Estar no Japão, vivendo o dia-a-dia do trabalho e do contacto com as pessoas, é uma aprendizagem constante. Todas as pessoas, por mais que tenham estudado cultura japonesa durante anos, sentem que esta “imersão” é muito intensa. Aquilo que se nota imediatamente é o seguinte: as coisas que pensávamos que sabíamos (fazer) são na verdade muito mais significativas para os outros e muito mais complexas no desempenho do que aquilo que antevíamos. O exemplo perfeito é o uso de O-hashi – os pauzinhos.

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É praticamente certo que uma pessoa escolhe ir para o Japão por estar familiarizada com a sua cultura e que, entre outras coisas, já comeu comida japonesa recorrendo ao uso dos ditos pauzinhos. No entanto as “maneiras” relacionadas com a alimentação são, em todas as culturas, um dos tópicos mais complexos, com conotações implícitas que são desconhecidas dos estrangeiros (vastos estudos de antropologia sobre este assunto…). Foi por ter recentemente esclarecido algumas pessoas quanto a erros graves que estavam a fazer (e que em Portugal não são problema nenhum mas no Japão seriam) que me lembrei de voltar ao tópico da comida e dedicar um artigo todo aos pauzinhos. Ora aqui vai…

Primeiro é preciso recordar regras básicas, em parte coincidentes com as regras à mesa em Portugal. Não são seguidas por todos neste nosso país de brandos costumes mas se falham nisto no Japão vão causar mesmo muito má impressão (mais uma vez, não esperem ver uma reacção emocional nem que alguém vos diga, o mais provável é que sorriam embora na verdade estejam constrangidos e escandalizados): cotovelos nunca tocam a mesa; as costas devem estar sempre direitas; nada de ir tirar coisas aos pratos das outras pessoas; para beber poisam os instrumentos e pegam no copo com uma mão, tomando golos pequenos e sem ruído; não se fala com comida na boca e também não se engole a comida rapidamente com água/chá para falar. No caso das raparigas/mulheres, existem mais algumas regras a somar às anteriores: quando bebem usam a mão livre (a que não está a segurar no copo) para segurar a base do copo; se precisarem de abrir a boca mais do que o tamanho de um ovo de codorniz devem pôr a mão livre à frente da boca.

Nunca coloquem telemóveis, carteiras, lenços ou seja o que for em cima da mesa em que estão a tomar a refeição. No Japão não é suposto usar-se guardanapo, em circunstâncias ideais e devido ao uso correcto dos pauzinhos vocês nem sequer deveriam sujar a boca. No entanto, nos restaurantes e cantinas oferecem um toalhete húmido no início da refeição – para limpar as mãos – que também podem usar como guardanapo se precisarem.

“O-hashi” não são só usados para tomar a refeição, são também usados para cozinhar ao fogão e manusear ingredientes na cozinha. Para além disso, são usados pauzinhos com decoração e acabamento ligeiramente diferente para colocar no cabelo, e existe ainda um tipo de pauzinhos que é usado nas cerimónias fúnebres. Assim, existem algumas regras no uso alimentar dos “hashi” que deriva de reminiscências desses usos, ou seja, do efeito que pode provocar nas pessoas. Regra geral, não se deve fazer nada com os “hashi” à mesa que lembre aquilo que se faz nas cerimónias fúnebres – porque a morte é uma coisa impura, constrangedora e anti-social no sistema de valores xintoísta.

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As duas coisas que são absolutamente proibidas de fazer à mesa são: deixar os pauzinhos “espetados” ou de algum modo dentro de uma tigela de arroz, e também passar coisas de um par de pauzinhos para outro (de uma pessoa para outra).

Para além disso também é proibido o seguinte: agarrar os pauzinhos com um punho fechado e manuseá-los desse modo; depois de ter os pauzinhos devidamente colocados na mão fazer gestos com a mão relacionados com o que se está a conversar (atenção, gesticular é muito natural na comunicação portuguesa, mas com pauzinhos na mão não podem fazê-lo); apontar para alguém com os pauzinhos; pôr a ponta dos pauzinhos que usam para levar a comida à boca no prato de onde tiram a comida que é para toda a gente (devem reposicionar os pauzinhos, usando a ponta oposta / mais larga para fazer isto, colocando no vosso prato, e depois reposicionar outra vez para comerem com a ponta mais fina); deixar os pauzinhos nos pratos / tigelas depois de comerem (devem por no descanso apropriado); cruzá-los; brincar com eles antes de vir a comida; mordê-los quando levam a comida à boca (os lábios e dentes devem tocar o menos possível).

