{"id":11274,"date":"2011-09-07T10:57:03","date_gmt":"2011-09-07T09:57:03","guid":{"rendered":"http:\/\/www.clubotaku.org\/niji\/?p=11274"},"modified":"2012-05-04T12:10:25","modified_gmt":"2012-05-04T11:10:25","slug":"kyoto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.clubotaku.org\/niji\/cultu\/kyoto\/","title":{"rendered":"Kyoto"},"content":{"rendered":"<div>Quando Kawabata foi eleito Pr\u00e9mio Nobel em 1968, \u201cKyoto\u201d foi um dos tr\u00eas romances especificamente mencionados pelo comit\u00e9 organizador do certame. Foi o \u00faltimo livro de Kawabata antes de falecer e \u00e9 uma obra emblem\u00e1tica, amplamente divulgada no mundo anglo-sax\u00f3nico como uma das primeiras a despertar interesse acad\u00e9mico pelos romances japoneses do p\u00f3s-guerra.<\/div>\n<div><a href=\"http:\/\/www.clubotaku.org\/niji\/cultu\/kyoto\/attachment\/1-289\/\" rel=\"attachment wp-att-11275\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-11275\" title=\"1\" src=\"http:\/\/www.clubotaku.org\/nijiwp\/wp-content\/uploads\/1278.jpg\" alt=\"\" width=\"640\" height=\"290\" srcset=\"https:\/\/www.clubotaku.org\/nijiwp\/wp-content\/uploads\/1278.jpg 640w, https:\/\/www.clubotaku.org\/nijiwp\/wp-content\/uploads\/1278-300x135.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><\/a><\/div>\n<div>\nDeixaria um apontamento inicial relativo ao t\u00edtulo do livro. O t\u00edtulo original \u00e9 koto (\u53e4\u90fd), que se poderia traduzir por \u201cantiga capital\u201d, no entanto, como este t\u00edtulo \u00e9 uma clara alus\u00e3o \u00e0 cidade de Kyoto (\u4eac\u90fd), muitas tradu\u00e7\u00f5es do livro decidiram optar por colocar o nome \u201cKyoto\u201d como t\u00edtulo. Foi o caso da D. Quixote em Portugal, numa reedi\u00e7\u00e3o do livro, uma vez que este j\u00e1 tinha sido publicado em 1969, possivelmente devido ao galard\u00e3o de Kawabata em 68. N\u00e3o temos refer\u00eancias da vers\u00e3o atrav\u00e9s da qual foi traduzido. A maioria das edi\u00e7\u00f5es inglesas podem ser encontradas com o t\u00edtulo \u201cThe Old Capital\u201d. A quest\u00e3o do t\u00edtulo \u00e9 uma pequena nuance, mas claro que h\u00e1 um jogo intencional de palavras que acaba por se perder.<\/div>\n<div>O resumo da narrativa \u00e9 breve.<\/p>\n<p>O romance desenvolve-se em torno de Chieko, de vinte anos, filha de Shige, um estilista de quimonos e obis que mant\u00e9m um pequeno neg\u00f3cio na parte tradicional de Kyoto. Durante muitos anos, Chieko suspeitou ser uma filha adoptiva e acaba por confirmar isso quando encontra Naeko a rezar no templo de Yasaka. Naeko revela parecen\u00e7as f\u00edsicas demasiado evidentes, levando Chieko a crer que esta habitante das florestas do norte em Kitayama pudesse ser uma poss\u00edvel irm\u00e3 biol\u00f3gica. Entretanto, Chieko teria pedido a Hideo, um tecedeiro, que lhe preparasse um obi espec\u00edfico, com motivos de vanguarda para os valores tradicionais japoneses, inspirado em Kandinsky e outros artistas europeus contempor\u00e2neos.