Loading...
AnimeArtigos

Key, the Metal Idol

Bem antes de “Serial Experiments Lain” nos oferecer a sua protagonista cibernética com acessos de apatia, de “Ghost in the Shell” nos dar a Major Kusanagi com o seu dilema de ser ciborgue, ou da onda mais recente de meninas-robô como em “Hand Maid May” ou “Mahoromatic”, uma outra obra de anime explorava com seriedade o fascínio dos japoneses com a tecnologia e a linha pouco nítida que, eventualmente, separará a inteligência humana da artificial. Em 1994, o Studio Pierrot ofereceu ao mundo o seu conceito algo distópico de tecnologia robótica, corporações impiedosas e idolatria de cantoras nos 15 episódios de “Key, the Metal Idol”.

“Key” merece destaque não só pelo seu conteúdo, como também pelo seu formato: a série é composta por 13 episódios com duração normal, e dois episódios suplementares com cerca de 90 minutos, o que assegura um final bem desenvolvido e com poucas interrupções. Apesar de tudo o que tem em seu favor, é triste constatar que, apesar do seu conteúdo cativante e história interessante, “Key” não recebeu, em grande medida, o reconhecimento merecido como precursor de todo um subgénero de anime.

Key é o nome dado a Mima Tokiko, uma menina criada no mais recôndito interior do Japão por um estranho inventor especializado em robótica. Infelizmente, este cientista torna-se a vítima mortal de obscuros interesses industriais e militares, e Key fica sozinha no mundo. Contudo, antes de morrer, o Dr. Mima deixa uma mensagem a Key, dizendo que ela poderá tornar-se humana se conseguir cativar os corações de 30.000 pessoas!

E assim, Key viaja para Tóquio, a fim de cumprir a sua demanda, e é confrontada com uma cidade onde aparentemente ninguém está apto a amar um robô. Porém, com a ajuda da sua antiga colega de escola Sakura, Key explora a possibilidade de se poder tornar uma cantora-ídolo, atirando-se de cabeça para um perigoso e estranho mundo, bem mais próximo das circunstâncias que levaram à morte do seu avô do que ela poderia alguma vez imaginar…

Para uma história contendo uma aspirante a cantora-ídolo com a missão de cativar 30.000 pessoas, Key contém muito menos sacarina do que seria imaginável. Um tom de seriedade é mantido ao longo de toda a série, fazendo questão de nos mostrar a vertente sombria de aspectos como a vida nas grandes cidades e o sucesso efémero das cantoras-ídolo. Apesar de estar mergulhada em situações extraordinárias, a série nunca deixa de nos apresentar reacções plausíveis pelos seus personagens, que por vezes, na sua irracionalidade e ansiedade, relevam-nos a imperfeição e falta de lógica da condição humana, em contraste com a apatia de Key, testemunha por natureza.
O foco principal acaba por ser a exploração dos efeitos da interacção entre a tecnologia e a mente humana – com resultados por vezes terríveis.

Ao invés de concentrar a narrativa no ponto de vista de um personagem, a história é contada em diversas linhas paralelas que são alternadamente focadas – muito à maneira de uma telenovela brasileira. Todas estas histórias eventualmente se cruzam de forma dramática no desfecho retratado nos dois episódios finais. Esta forma de narrativa retarda um pouco o desenvolvimento da história, mas é importante para efectuar o desenvolvimento em pleno de todos os personagens.

O estilo gráfico e a animação podem ser descritos como “em fase de transição” – transição entre os designs mais simples da década de 80, e o esforço de dinamização e a busca de novas fórmulas estéticas mais apelativas dos anos 90. O resultado é o que se pode chamar de “nem carne nem peixe”: embora a referência mais óbvia possa ser “Bubblegum Crisis”, realizado 7 anos antes em 1987, ou o jogo “Xenogears”, que partilhou com “Key” o designer Kunihiko Tanaka.

No panorama vocal, “Key” conta com um elenco superior à média, destacando-se Iwao Junko (Tomoyo em “Card Captor Sakura”, Akane em “Mahou Tsukai Tai”) como a misteriosa e impassível Key, Nagasawa Miki (Maya em “Evangelion”, Miyu em “Vampire Princess Miyu TV) no papel da pragmática mas sensível Sakura, Morikawa Toshiyuki (Aoki Seiichiro em “X TV”) como o bem-disposto Tataki, Hayami Shou (Wolfwood em “Trigun”, Yasha-ou em “RG Veda”) como o executivo completamente louco, Ajou Jinsaku, e Kosugi Juurouta (Akio em “Shoujo Kakumei Utena”, Zagato em “Magic Knight Rayearth”) na voz do implacável Sergei.

Sendo um anime sério, um pouco deprimente, e com poucos traços de humor, “Key, the Metal Idol” não é para todos. Mas para quem gostou das linhas gerais de “Lain” e “Ghost in the Shell”, “Key” pode constituir uma referência preciosa no sentido de descobrir as origens estéticas e narrativas daqueles dois títulos. “Key”, apesar de tudo o que tem oferecer, continua a ser um anime subestimado… talvez queiras ser tu um dos amigos de Key?

Escrito por: João Rocha

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Connect with Facebook

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.