{"id":11338,"date":"2011-09-27T14:54:28","date_gmt":"2011-09-27T13:54:28","guid":{"rendered":"http:\/\/www.clubotaku.org\/niji\/?p=11338"},"modified":"2017-09-14T20:17:16","modified_gmt":"2017-09-14T21:17:16","slug":"okuribito","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.clubotaku.org\/niji\/cinem\/okuribito\/","title":{"rendered":"Okuribito"},"content":{"rendered":"<p>\u201cDaigo Kobayashi\u201d (Masahiro Motoki) \u00e9 um violoncelista profissional, que toca numa orquestra de T\u00f3quio. As audi\u00eancias das actua\u00e7\u00f5es s\u00e3o cada vez menores, e chega o dia em que o grupo de m\u00fasicos \u00e9 desmantelado. Desempregado e com um violoncelo de 180 milh\u00f5es de ienes para pagar (cerca de 136.000 euros!!!), \u201cDaigo\u201d v\u00ea-se obrigado a devolver o instrumento que era um sonho de uma vida. Sem objectivo imediato na capital, decide partir acompanhado pela sua mulher \u201cMika\u201d (Ryoko Hirosue) para Sakata, Yamagata, a terra onde nasceu.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.clubotaku.org\/niji\/cinem\/okuribito\/attachment\/1-292\/\" rel=\"attachment wp-att-11339\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-11339\" title=\"1\" src=\"http:\/\/www.clubotaku.org\/nijiwp\/wp-content\/uploads\/110.png\" alt=\"\" width=\"640\" height=\"290\" srcset=\"https:\/\/www.clubotaku.org\/nijiwp\/wp-content\/uploads\/110.png 640w, https:\/\/www.clubotaku.org\/nijiwp\/wp-content\/uploads\/110-300x135.png 300w\" sizes=\"(max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Ao consultar os classificados de um di\u00e1rio, \u201cDaigo\u201d fica animado com o an\u00fancio de um emprego que parece promissor. Trata-se de uma estabelecimento que lida com \u201cpartidas\u201d, e \u201cDaigo\u201d fica firmemente convencido que se trata de uma ag\u00eancia de viagens. Cedo, o protagonista tem uma desagrad\u00e1vel surpresa, pois o que est\u00e1 em causa \u00e9 a despedida do mundo. O objecto da firma em quest\u00e3o, a \u201cNK Agent\u201d, consiste em proceder a uma cerim\u00f3nia em frente dos membros da fam\u00edlia do falecido, que passa por embelezar e tornar apresent\u00e1vel o cad\u00e1ver, antes de o mesmo ser depositado no caix\u00e3o.<\/p>\n<p>Apesar dos obst\u00e1culos e problemas iniciais, \u201cDaigo\u201d sob a orienta\u00e7\u00e3o do seu patr\u00e3o \u201cIkuei Sasaki\u201d (Tsutomu Yamazaki), acaba por apreciar o seu trabalho, auferindo uma excelente remunera\u00e7\u00e3o. Contudo, nem tudo s\u00e3o rosas, e atendendo a que socialmente a sua profiss\u00e3o \u00e9 considerada desonrosa, \u201cDaigo\u201d nada conta \u00e0 esposa. No entanto, \u00e9 imposs\u00edvel esconder tal facto para sempre&#8230;<\/p>\n<p>Na edi\u00e7\u00e3o dos Oscares de 2008, o favorito para ganhar na categoria \u201cmelhor filme estrangeiro\u201d era sem d\u00favida \u201cWaltz With Bashir\u201d, o candidato de Israel. Para al\u00e9m do \u201cfrisson\u201d todo gerado \u00e0 volta desta pel\u00edcula, havia o quase determinante facto de a mesma ter sido a vencedora na categoria de melhor filme estrangeiro, nos \u201cGlobos de Ouro\u201d, considerados com propriedade a antec\u00e2mara dos Oscares. Foi pois, com alguma surpresa, que o vencedor do galard\u00e3o da academia seria \u201cOkuribito\u201d, uma longa-metragem japonesa que nem sequer tinha defrontado o filme israelita na \u201cpool\u201d derradeira dos \u201cGlobos\u201d. A vit\u00f3ria de \u201cOkuribito\u201d constituiu um grande feito para o cinema nip\u00f3nico, pois foi o primeiro filme japon\u00eas a vencer esta importante distin\u00e7\u00e3o. \u00c9 certo que em 1955, \u201cSamurai I: Musashi Miyamoto\u201d, de Hiroshi Inagaki, tinha obtido um pr\u00e9mio honor\u00e1rio da academia que visava honrar a melhor pel\u00edcula estrangeira. Mas o que \u00e9 certo \u00e9 que a categoria s\u00f3 viria a ser oficialmente reconhecida no ano seguinte. Quanto \u00e0 surpresa pelo facto de \u201cOkuribito\u201d ter ganho o galard\u00e3o referenciado, esta sensa\u00e7\u00e3o s\u00f3 ocorrer\u00e1 para quem ainda n\u00e3o visionou o filme.