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Fancy Lala


Fancy Lala é, à primeira vista, um anime shoujo (para meninas), do subtipo Magical Girl. Isto faria à partida pensar em adolescentes cheias de vida social, que entre um namorado e outro (ou a falta de um) teriam o poder de se transformar em altar-egos mágicos capazes de tudo, desde salvar o mundo até providenciar o dito cujo namorado!… Ora, Fancy Lala consegue destacar-se subtilmente deste estereótipo.

A versão em que se baseia este artigo é a exibida pelo Canal Panda desde 2003, se não me engano o primeiro anime nestas condições que nunca foi exibido em nenhum outro canal de cá. Uma versão portuguesa é sempre diferente, e permite um comentário à dobragem… mais lá para a frente.

Trata-se da história de Miho Shinohara, uma menina da primária como tantas outras, que vive com a irmã mais velha e os pais, gosta de desenhar e sonha com o astro do momento, o modelo/cantor/actor/bailarino (enfim, ídolo…) Hiroya Aikawa. Pouco depois do regresso às aulas, em que revê alguns amigos de turma como a Akiru Yuuki e o Tarou Yoshida, encontra numa loja local o que parecem ser dois dinossauros de peluche… acabam por lhe ser oferecidos por um homem bonacheirão e sempre sorridente, que voltará a encontrar nas situações mais inesperadas. Não admira pois que, não sabendo o seu nome, lhe chame «Sr. Misterioso». Não sabendo o que fazer com os peluches, ameaça deitá-los fora, e é então que se revelam como seres inteligentes… e falantes… voadores também… e mágicos, ora essa! Dizem que têm como missão dar magia a Miho, na forma de presentes: um caderno de esboços e uma caneta, directos do seu local de origem, o «Mundo das Recordações de Todos os Tempos». Graças ao caderno pode criar tudo o que conseguir desenhar, e graças à caneta transformar-se no que quiser. Sem hesitar, converte-se numa versão mais velha de si mesma, a que dá o nome da sua personagem de bd, Fancy Lala, vestida a preceito com as roupas recém-desenhadas no caderno novo!

Convertida em Lala, Miho é logo notada por Haneishi, directora da Lyrical Productions, que a convence a tentar a sua sorte no mundo do espectáculo. Isto permite-lhe, antes de tudo, conhecer o seu ídolo preferido, Hiroya Aikawa… Mas é aqui que a previsibilidade se começa a dissipar: é o compromisso de Lala em se tornar numa estrela que motiva várias situações hilariantes e o fio condutor principal para a história, mas os vários episódios que não envolvem showbiz, ou envolvem muito pouco, são dos melhores que a série tem a oferecer.

Além deste aspecto, muitos outros quebram a monotonia da vulgar série de Magical Girl… por exemplo, a magia não ser agressiva. Não há vilões demoníacos a combater, e a única ameaça que dura mais que um episódio é o perto que a identidade secreta de Miho está de ser revelada a alguém que não aos seus dinossauros mágicos. E quanto a relações amorosas? Envolvem a irmã, o amigo de infância, mas nunca a própria Miho, antes pelo contrário… e quanto à Lala? Terão de ver a série para descobrir… Finalmente, um importante e omnipresente elemento a destacar: excepto os pormenores da magia, e um ou outro momento cómico, tudo é tratado com um toque de realidade sóbria, e quaisquer lições de moral a depreender são algo subtis para um programa dirigido a meninas de 8 anos.


O humor é uma constante ao longo de toda a série, frequentemente graças à dupla Mogu e Pigu, os dinossauros encantados. Afinal, também eles são dotados de poderes tão cómodos como perfeita imitação de vozes, vôo, fazer flutuar mobília… As trapalhadas de Miho são algumas vezes postas em evidência: ora quer perseguir a irmã durante um encontro, ora fazer o Tarou entrar num chiqueiro de porcos, ora fazer de cupido para o seu amigo de infância, ora invadir a privacidade do seu professor… e o que tem tudo isto em comum? Actividades conseguidas graças ao seu altar-ego, que (felizmente!) os demais não reconhecem como a modelo Fancy Lala! Para além disto, temos os divertidos momentos em que Miho «sonha acordada», frequentemente com Hiroya Aikawa, em que a animação se torna «esboçada» como os seus próprios desenhos. Porém, nem todos os momentos são divertidos, e alguns pontos mais sérios são abordados, como o divórcio, as recordações da infância perdidas, os esforços suplementares que os pais aguentam pelos filhos, a nem sempre glamourosa vida de estrela (a rival de Lala, Miki, não lhe dá tréguas…) e… acreditam que o professor de Miho é certa vez suspeito de perseguir crianças?

