Foi na geração de 60 que vários autores de manga impulsionaram e difundiram o género shoujo (histórias dedicadas a um público feminino) com a inclusão de elementos mais sofisticados e temáticas actuais e variadadas que claramente se diferenciavam do popular shounen (histórias dedicadas a um público masculino) que Contamos con pocos datos biográficos respecto a esta autora.
A esta geração pertenceu Sumika Yamamoto e que mais tarde, por volta dos anos 80 desaparece do universo manga para se dedicar à espiritualidade.
Sumika Yamamoto, nasceu a 17 Junho de 1949 na província de Yamanashi-ken e é conhecida principalmente pela sua obra “Ace o Nerae!”, publicada pela primeira vez na revista semanal Marget, em 1973. Este manga shojo com a temática desportiva (ténis), como muitos outros mangas que foram criados nessa década de 60, causado pela vitória da selecção feminina japonesa de volleyball nos Jogos Olímpicos de 1964.
Também a luta pela igualdade de direitos tinha começado de raíz na democratização do Japão antes da II Guerra Mundial mas que adençou-se ainda mais com o grande triunfo de nível internacional, e que tornou ainda mais popular quando as mulheres de todas as idades começaram a praticar desporto e obtendo níveis inexperados. Por isso, não é de admirar que o género shoujo trate com bastante frequencia a temática do desporto.
Desde os primeiros trabalhos de Sumika Yamamoto sentimos que o seu traço e ambientes visuais têm algumas influências de outros manga-ka (desenhadores de manga). No trabalho de Yamamoto nota-se claramente as influências de Osamu Tezuka (nas cenas representativas de acção) e de Ryoko Ikeda (com a visualização das emoções através de metáforas gráficas). Também ao nível argumental é possível notarmos algumas influências de duas escritoras, Moto Hagio e Chikako Urano, ou mesmo do cinema com Akira Kurosawa.
Sumika Yamamoto é uma autora de grande sensibilidade e de extrema elegância artística. Os seus desenhos combinam uma grande beleza estética com um extraordinário sentido de movimento. Domina a arte da narrativa visual, valendo-se para isso de vários recurso cinematográficos, e também mostra ser uma grande conhecedora dos sentimientos femininos.
A grande carga emocional de “Ace o Nerae!” é-nos mostrada na caracterização dos personagens, desenhados quase sempre em grande ou primeiro plano misturados com um fundo que tenha uma supla função: a de complemento espacial, para que o leitor se situe e na qual a autora abandona o detalhismo que usa nos personagens, e o da representação simbólica e reforço da trama num sentido metafórico (chamas, raios, flores, rostos de outros personagens).
Outra das caracteristicas de Yamamoto é a grande variedade de desenhos que ela oferece-nos nas variadas páginas: a procura de efeitos tridimensionais, as ilustrações em página dupla ou mesmo a disposição clássica das vinhetas são alguns desses exemplos. Também o detalhe dos desenhos de Yamamoto é bastante mais sóbrio do que de alguns dos mangakas do seu tempo, assim como as páginas estão menos carregadas de informação o que faz com que a narrativa seja mais agradável de ler.
Ao contrário do que fazem muitas das actuais autoras do estilo shoujo, Yamamoto e algumas mangakas dos 60´s e 70´s demonstraram-nos que para fazer-se uma boa história shoujo é preciso manter o controlo da obra não só ao nivel gráfico como argumental. Muitas das autoras dos nossos dias esqueceram-se que o que o público feminino gosta mais são as cenas da vida quotidiana, onde se destacam os sentimentos e carácter psicológico dos personagens.
Por isso, não é preciso criar argumentos excessivamente complexos (RG Veda), nem centrar-se muito em romances de “faca e alguidar” (Marmalade Boy), para criar-se um shoujo original e que esteja à altura dos clássicos.
Assim, as novas autoras só teriam que fazer um bocado de introspecção pessoal para encontrar a sua sensibilidade feminina e aplicá-la nas histórias que desejam contar em vez de usarem personagens femininas que acentam mais sobre as bases do shounen (manga dirigida a um público masculino).
Nós sabemos e não esquecemos que a mulher mudou muito nestes trinta anos, mas os seus gostos e preferências continuam a ser os mesmos.
Autor:Fernando Ferreira
