Fugindo aos canones e estériotipos dos milhares de mangas publicados diariamente no Japão, encontramos alguns títulos que nos passam despercebidos não querendo com isso dizer que não têm qualidade suficiente para fazerem parte da nossa colecção de livros. Recorrendo a uma estética mais europeia e alternativa, Ken Takahama oferece-nos uma visão dura mas graciosa do Japão actual. A obra é-nos dada em discurso directo e de forma bastante inteligente.
Ken Takahama nasce no ano de 1977, em Amakusa no sul do Japão. Estudou arte contemporânea e iniciou-se no mundo manga no final do ano 2000, num concurso organizado pela famosa revista Garo (banda desenhada alternativa) onde ganhou o primeiro prémio com a sua história “Mulheres que caem”. Nos anos seguintes várias histórias são publicadas na referida revista e que pouco tempo mais tarde deu origem a um livro chamado “Yellowbacks”.
Excéntrica como todos os bons artistas, conseguiu com que o seu título, “Yellowbacks”, fosse o primeiro “comic” a entrar no circuito de distribuição em livrarias especializadas japonesas, convertendo-se assim num dos expoentes máximos da nova geração de mangakas que usam o computador na arte final. Além disso, Takahama é, antes de mais uma artista completa e consciente que o seu público transcende o “otakismo” segundo o conhecemos. Provavelmente deve ser a mangaka mais talentosa surgida recentemente no Japão.
“Monokuro Kinderbook”, que podemos traduzir para português como “Livro Infantil Monocromático” é talvez o trabalho mais conhecido da autora e mostra-nos uma compilação de dez histórias curtas e desenhadas. As histórias falam dos assuntos mais diversos (relações entre adolescentes, conversas em bares um pouco mais adultas, suicidios, etc… ), mas sempre numa perspectiva adulta e um pensamento totalmente aberto, sem problemas nem prejuízos. Como foi referido a narrativa é curta, mas a qualidade do guião é muito bem trabalhado assim como o desenho tem um estilo próprio e diferente do que estamos habituados a ler e a ver. Entre as histórias, a autora intercala textos no mais puro estilo “free talk” dos shoujos.
Á primera vista pode parecer um manga de díficil leitura. O estilo de desenho está muito mais próximo do “comic” europeu do que o manga (grande quantidade de vinhetas, a disposição das mesmas, falta de onomatopeias…), mas o resultado é bastante positivo e realmente apetecível. O tipo de desenho, mais próximo do sonho do que da realidade, confere às histórias uma visão completamente diferente do mundo. Outra caracteristica interessante destas histórias são as margens negras que dão ao leitor uma sensação diferente de leitura.
>Mas é na parte gráfica que temos a maior supresa da obra. Para começar não ouve a preocupação de fazer um traço limpo, mas sim conservar a expresividade e a força do traço, como se fosse um exercício de “desenho automático”. Mesmo assim, cada traço está estrategicamente colocado, como é norma habitual no manga, para exprimir o máximo de informação possível com o menor número de linhas. Um exemplo claro desta “improvisação” é o uso pontual do retoque fotográfico (dado pelos filtros de Photoshop), provocando um novo contraste e dar uma sensação cinematográfica que reina na obra. O uso acertado dos continuos primeiros plano junta expressividade e tensão ao conjunto. Esta “técnica” é utilizada quase em todos os seus trabalhos.
Outro dos aspectos que facilmente podemos descobrir neste manga é a quantidade de contrastes, desenho básico com ilustração digital (Photoshop), fantasia e realidade, temas imortais e assuntos com alguma actualidade (como a política Bush ou o 11 de Setembro). Por isso, as histórias estão cheias de uma carga simbólica não só nas situações como nos personagens, pois são eles que sofrem e decidem o que fazer.
Facilmente nos identificamos com os personagens, ou os amamos ou os odiamos… e é aqui que está o segredo desta obra, ao longo das dez histórias, sentimos a necessidade de saber o que se passa com os protagonistas como se nós também fizessemos parte daquele cenário. Daí que o manga ganha com cada leitura que fazemos porque conforme vamos avançando na obra ou repetimos a leitura melhor vamos entendendo os personagens.
Editado pela Ponent Mon (editora espanhola que aposta em títulos experimentais e “estranhos” para os olhos dos otaku espanhois), Monokuro Kinderbook é uma boa edição e de grande qualidade, onde se destaca sobretudo a excelente qualidade visual e uma expressividade impressionante.
Pouco mais falta acrescentar a este artigo. Este manga é daqueles que se pode recomendar a um público concreto, mas sem dúvida que todos deverão lê-lo para conhecerem outras variantes da banda desenhada japonesa.
Escrito por: Fernando Ferreira
