Um dos êxitos mais marcantes dos últimos anos junto dos leitores japoneses – mas tendo passado muito desapercebido junto do público ocidental – foi Hoshin Engi, de Ryu Fujisaki.

Com um total de 23 volumes, Hoshin Engi é uma manga baseada num romance medieval chinês com o mesmo nome. Esse romance faz parte de um conjunto de narrativas fantásticas chinesas escritas entre os séculos XIII e XVI, entre as quais também se pode encontrar a famosa “Viagem para o Ocidente” – o romance que, supostamente, inspirou (vagamente) a parte inicial da série Dragon Ball, e que nos trouxe o personagem de Son Goku.
Nesta obra, o nome do herói é Taikoubou (Taigong Wang na pronúncia chinesa e na versão francesa da manga), um imortal seguidor dos ensinamentos taoístas, e discípulo de um dos regentes celestes. Taikoubou e os imortais vivem no céu, ao passo que na Terra, o império do meio (a China) do século XI A.C. é governado pelo rei Chuu (Zhou). Porém, uma crise surge no império quando o rei Chuu é seduzido por Dakki (Daji), um cruel demónio-raposa disfarçado de bela e sensual mulher. Sobre a influência de Dakki, o povo da Terra é obrigado a passar por sofrimentos atrozes para satisfazer os caprichos da pérfida criatura.

Para repôr a justiça das coisas, os imortais decidem tomar acções drásticas, e atribuem a Taikoubou uma missão na Terra: capturar e colocar numa prisão celestial 365 pessoas relacionadas com Dakki (entre as quais ela própria), recuperando assim a paz. E é assim que Taikoubou, na sua montada mágica, o fiel Suupuusyan (Sibuxiang), parte para o reino da Terra com a sua enorme lista para executar a sua missão: o projecto Hoshin.
Tal como Dragon Ball, também Hoshin Engi nos traz personagens fantásticos, com poderes sobrenaturais, entidades divinas e lutas frenéticas que fazem tremer a própria paisagem. Seria, então de esperar, que tanto o público alvo como os fãs fossem mais ou menos coincidentes com os da obra de Akira Toriyama. Mas, surpreendentemente, isso não se verifica – numa sondagem, constatou-se que a maior dos fãs de Hoshin Engi são do sexo feminino! Como se pode explicar isso numa série marcadamente “shounen”?
Ryu Fujisaki consegue marcar a diferença (pela positiva) em relação a outras obras tematicamente semelhantes, através da aposta nítida na caracterização dos personagens – até mesmo os mais secundários têm as suas personalidades extremamente bem marcadas, e as suas histórias e motivações bem definidas. Por outro lado, não será estranho ao fenómeno de popularidade anteriormente descrito o facto de grande parte dos personagens masculinos serem verdadeiros bishonens – nada parecidos com os montes de testosterona em estado puro que tivemos a oportunidade de admirar em Dragon Ball. O herói Taikoubou é ainda mais carismatico do que Son Goku na sua epopeia de angariação de aliados para derrotar Dakki – e 20 vezes mais inteligente, astuto e bonito do que aquele.

Hoshin Engi é mais um manga “shounen” que vale a pena – não propriamente pela originalidade, mas sim pela excelência da execução, tanto a nível de encadeamento da história como de profundidade nos personagens.
Um “must” para qualquer fã de “shounen”, e com a divulgação certa, susceptível de capturar muitos mais fãs do que qualquer Dragon Ball.
Autor: Myke Greywolf

