Uma linha muito fina separa a boa paródia de uma bodega pretenciosa. A melhor paródia é aquela que está tão semelhante à realidade, que quase poderia ser confundida com ela… não fosse o “je-ne-sais-quoi” presente que desperta o riso de quem conhece o género. Muitos títulos de anime no género “Giant Robo” têm povoado a história da animação japonesa, muitos deles reconhecidos como clássicos de alta qualidade. Desde “Evangelion” a “Giant Robo”, de “Gunbuster” a “Rahxephon”, muitas obras poderiam servir (e têm servido) de material para paródia, visto facto de muitos destes títulos levarem a sua natureza épica demasiado a sério.
Porém, “Gravion”, se não ultrapassa a dita linha, está muito lá perto… tão pretencioso que só pode ser gozação, mas nunca se assumindo como tal, este título é capaz de deixar o espectador a rir com o exagero do épico e a vibrar com o seu sentimentalismo bem à japonesa. E com esta indecisão, acaba por ficar aquém das expectativas de todos quantos estavam à espera de vê-lo cair para um dos lados da linha.

No ano 2041, a terra é invadida por estranhos e enormes seres chamados anj-… digo, zerabaia, que destroem tudo à sua passagem, e os exércitos terrestres vêem-se impotentes para os deter. Mas uma pessoa detém nas suas mãos a salvação da humanidade: o milionário Klein Sandman, secretamente, criou a arma suprema capaz de salvar o nosso planeta: Gravion, um enorme robô composto de 6 partes, os “Grand Divas”, os quais só podem ser controlados por jovens com o factor “G” no sangue (seja lá isso o que fôr).
Eiji é um jovem que, procurando pela sua irmã desaparecida, infiltra-se no castelo de Sandman. Mas o seu plano vai por água abaixo quando é raptado e literalmente forçado a pilotar uma das máquinas de guerra que compõe Gravion. Agora, Eiji faz relutantemente parte da equipa de pilotos do Gravion, e terá que conciliar essa laboriosa responsabilidade com a busca da sua irmã.
Produzida pelos estúdios Gonzo em 2002, e com 13 episódios, “Gravion” não adianta nada de revolucionário no capítulo narrativo. A uma história recheada de todos os clichés possíveis e imagináveis do género, e intercalando a atitude “over-the-top” de Sandman com a unidimensionalidade de todos os restantes personagens, poucos sentirão que teriam muito a perder se não tivessem assistido a esta série. O que deixa uma última esperança para a série: sendo produzida pelos estúdios Gonzo, concerteza será uma delícia em termos técnicos, não é verdade?

Infelizmente não. A uma animação rudimentar para a nossa época (e certamente uma desilusão para os admiradores deste estúdio), juntam-se os fracos efeitos sonoros e a música muito esquecível. Reciclagens intensivas de sequências animadas ajudam muito a esta percepção e mesmo a animação de abertura é reaproveitada em (ou composta de) sequências presentes nos próprios episódios.
As vozes de Suzumura Kenichi (Kamui em “X TV”) como Eiji, Ikezawa Haruna como Luna, Hayami Shou (Wolfwood em “Trigun”) como Sandman e Fukuyama Jun como Touga, não conseguem fazer mais do que tapar o Sol com uma peneira, desviando minimamente a atenção do insucesso técnico e narrativo de “Gravion”.

Raras vezes este crítico escreve críticas negativas – também porque raramente se dispõe a ver até ao fim uma série de pouca qualidade. Mas desta vez, justifica-se o aviso: A quem gosta de paródia, ficará perplexo com as tiradas supostamente sérias deste título. A quem gosta dum épico do género “Giant Robo”, o kitsch excessivo parecerá possivelmente injustificado. “Gravion” não é carne nem peixe, e na sua indecisão, torna-se um pobre substituto para ambos.
Autor: João Rocha
