O fenómeno da Internet mudou radicalmente a forma como muitos de nós passam os seus tempos livres. Se assim não fosse, concerteza não estaria o leitor a ler este artigo, em vez de ler um livro, praticar desporto ou mesmo simplesmente ver televisão. Mas a leitura de simples artigos está longe de ser a forma de entretenimento que mais tempo consome aos internautas mais viciados. Tudo teve origem nos MUD’s (Multi User Dungeons) que, durante a década de 90, tiravam o partido possível da pouca largura de banda disponível para oferecer a aficcionados de RPG’s uma experiência meramente textual, mas absolutamente viciante, e possibilitando pela primeira vez a colaboração e competição com outros jogadores a uma escala global. Mas logo a Internet se alargou, as capacidades gráficas foram apuradas, e os MUD’s deram lugar a colossais MMORPG’s (Massively Multiplayer Online Role Playing Games), mundos vastos e belos prontos a serem percorridos por magos, cavaleiros, jedis, catgirls, e tudo mais o que qualquer internauta alguma vez quisesse ter sido.
Não é muito difícil, para quem acompanhou esta evolução, adivinhar qual a direcção que esta forma de entretenimento tomará: cada vez mais as novas tecnologias se orientam no sentido de proporcionar uma imersão crescente nestes mundos de fantasia, onde os jogadores poderão escapar às duras e feias circunstâncias do mundo real, gastando neles cada vez mais tempo – e, claro, dinheiro.
E no entanto, apesar da evolução no formato do jogo, não é de notar uma grande evolução da forma como ele é jogado – muito pelo contrário. A abertura dos MMORPG’s às massas implicou a penetração de cada vez mais adolescentes sem noção de tacto nem reais capacidades de socialização, que se limitam a vaguear em busca de monstros para matar e demandas para cumprir, muitas vezes com o objectivo um pouco fútil de chegar ao nível mais alto ou adquirir o item mais raro do jogo – de tal forma que o gozo muitas vezes se transforma em obsessão, e o divertimento dá lugar à compulsão de ver os Hit Points aumentar mais um pouquinho. No meio desta atitude, onde está, afinal, o Role-Playing?
O projecto “.hack” oferece a premissa dum futuro próximo onde os MMORPG’s oferecem imersão total (e por vezes excessivamente total) aos seus jogadores, que encarnam personagens aparentemente reais, mas que só existem no mundo electrónico dos servidores do jogo. Este mundo é chamado, num rasgo de literalismo, “The World”, e é também o palco das aventuras relatadas nas obras que compõem este projecto – séries de TV, OAV’s, videojogos, manga, e até mesmo jogos de cartas! “.hack//SIGN” é a série TV deste projecto, composta por 28 episódios (os 2 últimos só disponíveis na edição em DVD). Coproduzida pelos estúdios da Bandai (responsável pelo projecto) e Bee Train, foi transmitida no ano de 2002.
Tsukasa acorda em “The World”. Está sozinho, e não se lembra do que aconteceu para estar ali. Contudo, ele sabe que está a desempenhar o papel de um personagem no videojogo, mas depressa descobre que, além de não conseguir sair do jogo, também sente, cheira e toca como se estivesse realmente naquele mundo. Depressa os rumores se espalham sobre o jogador que não consegue fazer logout, e que vagueia sem rumo procurando respostas para a sua condição. Outros jogadores ganham interesse em Tsukasa, tais como sejam Mimiru, que procura aproximar-se de Tsukasa mas é deparada com uma resistência irritante deste, e Subaru, uma moderadora que sente uma estranha afinidade com o “náufrago on-line”. Estes e outros personagens do jogo tentarão desvendar o mistério de Tsukasa, e a sua possível relação com um mítico objecto chamado “Key of the Twilight”, que supostamente possui enormes e indeterminados poderes sobre o próprio “The World”.
