Fujishima Kosuke criou uma das obras que marcou o panorama do anime e manga a partir do princípio da década de 90, criando quase sozinho todo um novo género que até hoje nunca deixou de ser imitado: a comédia romântica de harém. A obra que lhe valeu essa fama continua a ser adorada por multidões, devido à sua inegável originalidade e ao encanto nunca superado dos seus personagens: trata-se de “Aa! Megami-sama!” (“Ah! My Goddess!” na versão em inglês, ou “Ah! Deusa!” quando traduzido literalmente para português), que teve a sua estreia em formato manga em 198?, e que ainda hoje continua a ter novos capítulos publicados.
Para quem não sabe, as comédias de harém são um género tipicamente shonen que envolve invariavelmente um jovem rapaz tímido e com pouco jeito para lidar com o sexo oposto, que de repente se vê rodeado em permanência por um grupo mais ou menos alargado de raparigas atraentes de todos os feitios possíveis. Existe sempre uma delas que é a “escolhida” do nosso herói (o que ambos frequentemente se negam a aceitar), mas independentemente disso, todas elas têm um grau de atracção mais ou menos intenso por ele. Peripécias e gargalhadas seguem-se durante um número variável de episódios, e apesar do fim da história ser frequentemente aberto, é sempre dada a dica de que o nosso herói “bardacú” e a sua eleita vivem felizes para sempre. The end.
Parece-vos familiar? Pois é, este é o enredo de uma multitude de títulos, como “Tenchi Muyo!”, “Onegai Teacher”, “Love Hina”, entre muitos outros. Mas todos eles têm algo em comum: vieram depois de “Aa! Megami-sama!”, e esta obra continua a ser a referência inevitável. Não só por ter sido a primeira, mas também por ter transcendido o género e atingido um público bem mais alargado do que o esperado para este tipo de narrativa. A história inicial de “AMS” foi adaptada para uma série de 5 OAV’s em 1993, e até mesmo pequenas “comic strips” que o Sr. Fujishima fez para promover e acompanhar a série principal (e que incluiam versões miniaturizadas das personagens femininas principais) foram adaptadas para uma série de “sketches” animados em 1998, com o título “Aa! Megami-sama: Chiccaiite Kotoha Benridane” – Muito à maneira de “Azumanga Daioh”.
No ano 2000, as adaptações animadas de “AMS” culminaram na produção de uma longa-metragem de 105 minutos, respondendo assim aos apelos dos fãs japoneses, europeus e americanos, cujas expectativas não foram afinal defraudadas!
A história de “Aa! Megami-sama!” é bem conhecida: Morisato Keiichi é um estudante universitário que, ao tentar fazer uma chamada telefónica para encomendar comida para entregar na residência onde vive, engana-se no número e chama o “Serviço de Auxílio das Deusas”. Mesmo dizendo que é engano, não passa um piscar de olhos até que lhe apareça à frente uma autêntica deusa, Belldandy, pronta a conceder-lhe um desejo qualquer à sua escolha.
Convencido de que tudo aquilo é uma partida preparada pelos seus colegas de residência, Keiichi diz na brincadeira a Belldandy que deseja que uma deusa como ela fique com ele para sempre… e para sua própria grande surpresa, o desejo é concedido.
Expulso da residência (que era exclusivamente masculina), Keiichi encontra, com o auxílio de Belldandy, refúgio num velho templo budista, onde fica a viver com ela a partir desse momento. Em breve, juntam-se a eles outros pitorescos personagens – como Urd e Skuld, as irmãs de Belldandy, e Megumi, a irmã de Keiichi. Como visto anteriormente, peripécias e gargalhadas seguem-se.
O filme de “AMS” passa-se 3 anos depois do dia fatídico em que Belldandy se encontrou com Keiichi, e começa por retratar a pacífica e feliz vida que os nossos heróis agora têm. Mas a harmonia é perturbada pelo aparecimento de um novo personagem, Celestine, o antigo mentor de Belldandy, que conseguiu quebrar o cativeiro que lhe foi imposto pelos deuses. Celestine pretende desafiar novamente o sistema divino que considera injusto para os mortais, e para isso servir-se-á de Morgan, uma vítima desse sistema, e dos poderes de Belldandy… mesmo que isso implique remover Keiichi, Urd e Skuld da equação.