<\/p>\n<p>Remotamente baseado na obra \u201cCoffinman: The Journal of a Buddhist Mortician\u201d, \u201cOkuribito\u201d demorou, imagine-se, dez anos a ser filmado! Durante todo este tempo, o actor Masahiro Motoki estudou os rituais de prepara\u00e7\u00e3o do cad\u00e1ver tendo em vista a sua inuma\u00e7\u00e3o, assim como aprendeu a tocar o violoncelo de uma forma bastante competente. Por sua vez, o realizador Yojir\u00f4 Takita, assistiu a v\u00e1rias cerim\u00f3nias f\u00fanebres, de forma a tentar perceber melhor a consterna\u00e7\u00e3o das fam\u00edlias dos falecidos. Pelo facto dos aspectos relacionados com a morte e os funerais serem uma esp\u00e9cie de tabu no Jap\u00e3o, Takita confessou que ficou um pouco reticente quanto \u00e0 receptividade do filme perante o p\u00fablico. Embrenhando-me um pouco mais numa das tem\u00e1ticas principais desta obra, todos n\u00f3s temos um pouco a no\u00e7\u00e3o que o pa\u00eds do sol nascente \u00e9 uma terra de rituais. \u201cOkuribito\u201d foca-se num dos seus costumes mais fascinantes, a arte do Nokanshi, um profissional cuja fun\u00e7\u00e3o \u00e9, como j\u00e1 acima induzi, preparar o corpo antes de ser colocado dentro do caix\u00e3o. \u00c9 deveras fascinante observar os nossos Nokanshi, \u201cDaigo\u201d e o mestre \u201cSasaki\u201d, a exercerem o seu of\u00edcio. Uma tarefa que n\u00e3o tem nada de simples, \u00e9 exercida com um cuidado e uma eleva\u00e7\u00e3o espantosa. Podemos observar os homens com uma indel\u00e9vel delicadeza, a limpar e a vestir o corpo dos falecidos. Trata-se de uma esp\u00e9cie de cerim\u00f3nia refinada, praticada com movimentos elegantes, que verdadeiramente transmitem compaix\u00e3o e um enorme respeito pelo ser humano e a sua mem\u00f3ria. Com a sua arte muito pr\u00f3pria, sentimos que o Nokanshi consegue dar um semblante de vida ao falecido e uma alegria aos seus seres amados.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.clubotaku.org\/niji\/cinem\/okuribito\/attachment\/2-262\/\" rel=\"attachment wp-att-11340\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-11340\" title=\"2\" src=\"http:\/\/www.clubotaku.org\/nijiwp\/wp-content\/uploads\/211.png\" alt=\"\" width=\"640\" height=\"290\" srcset=\"https:\/\/www.clubotaku.org\/nijiwp\/wp-content\/uploads\/211.png 640w, https:\/\/www.clubotaku.org\/nijiwp\/wp-content\/uploads\/211-300x135.png 300w\" sizes=\"(max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Sendo um misto extremamente bem equilibrado de muito drama e alguma com\u00e9dia, \u201cOkuribito\u201d \u00e9 uma pel\u00edcula quase infinitamente enternecedora, que merece algumas l\u00e1grimas derramadas (algumas foram-me confessadas) durante o seu visionamento. Est\u00e1 longe de ser uma obra \u201clamechas\u201d ou de sentimento artificial. Constitui, isso sim, um desfilar de sentimentos t\u00e3o d\u00edspares, mas ao mesmo tempo muito caros e pr\u00f3ximos de qualquer ser humano que se preze como tal. Neste particular, e acreditem que para quem me conhece \u00e9 um grande elogio, apenas \u201cCinema Para\u00edso\u201d e mais meia-d\u00fazia de pel\u00edculas me fizeram sentir assim. Ningu\u00e9m consegue ficar indiferente \u00e0 forma como o realizador Yojir\u00f4 Takita, exp\u00f5e brilhantemente o drama pessoal de \u201cDaigo\u201d no exerc\u00edcio de uma profiss\u00e3o supostamente desonrada, ou a dor progressiva e atroz, at\u00e9 \u00e0 rendi\u00e7\u00e3o total, que os familiares sentem \u00e0 medida que os seus entes queridos s\u00e3o preparados para a derradeira viagem. E o culminar de tudo chega com o significativo ep\u00edlogo, em que nos curvamos totalmente qu\u00e3o muro j\u00e1 carcomido que \u00e9 finalmente derrubado. Parafraseando uma pessoa com a qual troquei impress\u00f5es acerca do filme, \u201c\u00e9 um filme que fala sobre a morte, mas que diz muito sobre a vida.\u201d (Rodrigo C. Palma dixit).<\/p>\n<p>Os restantes aspectos art\u00edsticos de \u201cOkuribito\u201d s\u00e3o, \u00e0 falta de melhor express\u00e3o, um sonho. A banda-sonora \u00e9 de uma qualidade extrema, a que n\u00e3o ser\u00e1 alheio o facto de ter sido um trabalho com a marca de Joe Hisaishi. O compositor tem um curr\u00edculo enorm\u00edssimo, tendo arquitectado o som que ouvimos em v\u00e1rios filmes desde os anime de Miyazaki, passando pelas pel\u00edculas de Kitano, entre muitas mais, num conjunto de cerca de setenta registos. No caso particular de \u201cOkuribito\u201d, Isaishi aplicou-se ao m\u00e1ximo e destaca-se no seu trabalho, o som do violoncelo que penetra no \u00e2mago das nossas pessoas, exteriorizando exemplarmente a aura desta longa-metragem. \u00c0 medida que escrevo este texto, vou ouvindo-a, enterne\u00e7o-me ainda mais, o que me faz perder um pouco alguma objectividade que \u00e9 necess\u00e1ria quando opinamos acerca de um filme. Por sua vez, a fotografia \u00e9 bel\u00edssima, onde predominam as paisagens invernosas, num misto de cinzento e branco, que anuncia um pouco a trag\u00e9dia, o saudosismo e a tristeza.