Os jogos on-line são uma premissa que nunca antes tinha sido explorada pela animação japonesa (excepto se considerarmos “Digimon” e “Rockman.EXE”, este último posterior a “.hack”), e desde já “.hack//SIGN” ganha pontos de originalidade por causa disso. O enredo envolvendo um jogador preso num jogo on-line é intrigante, e poderia dar origem a uma narrativa interessante, se os escritores não tivessem insistido em esticar a história muito para além do seu limite de elasticidade! Os 28 episódios da série dão a sensação de poderem ser contados em meia-dúzia, consistindo a maior parte deles em diálogos monótonos e inconsequentes, encontros que se repetem sem qualquer impacto (e muitas vezes apenas subentendidos e deixando o espectador no escuro), e momentos de reflexão que não passam de oportunidades para economizar animação. Tudo isto contribui para a sonolência e/ou perplexidade do espectador ao longo de toda a série, com o marasmo a impôr-se durante 20 e muitos episódios – até que, perto do fim, os argumentistas parecem lembrar-se que a série está próxima do fim e empoleiram tudo aquilo que poderia ser chamado de “história” numa amálgama sem consistência nem nexo. No final, muito fica por dizer, que bem poderia ter sido dito em todos os episódios em que não acontece praticamente nada. Afinal de contas, em termos de trama, a série é bem parecida com as aventuras de um grupo típico de jogadores de MMORPG’s: quando há trama, ela não presta.
Ao nível visual, encontra-se uma das poucas coisas que poderá ter atraído fãs para esta série: os designs baseados em desenhos de Sadamoto Yoshiyuki, que criou os designs do incompreensivelmente popular “Neon Genesis Evangelion” e do estrambólico “FLCL”. É, porém, curioso verificar que os designs interessantes esgotam-se nos personagens principais da série, que parecem ser os únicos participantes de “The World” com um mínimo de senso de estilo. Todos os figurantes limitam-se a vestir roupas sem interesse, pelo que quando aparece alguém com um design interessante, já sabemos que vai ter um papel importante na história! Apesar deste discutível “atractivo”, verifica-se que na maior parte dos episódios a animação é limitada e muitas vezes meramente simbólica, com um recurso exagerado a “stills” prolongados.
O mais concreto ponto positivo desta série é o acompanhamento musical e os efeitos sonoros. A música inclui muitos temas cantados (quase todos em inglês) e que ilustram adequadamente as situações de cada episódio, ao mesmo tempo que constituem uma banda sonora interessante quando considerada isoladamente. A música de abertura é cibertrónica q.b., com uma sonoridade cativante, mas repetitiva – não vai ficar para a história, mas é fácil de lembrar, sobretudo sendo cantada em inglês. Ao nível de vozes, a série com no elenco com Saiga Mitsuki (Tsukasa, Takashi em “Pita Ten”), Toyoguchi Megumi (Mimiru, Yumi em “Chobits”), Nazuka Kaori (Subaru, Lalaru em “Ima, Sokoni Iru Boku”) nos principais papéis, e ainda são de destacar as prestações de Hiramatsu Akiko (BT, Miyuki em “You’re Under Arrest”, Yukari em “Azumanga Daioh”) e Tanaka Rie (Morgana, Chii em “Chobits”).
Não posso dizer que tenha sido um prazer ver “.hack//SIGN”, tendo havido diversos momentos em que o desespero se apoderou de mim, e em que me perguntei se não poderia estar a fazer algo mais interessante, como ver tinta a secar. Apesar da sua premissa interessante, a série é praguejada por um ritmo de lesma e por uma história com inconsistências descaradas, fazendo-se apenas valer ao nível musical. Não posso recomendar esta série senão aos que já estão demasiado envolvidos nas obras do projecto “.hack” para a descurar. Mesmo fãs de MMORPG’s poderão encontrar coisas mais interessantes para fazer do que ver “.hack//SIGN” – como por exemplo, jogar aos ditos cujos. Não deverá ser-lhes difícil fazer algo de mais interessante do que esta série.
Autor:João Rocha
