É conhecido como o “pintor da Era Showa”, era que corresponde ao período do reinado do Imperador Hirohito, de 1926 a 1989. Se este título poderá ser muito pomposo para alguns dos estudiosos da história do manga, para outros este título é meramente a constatação de duas evidências: Kamimura Kazuo (上村 一夫) nasceu em 1940 e morreu prematuramente com 46 anos vitima de um cancro na faringe e a sua arte transcende o manga ao fazer as suas pranchas em quadros fugindo ao papel de má qualidade a que tinha acesso.

Desde o ínicio da sua carreira até aos anos 60, Kamimura esforçou-se para elevar o manga ao limite da diversão infantil e juvenil. Ele aparece e pertence à primeira geração de autores que lia na altura como era o caso do grande mestre e conhecido como o pai do manga, Osamu Tezuka.

Ao lado de Kenji Nakazawa, autor de “Hidashi no Gen” Kamimura contribuiu para o desenvolvimento do gegika (uma categoria de manga especificamente destinado a um grupo de leitores mais adulto).

A sua produção era impressionante chegando às 400 páginas por mês. É também com esta produção massiva que Kamimura decide tratar de assuntos menos ligeiros nas suas obras: a vida das mulheres em Shinano-gawa (しなの川), as grandes diferenças sociais no Japão do séc. XX com o manga Kantō heiya (関東平野), a vingança em Shurayuki-hime (修羅雪姫), o manga que inspirou a personagem principal do diptico Kill Bill de Quentin Tarantino, entre outros.

No entanto o tema mais abordado na obra de Kamimura são as mulheres: Maria (マリア) e Rikon Club (離婚倶楽部). De uma forma geral, as mulheres tinha poucos direitos na sociedade da Era Showa. Este tipo de aproximação e de conteúdos é uma das grandes novidades no manga pós-guerra. Nas histórias de Kamimura, os direitos dos homens são raros, e estão sempre “às costas” das suas heroínas, fortes e independentes.

A sua arte é inspirada pela estética dos Ukiyu-e, as pinturas e estampas tradicionais japoneses que eram particularmente apreciadas no séc. XIX. O resultado é um desenho relativamente simples mas bastante dinâmico que usa uma variação de distorções, ângulos e quadros para melhorar os efeitos de velocidade e dar próprios movimentos mais acção.

Devida à sua importância no universo da banda desenhada japonesa e de ser um dos autores japoneses mais publicados em França, o Festival de Banda Desenhada de Angoulême deste ano (2017) deciciu homenagear Kazuo Kamimura com uma exposição retrospectiva.

Escrito por: Fernando Ferreira