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Tokyo Monogatari

Dos três grandes cineastas japoneses – Akira Kurosawa, Kenji Mizoguchi e Yasujiro Ozu, considerados os pais fundadores da cinematografía nipónica, Ozu sempre ostentou o rótulo de ser o “mais japonês” de todos. Uma definição que dá relevância ao carácter especial, distinto e inimitável à sua obra.

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Ozu era um conservador por natureza e isso reflecte-se no seu trabalho, quer atrás das câmaras, quer no ecrã. Tendo utilizado a mesma equipa técnica e actores ao longo da sua carreira, os filmes de Ozu têm quase todos o mesmo visual e a sua imagem de marca é a câmara estática baixa, como se estivesse ajoelhada num tapete (tal como o costume japonês). O seu modo simples permitiu-lhe centrar-se nos detalhes, tendo os sons e os rostos, um papel fundamental na transmissão de emoções e que, no caso de Viagem a Tóquio o tornam um retrato social universal e intemporal.

Em Tokyo monogatari (“A Viagem a Tóquio”, na versão portuguesa e que foi pela primeira vez exibido no nosso país), Ozu aborda muitos dos grandes temas da condição humana, e fá-lo a partir da simplicidade mais prosaica.

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Tokyo monogatari é um filme, antes de mais, sobre a família, sobre os costumes do dia-a-dia, sobre o peso dos anos (que não findam), sobre o crescimento, sobre a convivência vulgar, diária e difícil de sustentar, de equilibrar e de revitalizar. Os nossos, a nossa família, é única, é insubstituível, é um dado adquirido (mas também por adquirir, por degustar) no bom e no mau sentido, isto é, quando as coisas correm bem ou quando as coisas correm menos bem.

A viagem à capital japonesa de um casal de idosos (Tomi e Shukichi, interpretados por Chieko Higashiyama e Chishu Ryû respectivamente) para reencontrar os seus filhos crescidos transporta o espectador a enfrentar a passagem inexorável do tempo, o conflito entre o passado e o presente no contexto do Japão emergido do trauma da Segunda Guerra Mundial, com o contraste entre decepções e ilusões pessoais e a realidade, com a crueldade e a hipocrisia das convenções sociais e das relações humanas, com o declínio infalível de toda a existência.

Interpretada pela grande actriz Setsuko Hara (presença constante nos filmes do cineasta), Noriko emerge assim como a única figura verdadeiramente filial. “A filha casada é como um estranho”, observou Shukichi, o velho patriarca da família. No fundo, é ela que se revela em toda a história a mais cumpridora das responsabilidades familiares que qualquer membro da família. Mas Noriko está longe de ser feliz. Como todas as outras personagens, também ela vive desencantada com a existência a que se conformou.

Todos membros da família são retratos reconhecíveis, reais, incorporados num cenário tão real e reconhecível, que permite que a história transcende as peculiaridades do contexto histórico e cultural para tornar-se uma história universal.

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Depois da “viagem a Tóquio”, haverá uma nova reunião da família, inesperadamente catapultada por um triste acontecimento. Casamentos e mortes sempre foram pontos fulcrais nos filmes de Ozu, talvez por serem acontecimentos que têm tanto de banal como de extraordinário na vida humana. Mas, no final, fica a solidão e a partida. A vida que prossegue independentemente de nós.

Tokyo monogatari pode ser um drama mas está longe de ser melodramático. O seu tom é de serena aceitação do que nos entristece. Há imensa amargura nas profundezas desta obra de arte mas, pelo milagre de Ozu, ela quase consegue sentir-se como algo peculiarmente doce.

Como nota de curiosidade, Tokyo monogatari foi considerado o melhor filme de todos os tempos no inquérito efectuado pela Sight & Sound a centenas de realizadores de todo o mundo.

Escrito por: Fernando Ferreira

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