Sunny é o mais recente trabalho de Taiyō Matsumoto, cuja conclusão no japonês original se deu na edição de 27 de Julho de 2015 da revista Gekkan Ikki onde a série vinha a ser publicada desde 2010. Este é, quiçá, o mais completo trabalho de Matsumoto até à data, e que assume também algumas idiossincrasias que parecem representar uma nova fase da sua sensibilidade como autor e de temas de trabalho, começada já em Takemitsu Samurai (2006-2010). De facto, se abordarmos as obras que dizem respeito à juventude, Blue Spring, Tekkonkinkreet, Ping Pong ou GoGo Monster, há várias diferenças que as distanciam deste Sunny. De facto, se damos de barato a presença do protagonista (protagonistas, neste caso) infantil-juvenil, há aqui uma marcada ausência do sobrenatural ou do transcendente (para não dizer do bizarrismo), e antes uma dedicação inabalável ao realismo, no estilo absolutamente sui generis de Matsumoto. Sunny diz assim respeito a pequenas histórias, mais ou menos contínuas, dos actuais e antigos membros do orfanato Star Kids Home, numa trama bem enraizado no Japão do final de 70s.

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Se este saudosismo pela infância se mantém (e não é único no seinen, basta pensar nas várias obras de Jiro Taniguchi ou até na série de videojogos Boku…, nunca antes se tinha fixado temporalmente de forma tão rematada. Somos então transportados para o Japão das primeiras idols, dos primeiros lutadores de puroresu, do Ultraman, Space Invaders e, claro, o Datsun Sunny que dá o nome à obra, entre referências que se dirigem assumidamente a um público japanófilo (se não mesmo japonês) especializado.

No entanto, esta não é uma visão adulta daquele período como tantas obras “saudosistas” insistem em fazer – não há referências ao boom económico ou outras invenções do mundo adulto. O que transparece é a visão das crianças, crianças essas que vivem sempre no presente (naquele presente) e a maneira como Matsumoto consegue resgatar a inocência e a mentalidade dessas crianças (sem ser pejorativamente infantil, longe disso) e, apoiado no seu traço, exprimi-las através dos vários protagonistas que tem criado ao longo do anos, será sempre sua mais-valia e ponto de interesse.

Se há algo que Matsumoto conseguiu passar como ponto balizante na sua obra-prima Tekkonkinkreet, foi a de que não há heróis solitários – todos têm defeitos e todos se complementam. Mais do que os protagonistas Kuro e Shiro da supracitada obra, todos os miúdos e graúdos da Star Kids Home se completam e formam uma só unidade, conseguindo os capítulos ser sempre variados e complexos o suficiente para garantir o realismo. Não há personagens inúteis, e a expressão do traço de Matsumoto consegue por vezes com uma só imagem dizer tudo o que há para dizer (a bem dizer sobre o que quer que seja). No entanto, grosso modo, praticamente cada capítulo da obra dá protagonismo a uma personagem ou pequeno grupo de personagens diferentes, garantindo uma distribuição equitativa do enredo por todas.

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Se o detalhe das ilustrações é quiçá dos mais profundos e completos do género, e Matsumoto já tinha provado que não há objecto que não desenhe, também agora o traço é mais expressivo, mais suave e mais dinâmico, não se limitando à tinta-da-china, sendo frequente o recurso à aguarela, por exemplo. O controlo que Matsumoto faz da caracterização do ambiente sonoro através das falas (mas não só) é absolutamente fenomenal – até por se desprender da tendência para o absurdo que tem caracterizado a sua obra (No. 5 em especial), tornando as personagens aqui presentes muito mais dinâmicas do que as obras passadas.

De Sunny sobressai então uma obra de um autor que atingiu inapelavelmente a maturidade, que conseguiu abandonar uma estética que assentava em pilares desequilibrados para algo artisticamente consistente e absolutamente completo. Matsumoto preenche finalmente a tela com a sua visão (certamente arrimada de pormenores da sua própria juventude). De tal forma é fácil a imersão neste mundo, pela extraordinária caracterização do mesmo, que o que se valoriza são todos os pequenos momentos que preenchem a obra. E Sunny é isto, uma história sem heróis nem vilões, nem princípio nem fim, uma história inacabável, algo que vive e cuja essência se cinge a toda a esta viagem de 5 anos de publicação, e nunca a um epílogo.
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Sunny tem sido editado em inglês (Viz Media) e francês (Kana). Matsumoto venceu o prémio de excelência do Japan Media Arts Festival e o prémio Osamu Tezuka pela sua obra Takemitsu Samurai, assim como o Eisner por Tekkonkinkreet, tendo o mesmo Takemitsu Samurai assim como Sunny feito parte da selecção oficial do festival de Angoulême. Sunny venceu também o Cartoonist Studio Prize. Algumas das suas obras foram adaptadas para outros tipos de media. Tekkonkinkreet foi adaptado para o cinema (anime), Ping-Pong para live-action e série de anime, e Blue Spring igualmente para filme live-action.

 

Escrito por: João Mota