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Gunnm (Edição Brasileira)

O mercado de banda-desenhada português sempre deveu muito da sua vitalidade às exportações das editoras brasileiras para o nosso país. Basta relembrar que, nas décadas de 80 e 90, a quase totalidade de títulos norte-americanos dos gigantes Marvel e DC Comics que chegavam às bancas portuguesas eram edições da Abril-Jovem importadas directamente do país do Carnaval. Traduzidas para o português adocicado tão característico do Brasil, estas edições constituíam a única alternativa que qualquer fã de banda-desenhada tinha às apostas excessivamente centradas na BD franco-belga das editoras lusitanas, e foi através da compra regular destes “gibis” que a maioria dos jovens portugueses tomaram conhecimento com clássicos como o Homem-Aranha ou o Batman. É verdade, a impressão nem sempre foi a melhor, o papel também não era famoso e a leitura do texto deixou muitos jovens a escreverem “ação” em vez de “acção”, mas o certo é que hoje, sem tudo isto, não só o mercado de BD português seria radicalmente diferente, como provavelmente não poderíamos desfrutar das edições soberbamente traduzidas e imprimidas dessas mesmas obras que a Devir e outras editoras actualmente colocam nas lojas… no nosso português de Portugal.

Dito isto, são por demais conhecidas as poucas edições de manga em Portugal e, portanto, não é totalmente de estranhar que, talvez como resposta à quase total inércia do mercado português no que toca à banda-desenhada japonesa, vejamos agora algumas editoras brasileiras a mostrarem um certo interesse em exportarem os seus títulos directamente para cá. Assim, após uma primeira tentativa falhada pela parte da Mythos Editora de publicar e exportar a série de heroic-fantasy “Guerreiros Errantes” (que, para variar, foi malograda devido a problemas internos relacionados com a aquisição dos direitos da obra e não a uma “rejeição” pela parte do leitorado português…), eis que a Ópera Graphica, uma editora de comics com sede em São Paulo, desembarca nalgumas lojas de Portugal o seu primeiro volume traduzido de “Gunnm”, a mais célebre obra de ficção científica assinada por Yukito Kishiro, estranhamente rebaptizada aqui para “Gunm – Alita Battle Angel”.

“Gunnm”, abreviatura de “Gun Dream”, foi publicado pela primeira vez no Japão em Novembro de 1990 na Business Jump, uma das várias revistas de manga da editora Shueisha, tendo a edição da obra durado cinco anos. Escrito e desenhado por um (então) jovem mangaka de nome Yukito Kishiro, o manga em questão conta a história de Gally, uma ciborgue abandonada que é recolhida pelo cientista Daisuke Ido num passeio deste por um dos vários depósitos de sucata de Scrap Metal City, uma cidade subterrânea destinada às camadas sociais mais pobres e marginalizadas. Ido decide reparar a pequena ciborgue, que revela desconhecer qualquer traço do seu próprio passado, inclusivamente o seu próprio nome. Daisuke então baptiza-a de Gally baseando-se no nome do seu antigo gato, e como que a “adopta” como a filha que nunca teve. No entanto, não demora muito para que Gally comece a adquirir consciência própria e a querer retribuir o seu favor a Ido, e quando a jovem ciborgue descobre que o seu salvador tem como hobby a profissão ocasional de caça-recompensas, sente uma enorme atracção, para não dizer uma certa “reminiscência”, por essa função. Aliás, o mundo em Scrap-Metal é bastante propício a esta actividade, já que não existe nenhuma força policial e criminosos perigosos abundam… consequência directa de Scrap-Metal ser um “caixote do lixo” da cidade de Zalem, casa das classes superiores/enriquecidas. Ido começa por não reagir bem ao desejo de Gally se tornar numa guerreira, estando completamente obcecado que esta mantenha a sua “pureza” quase infantil… mas não demorará a perceber que há algo no passado de Gally que a empurra quase instintivamente para o combate. O primeiro volume de “Gunnm” descreve a iniciação de Gally neste mundo, bem como o encontro desta com o seu primeiro grande rival, o sádico devorador de cérebros Makaku.

