Hachimitsu to Clover, ou Honey and Clover, foi um dos grandes sucessos de 2005. Pelo menos para quem tem o coração nas mãos a bater freneticamente.
A história é simples: Takemoto Yuuta, Mayama Takumi e Morita Shinobu são três amigos que estudam artes e que partilham o mesmo prédio (ou muitas vezes, como terão oportunidade de reparar, o próprio quarto). Takemoto é um caloiro que não é particularmente bom em nenhuma modalidade de arte, embora não seja medíocre. Ele é constantemente aterrorizado pelo veterano Morita que, diga-se, apenas é veterano porque adormece frequentemente e por isso não vai às aulas, fazendo com que no fim do ano ele seja reprovado por falta de assiduidade. Isto é uma das consequências dos seus part-times misteriosos que o fazem desaparecer durante dias , semanas ou até meses e que o deixam completamente exausto e incapaz de acordar durante alguns dias. Mayama aparenta ser uma pessoa prestável , e foi a anterior vítima de Morita. O dia a dia destes 3 rapazes é francamente alterado quando o professor Hagamoto lhes apresenta a sua sobrinha Hagumi, que apesar do seu ar bastante novo e inocente é uma conceituada artista , embora muito tímida que encontra amigos neste grupo e em Ayumi Yamada , uma das melhores aprendizes de cerâmica daquela universidade.

Esta série é então daquelas que começa e acaba a meio e não pretende ser mais do que um “slice-of-life” anime , ou seja, um anime que explora as provações destes jovens à medida que eles vão crescendo e caminhando para a idade adulta. Sublinhe-se que o faz muito bem. Tudo o que constitui esta série se conjuga – os diálogos , música, animação e no fundo o tom da mesma puxa pelo nosso interesse em saber o que está a acontecer na vida destes jovens, o que para mim é um factor bastante positivo. Para mais, explora a vida de estudantes de artes ,coisa que até agora nunca tinha visto num anime, e para meu agrado consegue manter o interesse tanto nas partes dramáticas como nas mais cómicas. Mas claro que, como em todas as histórias shoujo, ou melhor, josei (já que esta série é menos idealizada e segundo sei, o público alvo disto são mulheres mais velhas e não adolescentes) as personagens constituem o ponto forte.
Começamos por Takemoto que, concordando com uma review que alguem fez disto é o personagem menos interessante e , embora possam discordar, o anime acaba por se centar nele. Pelo menos para mim, e apesar de ter notado a tentativa por parte dos autores de não terem uma personagem principal, Takemoto parece unir o grupo de amigos e na maioria das vezes as impressões que ouvimos são dele.
Este rapaz de 19 anos está no seu segundo ano de universidade e como já tinha mencionado acima, partilha o apartamento com Mayama e Morita. É um rapaz muito calmo, quase ao ponto de ser aborrecido e é bastante fechado sobre certas partes da sua personalidade. Assim que ele vê Hagu pela primeira vez, apaixona-se imediatamente mas nunca o expressa embora passe muito tempo com ela. Este temperamento deve-se em grande parte à história familiar dele, já que o seu pai morreu muito cedo e a sua mãe tinha pouco tempo para ele por causa do seu trabalho como enfermeira. Acabo por não empatizar tanto quanto devia com uma das personagens com mais destaque até aos últimos episódios em que os autores finalmente decidem desenvolver um pouco mais a história dele, mas mesmo aí fiquei um pouco indiferente.
Já Morita é daqueles personagens completamente “over the top” que oferece infinito divertimento a quem vê aquela série. Ele tem uma maneira estranha de mostrar apreço pelas pessoas – ou faz sites com fotografias de Hagu, sem a permissão desta; ou trás sacos e sacos de comida para os seus amigos depois de andar dias desaparecido, sem dar notícias; ou dorme no quarto e às vezes na cama de Takemoto…enfim, ele faz um mundo de coisas que não lembram a ninguém mas no fundo nutre sentimentos bastante fortes por algumas das personagens. Infelizmente (ou não, já que as possiblidades de fazer um “spin-off” ou uma sequela aumentam) nunca chegamos a perceber em que é ele realmente trabalha e porque é ele nunca dá noticias.
A seguir, falo-vos de Mayama que protagoniza um dos triângulos amorosos da série. Mayama , a pedido de Hanamoto (o seu professor) foi trabalhar para Rika, que recentemente tinha perdido o seu marido num acidente de carro (que também a tinha incapacitado) e durante esse periodo de tempo acaba por se apaixonar por ela. Esta relação lembra-me bastante de Kimi Ga Nozumo Eien porque em si contém uma tragédia e amor não correspondido. Embora Mayama na maior parte das vezes pareça mais parvo e apto para brincadeiras, ele usa isso como uma espécie de capa confortável que não o obriga a falar da sua vida pessoal e da sua situação com Rika. Aliás, e apenas porque é amigo daquela, Hanamoto é a única pessoa com quem Mayama fala sobre esse assunto.

