.
Um filme obrigatório para conhecer um pouco mais de história do país do Sol Nascente.

Escrito por: Fernando Ferreira