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Eureka Seven

Eureka Seven nasce como um projecto conjunto da Bandai e da BONES para trazer um produto original, totalmente produzido e escrito nesta ultima, ligado e estendido por vários formatos. Logo, vale a pena afirmar, antes de tudo, que o anime por si é só uma parte de um “universo” e de uma linha temporal que liga todos os produtos, anime, manga, jogos de vídeo, etc. logo de raiz. E tem mechas que se transformam em carros.

Eureka Seven é, portanto, um anime de proporções modernas. Longe vão os tempos em que os jogos eram um devaneio amador com personagens da série, ou que os manga eram produzidos a trote de uma ou outra animação mais popular e vice-versa. Ainda mais importante, é uma série de mechas (que se transformam em carros) da Bandai.

Isto é importante, porque apesar da Bandai deter uma enorme lista de robots alegremente coloridos dedicados a andar às sapatadas uns aos outros, quase todos eles foram adquiridos após as suas vendas se provarem vantajosas, ou por serem clones de outras séries de sucesso. Neste caso, a BONES inicialmente rejeita a ideia do anime original (provavelmente porque era sobre robots que se transformavam em carros?), mas retorna com uma ideia que integrava o conceito original com um argumento completamente novo.

Após esta (certamente longa) introdução a E7, chegamos ao enredo da série. Renton Thurston é um rapaz de 14 anos, que vive numa terrinha sem história e sem futuro. Não particularmente popular, Renton é o filho de uma pessoa (Adrock Thurston) que é descrito, embora sem detalhes, como a pessoa que salvou a humanidade sacrificando-se durante o “Summer of Love”, um acontecimento apocalíptico anos atrás. Renton, no entanto, tem poucas ou nenhumas memórias dele. Prefere-se rever no “reffing”, uma actividade em que literalmente se surfa no ar, e na revista “Ray=Out” editada por um grupo de guerrilheiros (que usam mechas…) intitulados Gekko State e liderados por um extremamente carismático “reffer” chamado Holland.

Abre-se aqui um parêntesis, porque a escrita destes detalhes leva sempre um sorriso ao autor. “Ray Gun” é uma lendária revista de surf, criada por David Carson, surfista e influente designer gráfico. Na verdade, tal como Cowboy Bebop homenageia os grandes géneros do jazz, Eureka Seven delicia-se em fazer referencias a musica e a pessoas influentes nos anos 90 (e em grande parte a personagens marcantes do século XX). Não só a maior parte dos títulos dos episódios são nomes de musicas (a começar pelo fantástico Blue Monday dos New Order), os números dos mechas da Gekko State são sintetizadores da Roland, e grande parte dos personagens têm nomes influenciados pela década – por exemplo, Renton deve o seu nome ao personagem principal de Trainspotting, Holland é o nome de um surfista famoso e Adrock vem do Ad-Rock dos Beastie Boys. Até há espaço para encaixar um Che lookalike, um Job e um Woz (de Steve Jobs e Steve Wozniak, fundadores da Apple), e um grupo de miúdos com nomes baseados em Maurice Maeterlink, escritor simbolista do início do século XX.

O dia em que encontramos Renton não é particularmente feliz. O seu dealer de material de “reffing” sai da cidade por falta de clientes, entra numa luta com colegas da escola, e o seu tutor e avô é chamado á escola porque as notas dele são sofríveis. E no fim do dia, quando procura refúgio no seu lugar preferido de “reffing” descobre que o exército tornou a área interdita para testes militares de LFO’s (Light Finding Operation, os mechas desta historia e que sim, são robots que se transformam em carros). Um dia de cão, portanto.


As coisas não melhoram quando um LFO aterra em cima do seu quarto. O seu avô é rápido a reconhece-lo. Nirvash Type-Zero, o LFO original a partir do qual todos os LFO foram construídos. A sua condutora é uma jovem rapariga de aparência curiosa, que se intitula Eureka e com a qual ele fica imediatamente fascinado. A partir daqui a história desenrola-se à medida que Renton é introduzido na Gekko-go (uma nave protótipo que o Gekko State roubou, que curiosamente não se transforma em carro), conhece os seus heróis, e começa a desenvolver uma relaçao com Eureka. Isto não significa uma vida mais fácil ou alegre para ele. De facto, fazer ídolos com pés de barro parece ser uma obsessão do argumento, e o nosso jovem protagonista sai da experiência mais desiludido que impressionado. A medida que Renton começa a entender o real objectivo da Gekko State e do que realmente se passa à sua volta, vai ter de aprender algumas das mais importantes lições de vida em menos de 50 episódios.

Graficamente estamos no campo da BONES, com 3D que se integra perfeitamente na acção, char design atractivo e não exagerado em proporções. Nota positiva para a tripulação da Gekko-Go, que é verdadeiramente um pote cheio de personagens de todas as raças e tipos (embora com a velha tendência para usarem todos os dias a mesma roupa). A mudança de equipas por vezes faz certos episódios com qualidade pior de animação, principalmente a meio da segunda série, mas a qualidade retoma sempre que há algo mais complexo a ser retratado. Também no áudio estamos num bom campo. O gosto circula entre o electrónico e o ocasional punk rock levezinho, com a sua dose de pop nos OPs e ED’s. Nada incrível, mas de gosto irrepreensível e bem audível.

A questão com Eureka Seven é que com 50 episodios à disposição, nunca está particularmente com pressa, e apesar de fillers/homenagens pontuais, grande parte do tempo são preparações para eventos determinantes da série. Também sofre da incapacidade de providenciar toda a informação sobre o universo (para isso é que servem os jogos, o manga… etc). No entanto, quando o enredo assim o deseja, os comportamentos e situações são muito bem executados. Um meu conhecido referiu que Eureka Seven é “Gundam para raparigas”, o que é uma descrição apropriada da qualidade do drama que é posto em movimento. Particularmente do meu agrado é a maneira como Renton passa de um rapaz genérico de anime e se torna cada vez mais humano e “adolescente” aos olhos do espectador. Certos momentos serão quase cinematográficos, quer pela imagem e escrita, quer pela actuação dos seiyuu. Dado que Dai Sato (o director estreante da série) era originalmente um argumentista, não é surpreendente que para esta seja uma parte extremamente bem cuidada.


Eureka Seven: Psalms of Planets está portanto numa posição um pouco ingrata. Por um lado, é uma série sobre um rapaz que guia robots coloridos que se transformam em carros com laivos de Evangelion e logo soa imediatamente derivativo. Mas ao mesmo tempo, temos uma série moderna que explora muito bem um certo ennui do século XX, quer quanto à adolescência quer aos jovens adultos sem rumo, um enredo que embora sem surpresas de maior, é largamente original, e oferece alguma da melhor direcção da época de 2006, com momentos que vale a pena ver.

Autor: Nuno Sarmento

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