Fuminori Nakamura 中村 文則 é o autor de Suri (na tradução inglesa The Thief; 掏摸, tr. lit. Pick-pocket), vencedor do Prémio Kenzaburō Ōe de 2010 (Kenzaburō Ōe 大江健三郎, prémio Nobel da Literatura em 1994, escolhe o vencedor e dá o nome a este prémio, promovido pela Kodansha 講談社, a maior editora japonesa) que, se por um lado é já o seu sexto romance, foi também o primeiro a ser traduzido para outra língua que não o japonês (neste caso para inglês, ao que não é alheio a sua categoria de vencedor do prémio supracitado; este romance foi entretanto também traduzido e editado em francês [Pickpocket, 2013] e espanhol [El Ladrón, 2013], a quem interessar). Esta tradução foi ainda finalista do Prémio do Los Angeles Times de 2013, assim como foi incluído na lista dos dez melhores romances do mesmo ano pelo Wall Street Journal. Para efeito desta resenha foi lida a primeira edição da versão inglesa, em paperback, traduzida por Satoko Izumo e Stephen Coates, e editada pela Corsair, em Londres, 2012.

A decisão em ler este livro não partiu de qualquer interesse prévio, mas antes pelo acaso de o encontrar numa livraria portuguesa, e pela curiosidade em ler um autor japonês que não conhecia.

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A trama deste romance desdobra-se na primeira pessoa sendo este narrador, autodiegético e raramente nomeado, e como denomina o título, um carteirista, sério e profissional, que, à medida que nos é dada a conhecer, se insere no submundo de Tóquio. Não sendo o género do livro estritamente criminal é na sua visão metafórica e, até, metafísica, que procura transmitir a sua mensagem – há porventura 3 obras, uma das quais o autor refere directamente no corpo do texto, que ilustram o seu campo temático, a saber: os romances Crime e Castigo (1866) de Fiódor Dostoiévski e Psicopata Americano (1991) de Bret Easton Ellis, assim como o filme O Carteirista (1959) de Robert Bresson. Destes se extrai o contexto psicocomportamental através do qual se explora o lado mítico, romântico e técnico do conceito de crime, e a crítica da sociedade (estritamente adaptada ao Japão) e respectiva responsabilização (isto num país tido como dos mais seguros do mundo, não desprezando no entanto a grave crise económica e consequentemente social que tem atravessado).

Ao longo da história é notório o desalento com uma certa hipocrisia daqueles que rodeiam o protagonista. Este acaba por levar a arte do carteirismo à sua êxtase – se não é essa arte que lhe permite viver, facilmente se dirá que vive para a mesma. Como qualquer função vital, não é algo que, apesar da excitação do roubo, lhe dê particular gozo – aliás, há uma certa tentativa de a descrever como patologia psiquiátrica, embora valha a verdade tenha sido demasiado superficial para ter fundamento. Por outro lado as descrições dos vários roubos constituem sem dúvida as passagens mais expressivas e interessantes, com um grau de detalhe notável e bem gizado, assim como verdadeiramente empolgantes. Se a própria excitação do roubo é comparada no livro a um fogo de artifício, também é exultada como algo de único e especial e que apenas poucos têm o prazer de experimentar.

Se na verdade não é o protagonista quem faz essas declarações, mas sim um chefe da Yakuza (Kizaki), que apresenta todas as características de um sociopata, então aí também é fácil estabelecer o paralelismo com o Psicopata Americano de acima, na medida em que estabelece a elite como não estando constrangida pelas regras ou até que dita as próprias regras. No entanto, se todos habitam o mesmo universo social é daí a raíz do conflito deste drama. Se a lei é de sobrevivência, a verdade é que uns têm à mão todos os recursos necessários e os outros não. Por outro lado é o próprio acto físico do carteirismo que deixa o protagonista entrar literalmente na vida da elite, não deixando por isso de deixar de ser escumalha.

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A história acaba por se dividir em 3 partes, partindo e acabando no presente, com uma viagem ao passado pelo meio, que acaba por fundamentar toda a trama. Assim, se nos é imediatamente apresentado o protagonista já no auge das suas capacidades, é essa viagem explicativa ao passado que não só explica a sua situação presente como lança as bases para a conclusão. Esta prende-se com uma ligação à Yakuza onde ele e outros dois como ele são contratados para integrar uma equipa que irá assaltar a casa de um indivíduo com vista a chantageá-lo relativamente a uma evasão fiscal (outra forma menos nobre de roubo). Embora esta incursão tenha decorrido sem incidentes, e de forma bastante lucrativa para todos os envolvidos, é introduzido o vilão, na personagem de chefe daquela família Yakuza que, de forma quase sobrenatural (certamente não ao alcance do “homem comum”, continuando a crítica social), acaba por determinar a morte dos 3 carteiristas com o intuito de eliminar todas as pistas passíveis de o incriminar.