<\/p><\/div>\n<div>\nOs aspectos principais a reter da ambi\u00eancia tradicional t\u00edpica dos livros de Kawabata t\u00eam a ver com um confronto de valores, do facto dos personagens se dedicarem a algo que apesar de nobre, parece come\u00e7ar a perder o seu sentido devido \u00e0s for\u00e7as sociais que se instalam e que s\u00e3o incontrol\u00e1veis, \u00e0s quais nos temos simplesmente que adaptar. Este sentimento ultrapassa a mera reflex\u00e3o do fabrico de quimonos no Jap\u00e3o contempor\u00e2neo porque os livros de Kawabata acabam por ter esta repercuss\u00e3o filos\u00f3fica que se apropria do campo gen\u00e9rico da exist\u00eancia. Quando a no\u00e7\u00e3o de vanguardismo e de exist\u00eancia antecipada ao seu tempo \u00e9 algo que se tornou compreens\u00e3o comum para qualquer pessoa que reflecte sobre a arte, a no\u00e7\u00e3o de resguardar a nobreza do passado arrisca-se a ter uma conota\u00e7\u00e3o retr\u00f3grada devido ao facto de se estabelecer por conven\u00e7\u00f5es demasiado cl\u00e1ssicas. Contudo, o que \u00e9 vis\u00edvel na perspectiva do autor \u00e9 que esse classicismo n\u00e3o tem que ser desadequado desde que seja aclamado por uma manifesta pureza. Chieko percorre o seu passado em retalhos de mem\u00f3rias e de suposi\u00e7\u00f5es com um forte sentido familiar quase ultrapassado, tentando contudo contrabalan\u00e7ar um sentimento adolescente de revolta com um forte sentido de responsabilidade de algu\u00e9m que sempre se dedicou \u00e0 nobreza da tecelagem. Mas os motivos de \u00e1rvores nos quimonos que antes simbolizavam a ess\u00eancia da natureza, hoje s\u00e3o temas repetitivos sem valor art\u00edstico.<\/div>\n<div>O livro deixa uma sensa\u00e7\u00e3o t\u00e9nue de valor nacionalista que se manifesta por uma clara insinua\u00e7\u00e3o de acultura\u00e7\u00e3o durante o per\u00edodo p\u00f3s-guerra, mas, para sermos honestos, que obra tipicamente japonesa n\u00e3o o faz? Contudo, estas ideias n\u00e3o s\u00e3o expl\u00edcitas e portanto estas quest\u00f5es est\u00e3o longe de serem panflet\u00e1rias, que \u00e9 o mais relevante para a considera\u00e7\u00e3o art\u00edstica.<\/div>\n<p>\u00c9 uma abordagem muito t\u00edpica de Kawabata mas muita da literatura emblem\u00e1tica japonesa se comp\u00f5e destes alicerces que s\u00e3o t\u00e3o diferentes dos paradigmas da nossa literatura. Os livros n\u00e3o s\u00e3o compostos por dramas complexos, nem por pensamentos extremamente intrincados nas suas abordagens intelectuais, na nossa concep\u00e7\u00e3o ocidental do termo. No entanto, um livro como este \u00e9 para ser lido para um estrangeiro como uma viagem solit\u00e1ria por um pa\u00eds com uma religi\u00e3o que n\u00e3o \u00e9 a nossa e que estamos longe de compreender, com rituais que nos s\u00e3o estranhos, com uma explica\u00e7\u00e3o espec\u00edfica sobre o fabrico de pe\u00e7as tradicionais de roupa de uma cultura que n\u00e3o \u00e9 a nossa. N\u00e3o \u00e9 uma viagem divertida porque \u00e9 uma viagem ao cora\u00e7\u00e3o dos habitantes de um s\u00edtio que mudou os seus prop\u00f3sitos do dia para a noite e que deixou um vazio muito grande por preencher, mas \u00e9 certamente uma viagem bastante pura \u00e0 ess\u00eancia da cultura japonesa.<\/p>\n<p>Autor: Sara. F. Costa<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quando Kawabata foi eleito Pr\u00e9mio Nobel em 1968, \u201cKyoto\u201d foi um dos tr\u00eas romances especificamente mencionados pelo comit\u00e9 organizador do certame. 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