Em anime, o género “Mahou Shoujo” (magical girl, ou menina mágica) é chão que já deu uvas. Muitas uvas. Tantas uvas, que é de admirar como o público ainda tem estômago para as ingerir. E no entanto, é de notar que, apesar da notória falta de originalidade de que este género sofre hoje em dia, o público ainda engole com gosto qualquer oferta que seja feita dentro deste género. Um observador externo atento poderá comentar que já não se trata de de uma onda ou gosto, mas sim de uma mania ou mesmo um fetiche, uma fórmula inexplicavelmente bem sucedida que será explorada até nada mais restar que as penas da galinha dos ovos de ouro, esventrada até à exaustão.
Dentro deste contexto, “Ultra Maniac” não parece ser mais do que uma oferta suplementar no tema das “Mahou Shoujo”, destinada a alimentar a massa de fãs. Para cúmulo do insulto, parece querer aproveitar-se de outras manias
menos orientais em voga na Europe e nos Estados Unidos, como teremos oportunidade de ver. Mas esta obra tem um grande “pedigree” a apoiá-la: foi escrita pela popularíssima Yoshizumi Wataru, autora de obras como “Marmalade
Boy”. Com 26 episódios de comédia, foi lançada pelo estúdio Shueisha no canal Animax durante o ano de 2003.
Tateishi Ayu é uma das mais populares alunas da sua escola – uma imagem que ela mantém devido à sua paixão pelo colega Kaji. Mas a sua vida é complicada no dia em que encontra Sakura Nina, uma aprendiza de feiticeira desastrada
mas adorável, proveniente do reino da magia, e que faz um estágio académico numa escola do nosso mundo… precisamente a que é frequentada por Ayu! Nina não é muito competente como feiticeira – afinal de contas, precisa de um
mini-PC para fazer feitiços, e estes normalmente não resultam bem como ela desejaria. Contudo, compensa a sua incompetência com uma adoração intensa por Ayu.
Contudo, a presença de Nina tem um objectivo oculto por trás da sua aparente descontração: encontrar um conjunto de pedras mágicas, que farão da sua possuidora a principal pretendente ao título de rainha do reino da magia.
Mas Nina quer mais é divertir-se e conhecer mais sobre o mundo dos humanos – e ajudar Ayu a descobrir os sentimentos de Kaji em relação a ela.
Um belo dia, depois de ler o primeiro volume de Harry Potter, Yoshizumi Wataru deve ter tido uma idéia fabulosa: “E se eu escrevesse uma história parecida com Harry Potter, mas ao contrário? E com “Magical Girls”, e uma
história de romance muito cor-de-rosa pelo meio, e uma série de mascotes fofas… e ténis! Tem que ter ténis!”. E com um passe de magia, foi exactamente isso que apareceu – como se a própria Yoshizumi fosse uma das
“Mahou Shoujo” que populam as suas histórias. Assim nasceu “Ultra Maniac”.
O que não é dizer que a história é má: tem os seus momentos de inspiração, e consegue manter em quase todos os seus momentos uma boa disposição e ritmo invejáveis. Quem gostou especialmente de “Marmalade Boy”, não tem nada a temer, pois a autora continua igual a si própria – tanto em termosnarrativos, como no próprio design dos personagens.
Pouco haverá a dizer sobre a qualidade técnica da animação, que se mantém mediana durante toda a série. Contudo, é de notar que existem, ao longo da série, algumas mudanças de animadores de chave – alguns dos quais fazem os personagens parecer particularmente feios. Mas tudo volta a entrar na linha a tempo para o “grand finale”. Também de realçar é a reciclagem de animação tão típica das séries “Mahou Shoujo” – particularmente nas sequências de transformação e de utilização de magia, que são repetidas em quase todos os capítulos.
A música é um pouco abaixo da média, mas nunca irritante. Entre as vozes, o destaque vai para Horie Yui (Toru em “Fruits Basket”, Naru em “Love Hina”, Yuya em “Samurai Deeper Kyo”) como Ayu, secundada pela voz irritante de Kanda Akemi como a aprendiz de feiticeira Nina, e ainda Kamiya Hiroshi e Chiba Susumu (Sai em “Hikaru no Go”, Aki em “Ayashi no Ceres”) como os
interesses amorosos masculinos das heroínas.
E assim se faz mais umas das milhentas ofertas de “Mahou Shoujo” – e uma que, pela sua qualidade suficiente, felizmente ainda não vai a tempo de cansar quem vê e está habituado aos inúmeros clichés deste sub-género. Quem é fã de anime shoujo, e particularmente deste sub-género, não deverá querer perder esta série. É simpática, bonitinha, e pelo menos é bem melhor que
“Mermaid Melody Pichi Pichi Pitch”. Não chega, porém, aos calcanhares dos clássicos dos anos 80 ou de “Sailor Moon”. Quem quiser ver uma revolução ou renovação no sub-género “Mahou Shoujo” não se deverá virar para “Ultra Maniac”, mas considerar ofertas como “Chikyuu Shoujo Arjuna” ou “Princess Tutu”. “Ultra Maniac” não corre o risco de ser considerado original, mas
nunca ninguém morreu por ver uma série assim!…
Autor:João Rocha
