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Battle Athletes Daiundokai

O mundo da animação japonesa está intimamente ligado ao dos video-jogos, sendo o Japão a pátria das consolas. Todos os anos são realizadas diversas adaptações de títulos de video-jogos para o pequeno (ou grande) ecrã, com níveis de sucesso muito variáveis, mas que na sua maioria não trazem grande novidade à indústria nem grande interesse a quem não tenha sido adepto do software correspondente. Entre estas adaptações, contam-se títulos como “Street Fighter”, “Final Fantasy”, “Sonic”, “Wild Arms”, e o mais popular de todos: o inefável “Pokémon”. Porém, uma das mais bem conseguidas adaptações neste campo foi atingida por um título que partiu da obscuridade nas suas origens na consola Sega Saturn, expandindo surpreendentemente e com grande sucesso o conceito inicial: trata-se de “Battle Athletes Daiundokai”.

A partir de um jogo desportivo, foi desenvolvido um conceito para uma série de 6 OAV’s produzida pelos estúdios AIC. O sucesso desta simpática série no Japão fez com que fosse considerada uma nova série, desta vez televisiva e com 26 episódios. E é desta série, a melhor das duas, que trata esta crítica. Realizada em 1998 por Akiyama Katsuhito (“Bastard!!”, “Bubblegum Crisis Tokyo 2040”) e Ogawa Kazuhiro, “Battle Athletes Daiundokai” mostrou definitivamente ao público o quanto uma série de animação pode fazer por um conjunto de personagens aparentemente genéricos de um video-jogo obscuro.

No futuro distante, o ser humano atingiu novos máximos na sua perfeição genética. Uma grande parte da população dedica-se ao apuro das suas potencialidades físicas e psíquicas, e neste contexto, é realizada todos os anos uma grande competição onde atletas de todo o mundo e das colónias terrestres competem pelo título de “Cosmo Beauty”. Kanzaki Akari é filha de Midoh Tomoe, a mais lendária das detentoras desse troféu, e é uma candidata natural ao título. Porém, ela fica além de todas as expectativas em relação ao seu desempenho: é desastrada e chorona, e com um défice inigualável de auto-confiança. Só a sua companheira de quarto, Yanagida Ichino, parece confiar nas capacidades dela… Akari terá que superar-se se quiser qualificar-se para a competição final pelo título de “Cosmo Beauty”, mas não é fácil, quando cada disparate que ela faz a incita a esconder-se dentro de um caixote…

“Battle Athletes” revela as suas origens no elenco de personagens: tal como em qualquer jogo desportivo, existem personagens com origem em diversos países, correspondendo a estereótipos japoneses dos habitantes de cada nação: temos a própria Akari e Ichino de origem japonesa, sendo que Ichino, como qualquer nativa de Osaka, é teimosa, directa e grita quando fala. Temos a americana Jessie Gurtland, modelo de individualismo, que nutre uma admiração pela mãe de Akari tão grande como a desilusão que constitui para ela a própria Akari; Temos também a russa Ayla Roznowsky, fria como o seu país e disciplinada ao extremo, a africana Tanya Natdypitthad, uma típica “cat-girl” enérgica e com o crânio cheio de ar, e a chinesa Wong Ling-Pha, interesseira, intrometida, e especialista em ciclismo. Mais tarde, ser-nos-ão apresentadas a selenita Kris Christopher, possuidora de uma espiritualidade enorme; Anna Respighi, com uma timidez doentia; a mongol Lahrri Feldnunt, uma verdadeira máquina de vencer; e a selvagem e vingativa Mylandah Arker Walder. Como se pode ver, é um elenco quase totalmente feminino, e que se apresta a uma grande dose de estereotipagem e fan-service. Apesar disto, todos os intervenientes são retratados de uma forma tão humana no extremismo das suas situações e na sinceridade das emoções, que nos é impossível reduzi-los a estereótipos: é esta a grande força de “Battle Athletes”. Na paixão da competição, o estereótipo revela a sua humanidade.

A história é gerida de forma hábil ao longo dos 26 episódios e revela-nos uma trama cada vez mais complexa (mas nunca demasiado séria) que nunca seria possível transmitir num mero video-jogo desportivo, demonstrando assim o poder da animação como complemento à interactividade oferecida pelo jogo.
Surpreendentemente para uma fonte de idéias tão limitadas, as situações são realmente interessantes e cativantes, reveladoras da determinação e espírito dos atletas, um assunto que nunca é abandonado ao longo de toda a série.

Como qualquer bom herói de anime, Akari é uma pessoa cheia de defeitos, mas que se reencontra quando a ocasião realmente o exige – e isso não só em nome de si próprio, mas também em nome das pessoas de quem ela gosta, revelando assim outro aspecto constante na série: a importância do trabalho de equipa e o papel da amizade no seu seio.

A animação tem uma qualidade acima da média para uma série daquela época, e os designs dos personagens são surpreendentemente apelativos, constituindo uma evolução sobre os do video-jogo. É claro que a esse apelo não está alheia a abundância de corpos femininos atléticos cobertos de lycra, mas as espectadoras terão mais que motivos para gostarem da série, devido ao modelo de força e determinação transmitido pelas personagens femininas. A música é bastante bem conseguida, acompanhando com temas de tensão, melancolia e glória os momentos apropriados das competições desportivas, mantendo as emoções do espectador em sintonia com o conteúdo da história – isto apesar de não atingir um grande brilho ao longo da série.

As vozes principais são-nos oferecidas de forma muito profissional por Natsuki Rio (Akari, Linna em “Bubblegum Crisis Tokyo 2040”), Hisakawa Aya (Ichino, Kero-chan em “Card Captor Sakura”, Ami em “Sailor Moon”, Skuld em “Aa! Megami-sama”, Yuki em “Fruits Basket”), Kawakami Tomoko (Kris, Utena em “Shoujo Kakumei Utena”, Hikaru em “Hikaru no Go”, Chiriko em “Fushigi Yuugi”), Itoh Miki (Jessie, Gally em “Gunnm”, A-Ko em “Project A-Ko”, C-18 em “Dragon Ball Z”, Hokuto em “Tokyo Babylon”), Yajima Akiko (Anna, Tsuwabuki em “Shoujo Kakumei Utena”), Yamaguchi Yuriko (Lahrri, Ristuko em “Evangelion”), entre outras intervenções admiráveis.

Além de ser interessante para todos quantos gostaram do video-jogo de origem, “Battle Athletes Daiundokai” é um divertimento de grande qualidade para qualquer fã de anime, sem para isso recorrer a artifícios pseudo-artísticos, e utilizando para isso um conjunto de personagens extremamente bem caracterizado. Inspiração declarada para todos quanto praticam desporto pode ser encontrada nos episódios da série, que nos lembra dos valores inerentes à prática desportiva e à valorização das nossas pessoas.

“Battle Athletes” não é uma obra-prima, mas é uma peça de animação muito boa, extremamente agradável de ver, suscitando emoções positivas em quem a acompanha – e só dizer isso já é uma recomendação.


Autor:João Rocha

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