A obra em si revela um enorme dinamismo narrativo, bem como um universo detalhadamente desenhado. Não é difícil perceber como este manga adquiriu o estatuto de série de culto um pouco por todo o lado onde foi editado, já que Kishiro consegue simultaneamente criar personagens interessantes e enquadrá-las num mundo pós-apocaliptico onde são brutalmente postas à prova e onde devem confrontar os seus pesadelos interiores. A busca de Gally pela sua própria identidade, a exposição de um mundo onde o cibernético e o humano se misturam com uma facilidade assustadora, e a arte cativante de Kishiro são outros dos atractivos deste manga. De um ponto de vista gráfico-conceptual, as (assumidas) referências cinematográficas são imensas, tendo o clássico “Metropolis” de Fritz Lang ajudado a delinear a divisão de classes em sectores (um pouco como um outro “Metropolis”, só que de Osamu Tezuka…) e “Mad Max” de George Miller servido de inspiração para o mundo fora-da-lei de Scrap-Metal City.

A presente edição foi realizada a partir das graphic-novels norte-americanas editadas pela Viz Comics, o que quer dizer que, para além do sentido da leitura estar “ocidentalizado” (ou seja, da esquerda para a direita), as alterações feitas pelos tradutores americanos aos nomes de algumas personagens e de certos locais mantêm-se na sua versão brasileira – assim, “Gally” é rebaptizada de “Alita”, “Scrap-Metal City” passa a “Scrap Yard” e a cidade de “Zalem” muda de nome para “Tiphares”. Os mais puristas não vão gostar destes pormenores, mas os restantes não deverão ter quaisquer problemas com a leitura. O que não deverá agradar a ninguém é o nível pobre da impressão (logo nas primeiras páginas, é quase impossível ler o letreiro da oficina de Daisuke Ido!) e a péssima qualidade do papel, decerto mais barato do ponto de vista da produção e do custo final para o consumidor, mas certamente menos confortável para o leitor – o seu manuseamento acaba por nos deixar com os polegares ligeiramente manchados, o que não é propriamente a experiência de leitura mais agradável do mundo… mas também, pelo módico preço de R$6.50 (cerca de 2 euros), não há muito por onde nos queixarmos…

Saliente-se pelo lado positivo que o primeiro volume vem artilhado com mais de 10 páginas de notas sobre a série em questão, mas embora alguma informação contida no texto seja realmente interessante (como o levantamento de algumas inspirações cinematográficas pela parte de Kishiro que foram pertinentes na génese do manga), é só pena constatar que grande parte do que está escrito não passe de (vários!) resumos da história que o próprio tomo conta! Uma oportunidade (para já) parcialmente desperdiçada que pode vir a ser corrigida nos próximos volumes, já que a quantidade de informação interessante que rodeia o universo de Gunnm dificilmente se esgotaria num só conjunto de textos!

No fim do dia, embora esta edição não seja tão boa quanto, por exemplo, os tomos franceses propostos pela Glénat (sobretudo as recentes reedições em grande formato), não deixa de ser de aplaudir que finalmente este clássico do manga de ficção cientifica chegue a solo português – mesmo que sem garantias de continuidade, em pontos de vendas limitados (até à data, só o avistei numa FNAC e na BD-Mania…) e sem estar na nossa variante da língua de Camões. O que é realmente de lamentar é que não tenha cá chegado pela mão de nenhuma das editoras portuguesas que, um pouco à semelhança do que acontecia com os comics nos anos 80/90, continuam a ignorar quaisquer possibilidades de editar manga e permanecem maioritariamente focadas em continuar a apostar na BD europeia/franco-belga e, muito ironicamente, nos mesmos comics americanos que até há bem pouco tempo também não eram publicados pelas mais curiosas razões… O mesmo é dizer: só é pena que, mais uma vez, uma editora estrangeira tenha de vir satisfazer os fãs portugueses que gostariam de ler as suas bandas-desenhadas favoritas na sua língua natal para compensar a inactividade (atitude conservadora?) das editoras nacionais…

E se a história, por vezes, tem tendência a se repetir, torna-se pertinente colocar a seguinte questão: será que esta aposta da Ópera Graphica poderá representar os primeiros ventos de mudança no sector editorial lusitano no que diz respeito à publicação de manga em português? Esperemos que sim…


Autor:Ricardo Gonçalves

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