Estávamos em 2010 quando as BiS (Brand-new Idol Society), irromperam no universo dos “Idols”, o género musical povoado por rapariguinhas em idade escolar, de vozes estridentes e sentimentos cristalinos, que com os seus guarda-roupas extravagantes e pop multicolorida seduziu o Japão.

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O seu manifesto tinha tanto de obstinado como de ambivalente: aniquilar as AKB48 e todas as coisas ‘giras’ sem abdicar da intenção de se tornarem, elas próprias, ídolos.

Tal desígnio enfrentou a desconfiança inicial dos fervorosos admiradores dos ‘Idols’ e a indiferença de todos os restantes mas as meninas tinham uma atitude única e as aparições promocionais, controversas, começaram a ter eco um pouco por todo o lado. Mais importante ainda: a música era muito boa.

Após um álbum estreia curioso que canalizava uma postura desafiante através de uma mistura agradável de ‘power-pop’, puro rock, electro-pop e até ‘vapourwave’, o ano de 2012 assistiu à sua passagem para o selo da respeitável “Avex Trax” e a apresentação triunfal da obra-prima “Idol Is Dead”.

Sem paralelo na cena ‘Idol’ ou em qualquer outro género musical, as BiS moviam-se, graciosamente, pelo mais cavernoso metal, ritmos hardcore, pop delicodoce, ‘shoegazing’, música de dança, ‘piano rockers’ e até uma delicada balada, na forma de ‘Hitoribochi’.

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Como se a música não fosse suficientemente confrontativa, tudo vinha embrulhado num conceito de ‘anti-idol’ ou ‘alternative-idol’ que incluía vídeos radicalmente inovadores e um sem-número de actividades paralelas que iam desde protagonizarem uma longa-metragem até colaborarem, em disco e ao vivo, com os radicais de ‘noise music’, Hijokaidan, o que confirmava as BiS como um projeto multifacetado e determinado a colidir com as fundações da música pop e a não deixar pedra sobre pedra sobre a imagem tradicionalmente imaculada e submissa dos grupos de ídolos femininos japoneses.

Obviamente, não poderia durar muito tempo. Pelo menos com o nível de intensidade imposto às/pelas meninas.
Finalmente, este ano, após várias e tumultuosas alterações na formação inicial, da qual apenas restavam a líder e fundadora Pour Lui e Nozomi Hirano, para além do mentor do projeto,

Watanabe Junnosuke, e da equipa de produção musical liderada por Kenta Matsukuma, as BiS anunciaram a sua funérea dissolução (literalmente, com direito a templo mortuário e coroas de flores!) com um extravagante concerto de despedida com a duração de três horas na imensa Yokohama Arena – uma ironia para um projeto que construiu a sua aura com infames atuações em pequenas salas claustrofóbicas e apinhadas.

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Compilando um trilho de ‘singles’ fabulosos, (‘BiSimulation’, ‘DiE’, ‘Fly’, ‘STUPiG’ e a colaboração com as colegas de editora Dorothy Little Happy, ‘Get You’), “Who Killed Idol” é uma apoteótica despedida digna de um projeto único e, ainda que não soe tão consistentemente brilhante como “Idol Is Dead” (um feito impossível, para este ou qualquer outro grupo), continua a ser uma mistura entusiástica de múltiplos estilos musicais a que junta o ‘ska’ de ‘Mura Mura’, com uma formação em topo de forma e interpretações enérgicas.

Lendárias, como Pour Lui desejava que fossem recordadas: ‘Idol is dead, long live BiS’!

Escrito por: Claudio Pedrosa