Se os outros dois foram mais ou menos facilmente despachados, já o protagonista desta história é antes incumbido com 3 trabalhos finais a completar, contra a possibilidade de salvar um miúdo e a sua mãe. Estes dois surgem na história de forma aleatória – o protagonista encontra-os a roubar num supermercado e salva-os de serem apanhados pela segurança. O miúdo, maravilhado com as lições recebidas, acaba por ver nele um modelo a seguir e passa a persegui-lo com o intuito de aprender todos os truques da arte. Já o protagonista, ainda que de forma relutante, acaba também por se rever no miúdo e recorda o que o levou a adoptar este meio, assim como procura, para além de o ensinar a não ser apanhado, dar-lhe a oportunidade de escapar dessa vida enquanto ainda vai a tempo. Finalmente, as outras personagens que acabam por ter alguma relevância são um dos companheiros de crime dele (Ishikawa), que acaba morto então morto pela Yakuza, assim como uma mulher com quem tinha uma relação e também falecida (Saeko), com quem se parece a mãe do miúdo (o que dá mais um componente emocional aos 3 trabalhos finais que, qual herói grego, tentará).

Aliado a tudo isto e ao longo do livro é frequente o protagonista fazer alusão a uma torre, por cuja visão é perseguido desde pequeno. Para além dos episódios com a família desestruturada, também noutras alturas é aparente uma certa superioridade moral do carteirista que, a saber: só rouba ricos, só rouba homens, defende os outros. A isto se liga o tal desalento com a sociedade (ele que vive completamente à margem dela). O problema do roubo perfeito é que ninguém o testemunha, ninguém o reconhece. Ser apanhado, no entanto, estabelece a comunicação, integra. A torre é assim o símbolo de algo que se vê à distância mas que se nunca alcança, um objectivo de vida que nunca é realizado e que mais uma vez é reflexo da pirâmide social. No entanto mais do que uma vez é ressalvada a importância da aparência externa (mesmo que não convença a alma) na certeza de que a única maneira de atingir a tal “torre” é viver no limiar da incerteza, como deixa transparecer o fim, inconclusivo (ainda que o livro tenha tido uma sequela [Ōkoku 王国], ainda não traduzida e editada no Ocidente).

Concluindo, The Thief é sem dúvida um livro interessante que consegue capturar uma atmosfera de “entertainment” à medida de Hollywood sem por isso deixar de ter pretensões metafísicas assim como uma mensagem social. Tendo forma estética apurada e conteúdo intelectual cumpre a função literária, é certo, sem se exceder, mas que certamente não deixará nenhum leitor decepcionado.

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Outras obras do autor:
Romances
Jū (銃), 2003 (Revolver, FR, 2015)
Shakō (遮光), 2004
Akui no Shuki (悪意の手記), 2005
Saigo no Inochi (最後の命), 2007
Nani mo ka mo Yūutsuna Yoru ni (何もかも憂鬱な夜に), 2009
Suri (掏摸), 2009 (The Thief, 2012; Pickpocket, FR, 2013; El Ladrón, ESP, 2013)
Aku to Kamen no Rūru (悪と仮面のルール), 2010 (Evil and the Mask, 2013)
Ōkoku (王国), 2011
Meikyū (迷宮), 2012
Kyonen no Fuyu, Kimi to Wakare (去年の冬、きみと別れ), 2013 (Last Winter We Parted, 2014)

Colectâneas de contos
Tsuchi no Naka no Kodomo (土の中の子供), 2005
….    Tsuchi no Naka no Kodomo (土の中の子供), 2005
….    Kumo no Koe (蜘蛛の声), 2004
Sekai no Hate (世界の果て), 2009
….    Tsuki no Shita no Kodomo (月の下の子供), 2008
….    Gomi Yashiki (ゴミ屋敷), 2008
….    Sensō-Biyori (戦争日和), 2006
….    Yoru no Zawameki (夜のざわめき), 2007
….    Sekai no Hate (世界の果て), 2006
Madoi no Mori: 50 Stories (惑いの森~50ストーリーズ), 2012

Escrito por: João Mota