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Kingdom Hearts

Desde a revolução em animação em video-jogos que constituiu “Final Fantasy VIII”, a criadora de video-jogos Squaresoft tem-se revelado como uma entidade inovadora do plano técnico da animação por computador, dando passos que aproximam as suas criações cada vez mais do foto-realismo. A ambição da Square culminou no lançamento da sua longa-metragem “Final Fantasy: the Spirits Within”, a qual provou que, apesar de possuir a excelência técnica, a Square não tinha a capacidade artística e narrativa capaz de cativar um público global. Toda esta corrida da Square por um lugar no poleiro da indústria de animação fez com que se gerassem, entre os fãs e espectadores, os inevitáveis debates e polémicas sobre os méritos da empresa japonesa neste meio artístico – inclusive a comparação com os restantes “gigantes” globais do mundo do desenho animado – entre os quais, como é óbvio, a Disney.

Mesmo tendo a Square desistido da sua aventura na indústria da animação, continua a ser surpreendente que um dos seus projectos seguintes seria realizado em parceria com a multinacional que, caso o filme de “Final Fantasy” tivesse tido sucesso, seria um dos seus mais formidáveis rivais – exactamente a Disney!

E é assim que em “Kingdom Hearts”, um RPG de acção bem na linha de “Zelda” ou “Secret of Mana”, assistimos aos mais improváveis dos encontros – entre os imortais personagens da corporação do rato Mickey, e os memoráveis protagonistas da série de video-jogos “Final Fantasy”. E tudo começa com uma porta… sem chave.

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Sora é um rapaz que vive numa pequena ilha tropical, isolada de tudo. Um dia, depois de um estranho sonho, a ilha de Sora é destruída por uma tempestade de forças maléficas, manifestadas sobre a forma de seres sombrios, os Heartless. No caos que se segue, Sora é separado dos seus melhores amigos, Riku e Kairi, e é projectado para outro mundo. No processo, ele recebe uma misteriosa arma – a Keyblade – que o marca como aquele que será capaz de deter os Heartless e salvar os inúmeros mundos por eles destruídos.

Entretanto, longe dali, no reino mágico onde habituam alguns personagens que nos são bem familiares, o Rei Mickey desapareceu! Preocupada, a rainha envia dois membros da corte em busca dele, nomeadamente Donald, o mago da corte, e Goofy, o comandante da guarda real. E é em Traverse Town, um lugar que serve de asilo para todos os fugitivos dos mundos destruídos, que eles encontram Sora. Reconhecendo as suas demandas semelhantes e o seu inimigo comum, este trio junta forças para encontrar Riku, Kairi e o Rei Mickey, e tentar descobrir a forma de deter os Heartless.

Pelo caminho, percorrerão inúmeros mundos que parecerão bem familiares aos jogadores, pois são baseados em diversos filmes clássicos da Disney, tais como “Tarzan”, “Aladdin” ou “Pinóquio”. Em cada um deles, terão que enfrentar o vilão respectivo. Mas quem se esconde por trás desta trama de destruição?

A história parece simples, mas à medida que se desenrola, vai envolvendo cada vez mais o jogador e tornado-se cada vez mais complexa, algo bem característico dos RPG’s da Square. Que os jogadores mais “maduros” não se deixem demover pelo facto da maior parte da acção tomar lugar em cenários tirados de filmes da Disney.

Este jogo oferece de tudo para qualquer público, e com a sua dificuldade ajustável, poderá proporcionar desafios aos mais calejados jogadores, não só ao nível de dificuldade (que se pode tornar extrema em certos pontos), como também no que diz respeito às numerosas demandas opcionais (como a busca pelas “trinities”, ou pelos 101 dálmatas), também uma imagem de marca da Square.

A nível de jogabilidade, “Kingdom Hearts” revela possuir um sistema muito flexível e evolutivo, que começa simples como correr-e-bater-com-a-chave, mas depressa se torna mais complexo com a descoberta de feitiços, combinações e movimentos especiais. “Kingdom Hearts” é todo jogado sob o ponto de vista de Sora, servindo Donald e Goofy como personagens coadjuvantes controlados pela consola, que seguem Sora para todo o lado e o ajudam em combate. Cada um dos nossos auxiliares tem uma capacidade especial, tendo Donald um jeito particular para a magia, e Goofy uma capacidade defensiva muito forte.

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Ocasionalmente, em determinados mundos, é-nos dada a possibilidade de substituir um dos nossos ajudantes por um personagem específico do cenário, tal como sejam Peter Pan, Aladdin, Tarzan, Beast, Ariel e outros. Adicionalmente, o jogo oferece-nos um sistema de invocações muito semelhante a “Final Fantasy”, em que os nossos ajudantes são temporariamente substituídos por um personagem de grande poder, estando disponíveis tais ícones como Simba, Tinkerbell, Dumbo, Bambi, Mushu e Genie. Infelizmente, não há rastro de Ifrit, Shiva ou Bahamut…

Ao nível gráfico, a Square demonstra uma vez mais estar na crista da onda do apelo visual e das técnicas aplicadas à apresentação do jogo, oferecendo-nos versões fabulosas dos personagens da Disney, e animações perfeitamente enquadradas no espírito da “casa do rato”. As cenas cinemáticas são tão deslumbrantes como a Square nos tem habituado, se bem que não chegando ao nível atingido em “Final Fantasy X” – até porque o realismo exigível neste título é bem menor.

Para ajudar à ocasião especial da reunião de forças entre a Square e a Disney, foi chamado para a produção deste jogo um verdadeiro elenco de luxo. Não chega dizer que as músicas são cantadas pela estrela japonesa Utada Hikaru (tanto na versão japonesa como na americana), mas as inúmeras linhas de diálogo com que o jogo é temperado são vocalizadas por um conjunto de personalidades que poderiam ser confundidas com o elenco de um “blockbuster”: desde Haley Joel Osment (a estrela de “O Sexto Sentido” e “A.I.”) como o herói Sora, passando por Billy Zane (o vilão de “Titanic”) como Ansem, Sean Astin (Sam em “O Senhor dos Anéis”) como Hércules, Dan Castellaneta (Homer em “Os Simpsons”) como o Génio da lâmpada, James Woods (“Contacto”) a retomar o seu papel de Hades, David Boreanaz (Angel em “Buffy”) como Squall Leonhart de “Final Fantasy VIII”, além de lendas do panorama vocal norte-americano como Jim Cummings, Corey Burton e outros. Um pacote de luxo para um jogo de perfil “mainstream”.

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“Kingdom Hearts”, um pouco como “Animatrix”, acaba por ser uma lição para todos os fãs de cultura popular japonesa que regozijam em deitar abaixo tudo o que vem dos Estados Unidos. Demonstra que a colaboração entre sensibilidades diferentes consegue trazer muitas vezes algo de fresco e interessante, tornando o todo em mais que a soma das suas partes. É evidente, contudo, que muito detractores não se deixarão calar por esta obra, preferindo virar os olhos para o outro lado e fazer de conta que nunca existiu. Não obstante isso, para fãs de RPG’s de acção, “Kingdom Hearts” oferece uma experiência completa e viciante, com muita acção e um bom grau de personalização dos personagens. Embora não seja perfeito, não se pode imputar um ponto fraco em particular a este jogo, atingindo por outro lado a excelência a vários níveis. Altamente recomendado a todos os possuidores de PS2.


Autor:João Rocha

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