Aproveito também para dizer que Hanamoto não é uma personagem particularmente interessante, tendo pouco destaque e servindo apenas para alguns momentos cómicos, sobretudo quando ele mostra o seu amor inabalável por Hagu. Raramente esta personagem é explorada da forma como todas as outras são e sempre que o é, isso acontece apenas por via dos outros – se me fiz entender, só compreendemos o que Hanamoto sente e pensa através dos outros.
A única destas “pessoas” que nunca vou conseguir entender é Hagu. Demsiada importância foi dada a uma personagem algo cliché (a artista incompreendida) e que tenta ser querida e adorável mas acaba por ser irritante. Também contribui para isto o facto de , quando se trata de animar Hagu, alguém teve a brilhante decisão de a desenhar como uma boneca de porcelana, mas já lá vamos. Hagu precisava de uma série só para si porque, a meu ver, se vamos dar tanta relevancia a uma personagem que praticamente não fala, é melhor dar também bastante desenvolvimento. Infelizmente isso não aconteceu e acabei por achá-la dispensável e inconsequente.
Só falta mesmo falar de Yamada, já que as outras personagens não são assim tão marcantes (apenas Nomiya , um dos membros da Fujiwara Design onde Mayama trabalha durante um tempo , é digno de menção uma vez que ele nutre uma grande afeição por Yamada e é , apesar de um pouco excêntrico, uma personagem com quem simpatizei bastante) . Yamada é o pequeno prodígio do clube de cerâmica que é tanto admirada pela sua técnica como pela sua força e temperamento, sendo que o seu único ponto mais sensível é o fraco que tem por Mayama que por sua vez é algo insensível em relação ao que ela sente. Durante o decorrer do anime esta personagem é uma das que mais emoção trás a história por retratar na perfeição o sentimento do amor não retribuido, e também porque, ao contrário de certos shoujo, não é exagerado. Acabamos por empatizar com ela e por perceber as fragilidades dela tomando-as como normais. Sim, há alturas em que dá vontade de abraçar o ecran, ao contrário do que se passa com Hagu, onde apetece mais pontapés.
Falando em Hagu, retomo o problema da animação. Foge à minha compreensão porque é que tantos shoujo/josei animes têm de ser tão exagerados no estilo de desenho. “Less is more”, pessoal. Quando comecei a ver este anime pensei “bem, isto até tem uma animação decente e os designs não parecem assim tão exagerados”. Isto, até Hagu entrar em cena. Hagu (e por vezes também Yamada – principalmente os olhos dela) está completamente deslocada do estilo, embora me queira parecer que foi uma coisa intencional , só que não foi necessáriamente uma boa opção. É que, reparem, eu consigo perceber que os criadores tenham pensado em dar a ideia que Hagu era uma miuda fora deste mundo – quanto mais não seja porque ela parece e age como se fosse muito mais nova do que os seus 18 anos – para justificar o facto de ser tão reservada e incompreendida. Mas porra, como é que eu posso ter esse tipo de ideia se a miuda ou parece um pequeno pónei ou a princesa Leia? Esta forma de desenhar as coisas pertence aos livros da Anita, não a um anime onde o resto das personagens parecem humanas. Também Yamada , como disse, sofre com isto porque às vezes acaba por parecer um manequim. Uma outra coisa de que também desgostei foi o desenho das bocas dos personagens que eram apenas linhas gigantes quase de bochecha a bochecha . Talvez eu esteja habituada a ver a combinação olhos grandes – nariz pequeno – boca pequena, mas pareceu-me mesmo que por vezes os animadores exageravam demasiado. Se querem por expressão na boca não é aumentando-a desmesuradamente que o conseguem. Posto isto, o resto da animação é bastante aceitável, embora haja sempre aquele-brilho-de-fim-de-tarde em todas as cenas.

As seiyuu são bastante boas, todas as vozes são adequadas aos personagens e conseguem mesmo fazer-nos esquecer de que isto é um anime – às vezes parece que estamos a ouvir sem querer interessantes conversas de café. O genérico – pelo menos o primeiro, que cobre a prima metade da série – merecia uma crítica em separado, uma vez que é o mais original que me lembro de ver num anime, até porque é em “stop-motion” e a música é bastante catchy. Fiquem é avisados que é possível terem um ataque cardíaco no fim dele, e mais não digo. Já o ED não é nada de especial mas mencionarei que as músicas, apesar de às vezes serem algo , como direi, demasiado a puxar à lágrima fácil (muita balada para ali correu) são adequadas à história e na maioria dos episódios, alguns minutos antes do final há algumas cenas que são acompanhadas por músicas, de modo a dar mais profundidade a certos momentos – algo que já não é assim tão comum em anime.
Para finalizar, porque isto está realmente longo, digo apenas que Honey and Clover é uma série que tem um simbolismo que está constantemente a aparecer: a roda da bicicleta. Isto acaba por sintetizar o que estes 24 episódios realmente são – o constante girar , o constante evoluir de uma juventude, e no fundo , de uma pessoa. Vejam esta série em vez de verem o Friends, acaba por ser mais proveitoso.
Autor: Mafalda Melo
