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Star Wars – A New Hope

É um conceito predominante na cultura popular que as adaptações cinematográficas em banda desenhada, regra geral, não prestam. Na transição entre suportes do celulóide para o papel, quase sempre se perde uma parte essencial da vitalidade e da originalidade da visão que o artista inicial concebeu. Geralmente vistas como obras menores no panorama da 9ª arte, é certo que as adaptações constituem apenas mais uma forma de extrair dinheiro dos bolsos de todos quantos viram a obra original no cinema. Porém, quando estão no lugar os factores certos, uma adaptação pode subir acima da mediocridade normalmente associada à sua categoria e ganhar uma vida própria pela influência de quem a projecta no papel. É certo que é difícil surgir essa combinação de factores – digamos, um filme lendário como “Star Wars: A New Hope” e um bom artista de manga. Mas o certo é que, como resultado de uma aberração estatística (ou simplesmente um laivo de visão por parte dos responsáveis), essa combinação acabou por acontecer, e o resultado é nada menos que admirável.

Foi dada ao artista Tamaki Hisao a tarefa pesada de transpor este ícone da cultura popular ocidental para o formato de manga. Pouco conhecido entre nós, Tamaki só tem nos seus créditos uma obra menor intitulada “Astrider Hugo”. Porém, o artista esteve bem à altura do desafio de transpôr a história de George Lucas para papel, superiorizando-se assim aos artistas que o precederam nesse papel. A obra foi rapidamente assimilada pelos editores ocidentais e tornou-se num best-seller dentro do estilo manga, tanto nos Estados Unidos como no Brasil, França, Espanha, Itália e Alemanha.

Há muito tempo, numa galáxia muito, muito distante, era uma época de guerra civil. Naves rebeldes, atacando a partir duma base secreta, conseguiram a sua primeira victória contra o IMPÉRIO GALÁCTICO. Durante a batalha, espiões rebeldes conseguiram roubar os planos secretos da ESTRELA DA MORTE, uma estação espacial couraçada com poder para destruir um planeta inteiro.
Perseguida por sinistros agentes imperiais, a Princesa Leia apressa-se a
voltar a casa na sua nave espacial, detentora dos planos roubados que poderão salvar o seu povo e restaurar a liberdade na galáxia…

Assim anunciava a sequência inicial do filme quando estreou em 1977, e assim começa a sua adaptação em formato desenhado. E ao longo das páginas dos 4 volumes da edição americana, é possível reparar na consistência da sua fidelidade: todas as situações existentes no filme são rigorosamente reproduzidas na BD, sendo os diálogos directamente extraídos do argumento original de George Lucas – afinal de contas, não havia sentido em traduzir para inglês uma tradução de inglês para japonês!

Um dos pontos em que esta adaptação se destaca é nos designs dos personagens. Apesar da estranheza de ver os personagens a que tanto estamos habituados a ver em carne e osso subitamente com os seus olhos ampliados e penteados exagerados, não se pode evitar pensar que as versões de Mark Hamill, Harrison Ford, Carrie Fisher e Alec Guiness criadas por Tamaki Hisao correspondem, de facto, a como estes personagens cinematográficos seriam se fossem personagens de manga. Parabéns então ao autor por, através destes designs, quase convencer o leitor de que estas são as versões originais dos personagens, tal a forma com que cada um deles se encaixa no carácter que lhe conhecemos: desde o sonhador e íntegro Luke Skywalker, passando pelo paciente Obi-Wan Kenobi e a determinada princesa Leia Organa, até ao egoísta Han Solo. Só é pena que não seja possível reproduzir graficamente a fabulosa voz de James Earl Jones como Darth Vader! Nas versões ocidentais desta adaptação, o design de Tamaki é reflectido nas capas dos volumes, competentemente executadas por aquele que é o mais famoso (e, segundo alguns, o melhor) representante do estilo japonês de banda desenhada no ocidente: o americano Adam Warren.

De página para página da obra, Tamaki Hisao conseguiu adaptar a acção do filme americano ao estilo japonês de narrativa, com uma dinâmica frenética e alucinante ajudada por linhas de velocidade e enormes onomatopeias, permitindo assim ao leitor manter a adrenalina inerente à obra original, mesmo face ao ritmo subjectivo da leitura. Neste aspecto, Tamaki mete a um canto a esmagadora maioria dos autores de comics norte-americanos, que parecem colocar a ênfase da representação das narrativas mais na pose do que na acção. A ajudar a isto tudo estão ainda as expressões caricaturais dos personagens e a utilização intensiva de todas as convenções perfeccionadas pelos japoneses ao longo de décadas de produção de manga: desde a famosa gota de suor até às inúmeras alterações na forma e tamanho dos olhos dos personagens.

Só é pena que a fantástica qualidade atingida por esta adaptação de “A New Hope” não tenha sido acompanhada por um padrão semelhante nas suas sequelas “The Empire Strikes Back” e “Return of the Jedi”, que ficaram a cargo de artistas diferentes e de qualidade inferior. Mesmo a adaptação manga de “The Phantom Menace”, efectuada pelo conceituado Asamiya Kia, deixa muito a desejar face à óbvia americanização do estilo deste artista japonês, retirando muita da dinâmica à narrativa. Mas no que diz respeito a “A New Hope”, dificilmente será possível realizar uma adaptação melhor deste filme em qualquer circunstância, que atinja ou ultrapasse a paixão, tensão e divertimento que Tamaki Hisao conseguiu transmitir. Na opinião deste crítico, a versão manga de “Star Wars: A New Hope” é o perfeito exemplo do que qualquer adaptação deveria aspirar a ser, e torna-se por isso obrigatória para fãs de “Star Wars”, e altamente recomendável a fãs de banda desenhada japonesa, particularmente aqueles que duvidam que uma história americana possa resultar num bom manga.

Autor:João Rocha

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