É inevitável notar um dos poucos pontos fracos que aproximam esta série de outras como Card Captor Sakura… as meninas são mostradas excessivamente responsáveis e desembaraçadas. Os diálogos podiam ser mais coerentes com a sua idade, e das atitudes nem se fala. Poderia uma aluna da primária manter (com enorme sucesso!) uma carreira paralela como ídolo e estudante? Talvez esta fraqueza pudesse ser colmatada com um maior auxílio por parte da sua magia ou, porque não, dos dinossauros que, em boa verdade, ajudam no que sabem… o que acaba por ser muito pouco, por vezes.

E é assim que Fancy Lala se nos apresenta como uma série diferente e uma surpresa por parte do Canal Panda. Em termos técnicos a dobragem é boa, e seria melhor se se atentasse mais à relação voz do dobrador / voz da personagem. Os avós de Miho não convencem. No geral, as várias emoções, desde a surpresa à ira passando pela indiferença e o riso, estão representadas de forma competente. De notar que sempre que alguém canta são agradavelmente mantidas as vozes japonesas, que acabaram num ou dois singles editados lá pelas terras do Sol Nascente.

Fancy Lala é uma criação dos Estúdios Pierrot (Hikaru no Go, Naruto, Saber Rider, Yu Yu Hakusho, Tokyo Mew Mew…), e beneficia da qualidade de muitas das suas séries. O Director de Arte Akira Miyazaki e a character designer Akemi Takada fizeram um excelente trabalho, dando às personagens o indispensável toque kawaii, mas mantendo a riqueza de expressões que podemos encontrar na série, assim como a facilidade de as distinguir. Não esquecer que não há duas sequências de henshin (em que Miho se transforma em Lala, primeira imagem da esquerda) iguais, já que variam consoante a roupa que veste… o que ainda vai sendo raro. Também as roupas criadas para Lala são modernas e originais. Já a dobragem (e cantigas!) foram entregues aos dobradores Reiko Oomori (Miho/Lala) -na altura com 14 anos- e Hiderou Ishikawa (Hiroya). Akiru e Tarou são dobrados, no original, respectivamente por Omi Minami e Kappei Yamaguchi.

O facto de Fancy Lala (no original Mahou Stage no Fancy Lala) contar em 26 episódios uma história tão batida de forma algo inovadora, sobretudo considerando que não teve versão manga antes de anime (viria a ter um manga, de Kasuga Rurika, na revista Ribon -última imagem à esquerda com Miho e Tarou), pode dar que pensar… e com razão. O anime que vemos é resultado de um OVA feito pelos Estúdios Pierrot (Harbor Light Monogatari- Fashion Lala) «misturado» com uma clássica série de anime, Creamy Mami, de 1983 (também Pierrot), com uma história quase igual. Contudo, não tem os elementos que tornam Lala tão brilhante, tendo um cariz mais romântico e menos realista, além de ter sido produzida 15 anos antes; na altura, porém, fez considerável sucesso, sendo exibido na Europa… suponho que antes de Creamy Mami nenhuma menina tinha tido a oportunidade de se transformar em estrela do espectáculo!

Uma menção especial para o fim da série. De modo algum é um final previsível e, não querendo adiantar mais, posso só dizer que à primeira vista pareceria muito decepcionante, mais uma vez tendo em conta o público-alvo de Fancy Lala. Contudo, termina com bem mais do que uma réstia de esperança, e o sorriso de Miho assegura-nos um agradável final… menos fechado do que se poderia antecipar.

Autor:GoldPhoenix

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