Podem ter os pauzinhos na mão quando dão a saudação inicial antes de comer, mas nesse caso será antes de os posicionarem na mão, ou seja, antes de os abrir/separar. É importante que não abram os pauzinhos nem os façam tocar na comida antes desta saudação. Se não sabem pronunciar “itádákimáss(u)”* simplesmente juntem as mãos com os dedos esticados à frente do vosso peito durante 2 segundos ao mesmo tempo que as outras pessoas o fazem. Depois de comerem e de colocarem os pauzinhos no descanso apropriado devem fazer o mesmo gesto para “gó(t)chissô-sama-déchitá” *. Recentemente as boas maneiras quanto a estas duas saudações relaxaram um pouco junto da parte masculina da população, eu cheguei mesmo a ver jovens adultos a comer em cantinas, tascas e bancas de comida na rua que apenas o murmuravam de forma inaudível, sem gesto nem nada. Claro que isto é ter muito más maneiras, por isso apesar de não ser raro não devem fazê-lo à frente de outras pessoas.

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Tenham em consideração que vão ter de usar pauzinhos mesmo para comer coisas que precisam de ser cortadas, e não vão ter facas ao dispor. Geralmente a comida japonesa é servida sem ossos, espinhas, e sem nada que impeça uma pessoa de comer relaxada e estar segura que não vai sufocar ou magoar-se. No entanto alguns pedaços de legumes, tofu ou de peixe grelhado podem ser maiores do que aquilo que conseguem por na boca. Um erro comum, cometido por estrangeiros, é resolverem isto… abrindo mais a boca! Não façam isso, a única excepção aceitável é se for um pedaço de sushi ou de sashimi.

Usem os pauzinhos segurando o pedaço com firmeza e deixando de fora a parte que conseguem comer numa dentada de tamanho normal, depois aproximem-nos na boca a 45 graus com a vossa cara (quase de lado), trinquem e comam uma parte, a outra parte fica segura nos pauzinhos, baixem os pauzinhos até ao prato mas não larguem esse pedaço porque vão comê-lo na próxima dentada. Os profissionais de “hashi” podem cortar os pedaços de comidas como tofu ou pudim na tigela usando os pauzinhos, para isto não podem mudar a posição deles na mão, simplesmente aplicam mais força ao fechar o par de pauzinhos depois de os terem colocado a meio do que querem separar (para coisas rijas não funciona), pressionam e dividem.

Talvez isto vos faça pensar que têm que se concentrar muito e não irão desfrutar da refeição… na verdade nas primeiras 2 ou 3 vezes têm de se concentrar mas depois habituam-se e torna-se uma coisa automática e natural!

Nota: Esta não é a maneira correcta de escrever estas palavras segundo o sistema internacional de transcrição de palavras japonesas para alfabeto ocidental, mas é a maneira de ser lido por um falante de português (de Portugal) do modo mais aproximado ao que é pronunciado no Japão.

Para terminar tenho duas recomendações, pois reparei que muitas pessoas recorrem a vídeos (incorrectos) feitos por ocidentais. Apesar de eu própria ser uma das ocidentais que está a tentar “traduzir” a cultura e sociedade japonesas para outros ocidentais (LOL) recomendo o recurso a fontes primárias. Porque a compreensão da língua pode ser um problema para alguns, escolhi dois vídeos com legendas em inglês.

Informação + humor:


“The Japanese Tradition – Chopsticks”

Formação para iniciantes /crianças/ estrangeiros:


“The Answer Book: Guide to mastering the chopsticks within 5 minutes”
(também é um bom exemplo do método pedagógico e do funcionamento da sociedade japonesa quanto à aprendizagem ou treino de uma aptidão nova)

Escrito por: Inês Carvalho Matos