À primeira vista, este filme parece não escapar à fórmula padrão para adaptações cinemáticas de séries TV de anime – ou seja, constitui basicamente um episódio alargado (tanto em duração como em âmbito). O que ressalta mais à primeira vista é o tom relativamente sério assumido pelo filme, quando comparado à série de OAV’s ou ao manga – um pormenor que poderá dissuadir (ou cativar) alguns admiradores da série. Contudo, o que realmente constitui o ponto forte deste filme é a qualidade técnica e artística conseguida, muito acima da média mesmo para longas metragens de animação japonesa. Tudo neste filme está bem conseguido, desde os designs dos personagens até à fabulosa música, passando pela qualidade de animação e o ritmo da narrativa, constituindo assim um verdadeiro regalo para quem vê.
A história não é perfeita – tem os seus momentos menos consistentes – mas, no global, é tudo o que um fã de “AMS” poderia pedir para concluir a saga de Keiichi e Belldandy. A tensão romântica é mantida do princípio ao fim, e para quem conhece os personagens, as relações retratadas são credíveis e tocantes. É só pena que não se tenha pensado nas pessoas que nunca viram ou leram um episódio de “AMS”; Apesar de se poder disfrutar do filme mesmo sem conhecimento prévio do filme, existem pormenores que podem escapar – tal como a rivalidade entre Urd e Peorth, ou a desconfiança que Skuld tem em relação às intenções de Keiichi.
Os designs de personagens são de uma beleza e concretização impecáveis, ao nível do melhor que Fujishima Kosuke nos tem oferecido nos volumes mais recentes do manga. É notável o amadurecimento dos personagens em relação ao início da história, mas as deusas permanecem tão adoráveis como sempre (ou mais ainda). Belldandy é particularmente beneficiada, já que a sua personagem adquire uma consistência e tridimensionalidade que lhe faltava um pouco nos OAV’s. Keiichi surge já não como um bardacú, mas como uma pessoa bem segura das suas capacidades e talentos, não se sentindo diminuído nem face a uma deusa. Se bem que certo da sua relação com Belldandy, ainda tem dúvidas sobre a forma como concretizá-la.
A qualidade da animação surge em grande plano neste filme: os movimentos são gloriosamente fluidos ao longo de todo o filme, revelando um orçamento à medida deste projecto. A música merece destaque especial, pois foi composta pela maravilhosa dupla de Uematsu Nobuo e Hamaguchi Shirou, celebrizados pelos arranjos orquestrais das bandas sonoras de “Final Fantasy”, e atinge no filme um nível artístico e de integração com a acção extremamente bem conseguido.
O filme de “AMS” reúne os talentos dos artistas que protagonizaram os OAV’s, sendo por isso um grupo de nomes estabelecidos no panorama dos “seiyuu”. Inoue Kikuko (Hibiya em “Chobits”, Kazami em “Onegai Teacher”) retoma o papel da perfeita Belldandy, Kikuchi Masami (Tenchi em “Tenchi Muyo!”, Kazuki em “Comic Party”) regressa à pele de Morisato Keiichi, Touma Yumi (Yui em “Fushigi Yuugi”, Ferio em “Magic Knight Rayearth”) é a impulsiva e sexy Urd, Hisakawa Aya (Kero-chan em “Card Captor Sakura”, Miki em “Shoujo Kakumei Utena”, Chloe em “Noir”) faz de novo da teimosa e inventiva Skuld, e Yanaka Hiroshi (Sora em “.hack//SIGN”) estreia-se no título ao desempenhar o papel do vilão Celestine.
Esta obra constitui a resposta às preces de todos quantos acharam que os OAV’s não foram suficientes. Embora manifestamente não esteja ao gosto (ou ao alcance) de todos, é muito difícil a quem vê não ficar encantado com a harmonia e apelo do conjunto conseguido, o que resulta num filme de grande qualidade e muito bonito, mas que poderá não tocar a todos os que o vêm. Na opinião deste crítico, é uma das melhores longas-metragens de anime em estilo “episódio alargado” que já foram realizadas, comparável aos filmes de “Sakura Taisen” (também com designs de Fujishima), “Card Captor Sakura” e “Cowboy Bebop”, e superior aos de “Sailor Moon” e “You’re Under Arrest” (mais um de Fujishima). Muito especialmente para fãs da série, mas também para qualquer pessoa com vontade de ver um excelente filme de animação, “Aa! Megami-sama!” é um sucesso altamente recomendado, e uma conclusão magnífica para a saga de Keiichi e Belldandy. Mas não é que nos queixássemos se viessem a fazer mais, não é?…
Autor:João Rocha