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.clubotaku.org\/niji\/cinem\/okuribito\/attachment\/3-231\/\" rel=\"attachment wp-att-11341\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-11341\" title=\"3\" src=\"http:\/\/www.clubotaku.org\/nijiwp\/wp-content\/uploads\/37.png\" alt=\"\" width=\"640\" height=\"290\" srcset=\"https:\/\/www.clubotaku.org\/nijiwp\/wp-content\/uploads\/37.png 640w, https:\/\/www.clubotaku.org\/nijiwp\/wp-content\/uploads\/37-300x135.png 300w\" sizes=\"(max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Os actores destilam sobriedade, compet\u00eancia e acima de tudo s\u00e3o aut\u00eanticos. J\u00e1 tinha aludido ao esfor\u00e7o enorme que o actor Masahiro Motoki dispendeu na prepara\u00e7\u00e3o para a sua personagem. Imagino que n\u00e3o ser\u00e1 nada f\u00e1cil embrenhar-se no mundo dos Nokanshi, ou a aprender a tocar um instrumento como o violoncelo. Para al\u00e9m destes aspectos, Motoki convence-nos da sua vergonha inicial pela profiss\u00e3o, da sua escondida dedica\u00e7\u00e3o pela esposa, mas acima de tudo pelo seu fenomenal desempenho nas cenas em que tem de exercer o seu of\u00edcio e na paix\u00e3o que come\u00e7a a ganhar pelo mesmo. A actriz Ryoko Hirosue \u00e9 um encanto, e possui um dos sorrisos mais queridos que j\u00e1 vi. A sua serenidade e acima de tudo a maneira como exterioriza o apoio e preocupa\u00e7\u00e3o pelo bem-estar do marido \u00e9 algo de bastante assinal\u00e1vel. Destacaria igualmente o veterano Tsutomu Yamazaki, no papel do mestre \u201cSasaki\u201d. O seu ar rezing\u00e3o, mas orgulhoso de \u201cDaigo\u201d, e as experi\u00eancias que vive com o jovem, provocam dos momentos mais c\u00f3micos e desafogados do filme, mas tamb\u00e9m dos mais introspectivos e com mais significado. Por vezes, assume o papel do conselheiro e, porque n\u00e3o diz\u00ea-lo, do pai que \u201cDaigo\u201d tanto recrimina, mas que lhe fez falta na vida , tratando-se de um aspecto que lhe revestiu a personalidade de algum ressentimento.<\/p>\n<p>Que dizer mais? Apenas que \u201cOkuribito\u201d, mais do que um marco, \u00e9 um grande triunfo do cinema japon\u00eas. Facilmente considero-o um dos melhores filmes que tive a felicidade de ver nos \u00faltimos anos. Posso dizer que raramente vejo uma pel\u00edcula at\u00e9 acabar o gen\u00e9rico. De atordoado, s\u00f3 despertei quando o leitor voltou ao menu inicial&#8230;<\/p>\n<p>Um pecado mortal se n\u00e3o o verem!<\/p>\n<p><strong>Autor: Jorge Soares<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cDaigo Kobayashi\u201d (Masahiro Motoki) \u00e9 um violoncelista profissional, que toca numa orquestra de T\u00f3quio. As audi\u00eancias das actua\u00e7\u00f5es s\u00e3o cada vez menores, e chega o dia em que o grupo&nbsp;[ &hellip; ]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":11340,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1283,12],"tags":[2630,2631,2629],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.clubotaku.org\/niji\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11338"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.clubotaku.org\/niji\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.clubotaku.org\/niji\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.clubotaku.org\/niji\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.clubotaku.org\/niji\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=11338"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.clubotaku.org\/niji\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11338\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":19668,"href":"https:\/\/www.clubotaku.org\/niji\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11338\/revisions\/19668"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.clubotaku.org\/niji\/wp-json\/wp\/v2\/media\/11340"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.clubotaku.org\/niji\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=11338"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.clubotaku.org\/niji\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=11338"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.clubotaku.org\/niji\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=11338"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}