Hikaru no Go relata a história de um rapaz, Shindo Hikaru, que, vasculhando o sótão do seu avô, encontra um velho tabuleiro de Go. Desse tabuleiro surge Fujiwara no Sai, tutor de Go da corte no período Heinan, que se suicidou após sofrer desonra injustamente, passando a assombrar o tabuleiro e a possuir pessoas verdadeiramente dotadas para o jogo, com o objectivo de um dia conseguir realizar a jogada perfeita, a Mão de Deus, e assim encontrar a paz. O primeiro a ser possuído foi o lendário jogador de Go, Honinbo Shusaku, e agora, é a vez de Shindo.
Hikaru no Go puxa pelo espectador em muitos aspectos. Por um lado, temos Sai a maravilhar-se com os tempos modernos; por outro, temos Shindo, relutante a principio, depois contente em deixar Sai jogar. Mas cedo Shindo se começa a interessar mais e mais pelo jogo, e cedo conhece Touya Akira, um jovem génio do Go, e fica determinado a chegar ao seu nível, a tornar-se digno de ser seu rival.
E assim, o grosso do conteúdo de Hikaru no Go é a evolução de Shindo como jogador de Go, as suas lutas diárias, as pessoas que conhece, os amigos que faz dentro do mundo do Go, e o seu progresso com Sai como tutor. A vida pessoal de Shindo fora do mundo do Go é raramente retratada, talvez reflectindo um pouco extrema dedicação que a mestria do jogo exige. O facto é que a maneira como o anime retrata a sinergia entre os jogadores de Go, as emoções entre rivais e amigos, entre mestre e aluno, é algo que nos prende ao ecrã durante cada minuto, capazes de nos fazer ver 75 episódios acerca de um jogo que podemos desconhecer de todo – embora no final de cada episódio sejam dadas algumas bases de Go para os interessados aprenderem, isto não é de modo algum necessário para apreciar a série.
Nota-se sobretudo que os autores deste anime são mestres em timing – raros são os episódios em que o final nos satisfaça, em que a curiosidade acerca do que se passará não nos obrigue praticamente a começar imediatamente a ver o próximo. Devo dizer que eu me fartei completamente de anime há alguns anos, e desde então nenhum dos que experimentei me chamou a atenção, mas Hikaru no Go, devido aos aspectos que descrevi, viciou-me como poucos – e certamente que qualquer pessoa que já tenha participado activamente num jogo mental competitivo, do Xadrez ao Legend of the Five Rings ao Magic, sentirá a mesma sinergia pelas personagens e pelos eventos que as rodeiam. A única fraqueza do anime reside em centrar-se demais em Shindo e Sai – muitas personagens cativantes não são tão desenvolvidas como mereciam.
Como nota final, falo da sonoplastia, uma das melhores bandas sonoras que ouvi nos últimos tempo, uma selecção relativamente pequena de musicas potentes, capazes de retractar na perfeição os dramas que se vivem tanto no tabuleiro de Go como fora dele, de uma forma digna das batalhas mais épicas.
Mesmo que, no final, acabem por decidir que aprender a jogar Go é demasiado difícil ou trabalhoso, depois de verem esta série não conseguirão ficar indiferentes a este magnífico jogo, e ao mundo que o envolve.
Autor:Luis Magalhães
