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Fruits Basket

Honda Tooru é uma menina que teria tudo para ser profundamente infeliz: o pai morreu quando ela era criança, e a mãe morreu num acidente de carro. Ela vive de “part-times” para não ser um peso para o avô paterno e para concluir o liceu, um grande desejo da sua mãe. Além disso, como a casa do avô está em obras, Tooru vive sozinha numa tenda para não incomodar as melhores amigas, Uotani Arisa e Hanajima Saki. Apesar de todas estas situações, Tooru é uma menina feliz, que conversa com sua mãe em pensamento e sabe ver o lado positivo das coisas.

Um belo dia, ao ir para a escola, Tooru vê uma casa tradicional japonesa e, ao aproximar-se, repara que na varanda estão doze bonequinhos do Juunishi (horóscopo chinês formado por doze animais). Enquanto ela os examina, o dono da casa aparece e ela apanha um grande susto, que aumenta quando descobre que naquela casa mora também o seu colega de escola, Souma Yuki, conhecido como “o príncipe” e primo do dono da casa, Souma Shigure.

Os três começam a conversar e relembram uma antiga lenda chinesa, segundo a qual todos os animais haviam sido convidados para uma festa no céu, mas o rato enganou o gato, e por isso ficou excluído do zodíaco chinês. Tooru diz que sempre sentiu pena do gato, a ponto de desejar mudar o seu signo chinês de “cão” para “gato”, ao que o normalmente gentil Yuki responde que “os gatos são idiotas”, o que a surpreende bastante.

Acontece que a família Souma está sob uma maldição, de modo que doze de seus membros se transformam nos animais do Zodíaco chinês quando são abraçados por uma pessoa do sexo oposto. O mesmo acontece com Kyo, que se transforma no gato mas não é aceite pela família. De posse do segredo, Tooru corre perigo. A sua memória pode ser apagada por ordem do chefe do clã, o misterioso Akito, que inexplicavelmente permite que Tooru continue a morar com Shigure, Yuki e Kyo, na condição de esta guardar segredo. Pouco a pouco os demais membros do Juunishi passam a visitar Tooru e a interagir com ela, contagiando-se pela sua incrível alegria e bondade. Será que Tooru é a chave para eliminar a maldição e trazer a paz aos torturados membros da família Souma?

Não é exactamente o ponto central da série, mas o ritmo é animado, com várias coisas que acontecem de forma frenética. Yuki e Kyo fazem a alegria dos amigos das artes marciais, mas as lutas são relativamente poucas. O resultado final, contudo, é uma série muito ágil que faz o tempo passar sem que se perceba.

Nesta série o conteúdo psicológico é imenso e apresentado de uma maneira incrivelmente leve, mas não menos contundente. É uma das séries mais ricas no efeito catarse. (“catarse” é um efeito das tragédias gregas pelo qual os espectadores deveriam livrar-se das suas tristezas, vivendo o sofrimento dos personagens das peças. Este é um tipo de “limpeza da alma” ao ver as interacções de outras pessoas). Excelentes indagações sobre as relações e fraquezas humanas.

Quem conhece ou já leu o manga, reparou que a transposição para a versão animada manteve o mesmo tipo de traço bonito e delicado. Fruits Basket (ou Furuba, como é conhecido pelos fãs) é muito popular entre as meninas pela incrível quantidade de bishounen e biseinei por metro quadrado. A animação e as cores também são muito boas, o que dá à série mais um “ponto extra”.

O humor também está bem representado em Furuba, na caracterização de alguns dos personagens e cenas, o “pastelão” do Tooru, as histriónicas cenas de Kyo e Ri-chan ou até mesmo os comentários de Shigure e Hatori…

A perfeita definição para a série: a Polyanna japonesa. Se calhar muitos dos fãs de anime são jovens demais para se recordarem, Polyanna (Ai Shoujo Pollyanna Monogatari) é um anime que foi muito popular há muitos anos atrás baseado na obra de Eleanor H. Porter e foi transmitido em Portugal nos anos 80.
De leitura quase obrigatória para raparigas e que mereceu até uma adaptação da Disney nos tão conhecidos “livros aos quadradinhos”. Apesar de ser órfã e de passar muitas dificuldades, Polyanna era uma menina que via sempre o lado bom das coisas e que tentava influenciar todos os que a rodeavam a jogar o “jogo do contente” com ela…

É engraçado ver como a mesma história pode ser tão mais interessante como é em Fruits Basket, talvez porque, ao contrário de Polyanna, Tooru é demasiado inocente para ser levada a sério… Contudo, por vezes vemos que Tooru não é assim simplesmente por um desejo divino. Ela é na realidade muito sensível e sofre com todas as dificuldades que se abatem sobre ela. No entanto, Tooru arranja forças nas figuras da mãe e dos amigos para seguir em frente com alegria.

Uma das passagens que mais me chama a atenção (e que quase passa despercebida se não se souber o que é) é onde se explica o título da série: Fruits Basket (“cesta de frutas”). Consiste num jogo no qual cada criança recebe o nome de uma fruta e é chamada para uma “cesta” juntamente com outras. Quando era pequena, Tooru um dia tentou participar da brincadeira com os colegas da escola, e recebeu o nome de “onigiri”… (um tipo de sushi, como um bolinho de arroz). Como onigiri não é fruta alguma, nunca foi chamada por ninguém e ficou à margem de todos, aguardando que a chamassem… Sempre sorridente, parecia nem sequer acusar o motivo de chacota em que se havia tornado. Fica contudo com uma grande mágoa e abate-se sobre ela o desejo de isolamento. Exactamente como acontece com os membros da família Souma, isolados do mundo pela maldição que carregam e pela incapacidade de se aceitarem como realmente são.

É deveras refrescante assistir a uma série que transmite tantas coisas boas e uma mensagem tão forte e positiva nos dias de hoje. Dias nos quais parece que todos se esqueceram de que somos seres humanos iguais e que estamos no mesmo barco. O respeito e aceitação mutua desaparece dando lugar à fachada, mostrando o que na realidade não somos!

Furuba traz uma incrível contribuição a todos que o vêem, na forma de um manual de gentileza e amor. Apresentado numa linguagem simples e agradável, de modo algum dogmática ou moralista, apenas mostrando como a vida poderia ser tão melhor se nós apenas nos esforçássemos um pouco…


Autor:Selma Meireles

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