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Pluto

Sendo Naoki Urasawa um dos meus mangakas favoritos, já tinha planeado ler esta obra há algum tempo. Embora não seja propriamente um “original”, é sem dúvida um dos desafios mais interessantes a que o autor se propôs.

Criado como uma homenagem a Tetsuwan Atom de Osamu Tezuka, Pluto (プルートウ) surgiu após Naoki Urasawa revelar ao filho mais velho do “pai” do manga que queria elaborar uma obra baseada nesse manga mítico como celebração da data de nascimento de Atom na obra original (7 de Abril de 2003). Começando Macoto Tezuka por recusar no início, devido ao número de obras que tinham sido criadas na altura como homenagem ou paródia ao original mas que não eram propriamente trabalhos que se assumiam como peças independentes, o projecto acabou por avançar devido à insistência de Naoki Urasawa.

Após uma noite de copos com Macoto Tezuka, Macoto acabou por ser brutalmente honesto e revelar a Naoki Urasawa que só aceitaria a proposta caso este fizesse um trabalho onde fosse fiel ao seu próprio estilo e se afastasse bastante do design e ambiente da obra original. Macoto não queria apenas uma obra que fizesse homenagem ao seu pai, queria que Naoki Urasawa se esforçasse ao máximo para ultrapassar a obra original a todos os níveis. Surpreendido pela frontalidade de Macoto, Naoki Urasawa arrumou os rascunhos iniciais que tinha para a obra e enfrentou este desafio agoniante: o de superar em qualidade o “pai” do manga.

Pegando numa das histórias mais aclamadas da obra original (“The Greatest Robot in the World”), onde um sultão cria um robô poderoso o suficiente para enfrentar os robôs mais poderosos da terra, Naoki Urasawa distanciou-se um bocado do estilo icónico do original e criou uma obra mais realista que seria credível de acontecer no futuro (talvez assim não tão distante). Ao contrário do original, o protagonismo de Atom não é tão enfatizado nesta obra, sendo Gesicht, um inspector robô da Europol e um dos robôs mais poderosos do mundo, a roubar para si grande parte do protagonismo durante quase toda a obra.

Mantendo-se fiel em termos de personagens e enredo geral ao original, Pluto afasta-se do original de Tezuka ao investir mais na história de cada robô e ao mesclar vários géneros antes de chegar ao clímax. Durante grande parte da história, Pluto tem um ambiente bastante noir, com Gesicht a ir desvendando pedaços do mistério que envolve a morte dos seus antigos colegas enquanto é confrontado com alguns momentos do seu passado que parece ter esquecido. À medida que a história vai avançando, a relação emocional entre humanos e robôs vai sendo alvo de maior foco, com a humanidade das máquinas e a definição do que é um robô “perfeito” a ser bastante debatida.

Embora goste bastante das obras de Osamu Tezuka, a verdade é que Tetsuwan Atom não é uma das que conheça melhor. Não sendo justo fazer uma comparação com o original devido à minha falta de conhecimento, a verdade é que esta adaptação é sem dúvida um grande manga que se aguenta como obra independente e que provavelmente será superior à história original.

Com um nível enorme de detalhe e uma história muito bem construída, onde criamos laços de afecto com alguns dos personagens, Pluto é mais que uma obra sobre o rapaz robô que Osamu Tezuka criou. É uma obra emocional que apela a nossa humanidade e nos faz pensar sobre os horrores da guerra. Põe também em discussão a relação afectiva que poderemos vir a ter com as máquinas no futuro e a actual relação que temos com aqueles que nos são mais próximos. Numa batalha entre Tezuka e Urasawa não sei quem ganhava, mas Pluto mostra que ambos tinham capacidade suficiente para mandar o outro pelo menos uma vez ao tapete.

Escrito por: Nuno Rocha

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