Quantas vezes, na animação, o heroísmo em tempo de guerra é-nos oferecido por retratos de heróis que, apesar de confrontados com obstáculos aparentemente inultrapassáveis, acabam inevitavelmente por superar todas as dificuldades e surgir triunfantes com o prémio, a miúda e a contribuição para um futuro melhor? E quantas vezes se passa por cima do sacrifício, dor e crueldade que tantas vezes permeiam esses actos? Quando uma obra se declara como escapista, é quase inevitável que tome todas essas liberdades para se tornar mais agradável para quem a assiste. Mas a guerra, no seu pior, é uma aberração cruel, sangrenta e saturada do sofrimento de quem nela se vê envolvido. Porém, ainda assim, podem existir heróis.
Com uma sobriedade que despe a guerra de toda a glória que lhe possa ser atribuída, “Ima, Sokoni Iru Boku” é uma série de 13 episódios que mostra que mesmo em meio à feiura do massacre, existe espaço para o heroísmo – mas não sem dor, não sem morte, não sem sacrifício. Produzida pelos estúdios AIC/Pioneer em 1999 e lançada em França com o nome “L’Autre Monde” e nos Estados Unidos sob o título “Now and Then, Here and There”, esta obra é brutalmente honesta e realista no retrato que faz de uma guerra num mundo alternativo. Porém, apesar da sua mensagem poderosa e de um forte conjunto de qualidades artísticas, a série não atingiu qualquer notoriedade no Japão ou no Ocidente. Depois de assistir à sua totalidade, não é difícil perceber porquê.
Matsutani Shuzo (Shu para os amigos), é um jovem japonês como tantos outros, mpulsivo e teimoso, vivendo numa sociedade relativamente pacífica. Um dia, ele vê alguém sentado no topo de uma chaminé de uma fábrica abandonada. Trepando para a alcançar, ele vislumbra uma jovem estranha contemplando o pôr do sol. É assim que Shu conhece Lala Ru.
Mas o momento de paz é interrompido por engenhos de guerra que surgem do nada para capturar Lara Ru. Shu é apanhado na confusão, e ao tentar ajudar a jovem, é levado para um outro mundo, sendo capturado e aprisionado. Este é o mundo de Hellywood, uma gigantesca fortaleza móvel comandada pelo louco Rei Hamdo, auxiliado pelo seu braço direito, a fria Abelia. É um mundo inóspito, onde a água é um bem precioso, e tudo o que separa Hellywood da dominação total é água para alimentar os seus motores. E Lala Ru é exactamente o ingrediente que falta, pois além do seu poder de manipulação hídrica, possui um pendente de onde pode fazer jorrar quantidades ilimitadas de água. Shu é obrigado a juntar-se ao exército de Hellywood, composto das gentes raptadas das aldeias indefesas das redondezas. Mas a sua teimosia é sobrestimada pelos que o rodeiam: ele não desistirá de salvar Lala Ru e fugir do mundo infernal onde foi parar. Nem ao custo da própria vida.
Apesar de aparentemente recheado de clichés (a menina com o pendente mágico, o transporte para o outro mundo), “Ima, Sokoni Iru Boku” é tudo menos um estereótipo de série de aventuras. Isto por causa do tratamento que é dado ao conflito que reina no mundo inóspito que lhe serve de cenário, uma guerra alimentada pela loucura de um Rei paranóico, na posse da arma mais poderosa do planeta. O exército de Hellywood é uma amálgama das vítimas da própria fortaleza, seduzidas pela miragem de voltarem às suas vidas anteriores, uma visão depressa destruída pela participação nos horrores de uma guerra aparentemente interminável. É dado grande destaque à vivência do exército de Hellywood, pelos olhos de 3 soldados com os quais Shu trava conhecimento: Nabuka, endurecido pelas batalhas travadas, Buu, cuja tenra idade poupou-o ao sacrifício da sua inocência, e Taburu, com sede de poder e embriagado pela potência destrutiva. Eles representam 3 facetas diferentes de um conflito em que nem as crianças são dispensadas de servir como soldados, mas onde as mulheres servem apenas como objecto reprodutivo e sexual. O expoente desta vitimização está em Sara, uma jovem do nosso mundo que foi confundida com Lala Ru e capturada, para depois do engano constatado, servir como “objecto de entretenimento” dos soldados de Hellywood. É assim tão brutal, assim tão crua, a representação da guerra em “Ima, Sokoni Iru Boku”.
A AIC/Pioneer podia ter afogado a mensagem poderosa desta obra num delírio audio-visual, mas não o fez. Os designs de personagens são extremamente sóbrios, e até mesmo minimalistas, apesar da animação ser competente. Nesta série não existem grandes efeitos especiais, e o cenário desolado não se oferece a vistas espectaculares. Isso poderá desde logar desincentivar alguns potenciais espectadores, mas acho que se pode pedir alguma paciência mais a um fã de anime, tão habituado a ter que esperar para obter o que quer. E o que se quer, aqui, é a história, e não desenhos bonitos. Toda a série tem um look mais associado ao final dos anos 80 do que ao dos anos 90, mas uma vez habituado o espectador, ele não deixará que isso se interponha entre ele e a experiência de visualização.
A música não é brilhante, fazendo igualmente pensar nos idos da década de 80, e seria bem mais adequado um acompanhamento sinfónico. Apesar disso, torna-se óbvio que o conteúdo da série é apropriado a fazer brilhar os seus actores de voz. Okamura Akemi (Mirandah em “Battle Athletes”) oferece um entusiasmo e teimosia surpreendentes a Shu, fazendo-nos acreditar que ele fará o que fôr preciso para salvar Lala Ru, a quem Nazuka Kaori (Subaru em “.Hack//Sign”) transmite uma suprema melancolia na voz. Ishii Kouji (Kimura em “Azumanga Daioh”, Mitsukake em “Fushigi Yuugi”) é exuberante no papel do Rei Hamdo, e fazendo sobressaltar a sua obsessão com Abelia, interpretada com sobriedade extrema por Yasuhara Reiko. Também de destacar são os trabalhos de Konishi Hiroko (Nene em “BGC: Tokyo 2040”, Sae em “Mahou Tsukai Tai!”) como o pequeno Boo, Imai Yuka (Wakaba em “Shoujo Kakumei Utena”, Futaba em “Puni Puni Poemi”, Otaru em “Saber Marionette”) como o severo Nabuka, Suyama Akio (Ohgami em “Sakura Taisen”) como o inescrupuloso Taburo e Nakao Azusa como a mártir Sara.
Num mercado saturado de alternativas escapistas, “Ima, Sokoni Iru Boku” é um verdadeiro balde de água fria que vai de todo contra aquilo que as massas querem ver. Apesar de não tão pessimista e melodramático, é infinitamente mais brutal e cru do que o único título recente que se lhe pode comparar, o excelente “Saishuu-Heiki Kanojo”. Infelizmente, uma série como esta nunca poderia obter grande notoriedade junto dos fãs no contexto actual da animação japonesa, simplesmente pelo facto de sacrificar grande parte da sua complexidade artística e actualidade técnica em nome do conteúdo e mensagem.
Mercê da sua honestidade, nunca será popular, mas sempre será lembrada por
quem a viu.
“Ima, Sokoni Iru Boku” não é para todos, mas é uma série de uma qualidade incrível que não desiludirá quem a assistir com uma disposição séria e uma tolerância considerável a crueldade do pior género. Recomendado a quem quer ver em anime um meio para a transmissão de algo mais do que escapismo, fazendo também passar as mensagens que importam.
Autor:João Rocha
