Saint Seiya é, incontornavelmente, um dos animes mais famosos do Mundo. O seu papel na divulgação do que é o anime por esse planeta fora, se considerarmos as camadas mais jovens, encontra par somente em Dragon Ball Z, Tsubasa ou talvez Sailor Moon.
Exibido primeiramente no Ocidente em França com o célebre nome de Chevaliers du Zodiac, logo se expandiu para vários países como Itália e Espanha, indo daqui para toda a América Latina, onde ainda hoje se encontram os fãs mais “hard core” da série. Em Portugal, para quem se lembra, foi exibido em por volta de 1992/93 na RTP 1 (Cavaleiros do Zodíaco), sem genérico de abertura nem final, e com as vozes originais em japonês. Para mim, que já na altura adorava mitologia, pareceu-me o conceito mais incrível já inventado: jovens órfãos recrutados por uma gigantesca corporação (entre os quais Seiya, o protagonista) para serem mandados para terras distantes, onde deveriam despertar o seu poder interior, o «Cosmos», e ganhar assim armaduras de bronze com o nome (e forma) de figuras mitológicas. Finalmente, baterem-se em torneio por um prémio singular, a «Armadura de Ouro».
Já ouvi falar em pressão por parte de associações de pais; nunca tive a certeza. A verdade é que na altura em que o seu êxito (assim como a trama) pareciam atingir o auge, a série foi cancelada. Anos mais tarde seria transmitida na SIC e depois na SIC Sempre Gold, desta vez dobrada na nossa língua. Para quem viu o original, não é a mesma coisa… Mas foi de facto exibida na sua íntegra até à última das Sagas. A última?
A verdade é que Saint Seiya foi um êxito para todos os que se envolveram com a série: Masami Kurumada, o autor do manga, ganhou definitivamente o estrelato com a sua invenção; a Shonen Jump vendeu que se fartou; a TOEI fez muito lucro com a adaptação para anime, e a BANDAI fez action figures que ainda hoje têm procura… ainda assim, por motivos não definitivamente esclarecidos, a última das Sagas no manga, a Saga de Hades, nunca foi adaptada para anime.
Falou-se em realizá-la em filme (a história de Seiya deu origem a 4 filmes) mas nunca se concretizou. Hades, o Deus das Trevas. Hades, o verdadeiro inimigo da protectora da Terra, Atena. Hades, condenado a ficar exclusivamente em manga…
A série tinha uma base de fãs que aprenderam bem demais com Seiya e demais Santos Cavaleiros o que era a teimosia para que isto permanecesse assim; e logo se desenvolveram campanhas menores, sobretudo na América Latina, para convencer a TOEI a adaptar Hades para anime.
De longe o esforço mais notável, porém, veio de França: um jovem artista de nome Jérôme Alquié incorporou com impressionante fidelidade o estilo do character designer do anime, Shingo Araki, e fez um trailer (sim, uma sequência de anime, com uma «proposta» de genérico incluida!) para Hades, com o Dead or Dead e tudo (ver abaixo) que foi exibido numa convenção de anime em França, em 27 de Abril de 2001. Araki e Alquié viriam a encontrar-se e mais pressão foi feita sobre a TOEI.
Finalmente, para delírio dos entusiastas que nunca perderam a fé, no final de 2002 a TOEI anuncia que estão a ser preparadas OVAs de Saint Seiya sobre o capítulo «Hades», 16 anos depois do primeiro episódio de Seiya ser transmitido no Japão. Ainda corriam boatos e já os webmasters limpavam o pó aos velhinhos sites, há muito não actualizados… Seriam, primeiramente, 13 OVAs, que abordavam a primeira parte da Saga, que se passa na Terra. E efectivamente foi exibida a primeira, no dia histórico de 9 de Novembro de 2002. Mas conseguiriam estar à altura das expectativas dos fãs, após tantos anos?
Consideremos o enredo. Primeiro que tudo, é preciso não esquecer que independentemente do nome, estas OVAs são como episódios, se bem que extremamente elaborados. O enredo (plot, se preferirem) é basicamente o mesmo do que já se conhecia do manga, o que é um dos grandes trunfos de Hades sobre as restantes Sagas que se seguiram à do Santuário (nota: à parte de «Hades» que já foi exibida e que se passa na Terra também se chama «Hades: Sanctuary Chapter», mas aqui refiro-me à primeira das Sagas).
Na verdade, enquanto estas consistiam em enviar os heróis para novos locais, enfrentando novos inimigos, na primeira parte de Hades, pelo contrário, a sua missão é fazer aquilo para que originalmente foram treinados: proteger o próprio Santuário das forças invasoras. Os inimigos, também, são bastante familiares, o que permite desvendar mais ainda sobre o seu passado e o que tem vindo a ocorrer na eterna batalha contra Hades, há muitas gerações. Na adaptação para anime, inevitavelmente acrescentaram-se algumas batalhas novas (como já havia sido feito); porém curtas, a sua única função é dar mais evidência aos Santos Cavaleiros de bronze, já que o protagonismo, no manga, parece ir quase todo para os seus companheiros das castas mais elevadas (o que, diga-se, contribuiu para o fascínio que Hades sempre exerceu sobre os leitores).
O desenrolar da acção é ao estilo Seiya (faz-nos ansiar pelo próximo episódio, em que, ao contrário de Dragon Ball Z, sabemos que vai progredir alguma coisa), a tensão é muito bem trabalhada e os Espectros de Hades, ao contrário dos anteriores inimigos, que quase sempre primavam pelo poder e força bruta, ganham vantagem pela sua obstinação e técnicas de luta insidiosas e traiçoeiras.
A arte? Não desilude, antes pelo contrário. Não podia ser de outra maneira, com Shingo Araki novamente como character designer (desta vez presente em todos os episódios, não só alguns). Podemos então contar com movimentos fluidos e posturas dinâmicas mas ao mesmo tempo rostos expressivos e a já habitual preocupação com o mais ínfimo dos pormenores. Ainda assim o computador faz agora a maior parte do trabalho, o que se torna vantajoso nos sombreados e nos reflexos das armaduras; atrevo-me no entanto a denunciar uma certa estilização exagerada dos rostos, pouco perceptível… consequência do uso do computador, talvez? O mais impressionante no traço de Araki é a dificuldade em ser sistematizado, em ser classificado, em ser imitado, porque é muito livre e, mesmo assim, consegue efeitos espectaculares.
E esse aspecto, de «cada desenho ser único», já não parece tão prevalente quando comparamos Hades com, por exemplo, os últimos episódios da anterior Saga em anime. Temos também direito a animações 3D que não nos deixam esquecer que cada um destes capítulos é uma OVA e, por isso, recebeu mais atenção que um simples episódio no meio de muitos.
Estátuas de Atena em rotação, montanhas a serem derrubadas e vistas de primeira pessoa de personagens a fazerem algo tão simples como subirem escadas à pressa mostram que nem só nos momentos mais críticos em que os personagens queimam o seu Cosmos para desencadearem os ataques mais violentos existem animações computadorizadas (CG graphics). E quanto a estes… autênticas obras-primas. Como verão na 6ª OVA, fica mais ténue a linha entre Saint Seiya e os efeitos hiperbólicos de Dragon Ball Z, mas nunca chega a ser atravessada.
Abordemos agora os diversos aspectos de som. A equipa de seyuus (dobradores) não é a mesma da original (alguns chegaram inclusive a falecer, como o seyuu do Cavaleiro do Carneiro), mas é muito competente. Talvez seja da dobragem portuguesa, mas ainda não vejo o Shiryu com voz mais grossa que o Ikki… Os efeitos sonoros estão à altura, desde a miríade de explosões ao som mórbido das encostas do Yomotsu (Poço do Inferno, na versão portuguesa) passando pelos mantras budistas na Casa de Virgem. Por fim, as músicas… é preciso dizer que já saiu no Japão o single com a nova música de Saint Seiya, elevando para talvez mais de trinta os álbuns já editados. Suspeito que é um recorde… alguém confirma?
A verdade é que a música de Seiya sempre foi de primeira qualidade, agradando a muitos, desagradando a poucos, e sempre com um ritmo espectacular e apropriado à cena em questão. Talvez não conheçam pelos nomes, mas os fãs certamente reconhecerão as trombetas iniciais de «Launch RyuSeiKen», a harpa de «Andromeda Shun, That Fight» ou a bateria de «Pegasus Fantasy!», temas já clássicos; infelizmente o novo tema do genérico não é no estilo vibrante dos genéricos anteriores… que saudades do «Soldier Dream»! Até agora não posso deixar de salientar, no entanto, a música que se ouve na épica OVA 6 enquanto o Cavaleiro da Balança põe a sua armadura e parte para a batalha… digna de uma Guerra Sagrada. Uma curiosidade: há anos foi lançado um CD chamado «King of the Underworld» em cuja capa surgem os heróis trajando as novas armaduras desta Saga (a capa é a primeira imagem do lado esquerdo, em cima)… sem dúvida uma evidência de quão perto se esteve de fazer uma série sobre a Saga de Hades em anime.
Aparentemente algumas das músicas daí estão nas OVAs, embora não conheça bem o CD, por isso não o posso confirmar. Conheço, isso sim, a música que seria o genérico de Hades caso tivesse sido feito na altura: o fenomenal «Dead or Dead»… garanto, é uma pena que não esteja incluida nestas OVAs.
No final de tudo isto, o que resta dizer de «Hades, Chapter: Sanctuary»? Sobretudo que valeu a pena esperar. Para quem desejou que a história de Seiya ficasse verdadeiramente completa (e há já quem mencione uma velha ideia de Kurumada, a Saga de Zeus…), para quem olhou os mangas várias vezes e imaginou como seriam as respectivas cenas, as armaduras, os ataques (a Cólera dos Cem Dragões é exactamente como imaginei…) em anime… é sem dúvida um sonho tornado realidade. Se há alguém a quem eu definitivamente desaconselho Hades é para o fã de shounen que ainda não viu as Sagas anteriores. É bem possível que passe também a ser fã de Seiya, e nesse caso não desfrutará convenientemente dos eventos surpreendentes e dos golpes teatrais nelas contidos.
E para o fã de anime que acha Saint Seiya medíocre, que pensa que o próprio Seiya é um totó, que não aprecia género shounen do melhor… é bem possível que Hades o faça mudar de ideias. Afinal, mais que um anime, é a saga da perseverança de uma comunidade de entusiastas e de como, pelo menos uma vez, a gigante TOEI lá deu o braço a torcer aos fãs de fora do Japão… ou quase.
Notem que me esforcei por reduzir ao máximo o número de “spoilers” neste texto para não estragar a Saga aqueles que não conhecem (!) Saint Seiya. Se por ventura escapou algum, as minhas desculpas. Até ao capítulo seguinte… no INFERNO!
Autor:GoldPhoenix
