{"id":11408,"date":"2011-10-14T12:33:27","date_gmt":"2011-10-14T11:33:27","guid":{"rendered":"http:\/\/www.clubotaku.org\/niji\/?p=11408"},"modified":"2011-10-14T12:33:28","modified_gmt":"2011-10-14T11:33:28","slug":"mw","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.clubotaku.org\/niji\/manga\/mw\/","title":{"rendered":"MW"},"content":{"rendered":"<p>Sendo este livro da segunda metade da d\u00e9cada de 1970, pertencer\u00e1 \u00e0quele grupo de livros de Tezuka a que se d\u00e1 o nome gen\u00e9rico de \u201cda maturidade\u201d, desejando assim apontar-se para uma diferencia\u00e7\u00e3o de grau das primeiras obras, grau relativo aos temas, em primeiro lugar, mas talvez tamb\u00e9m a algumas das estrat\u00e9gias visuais empregues, o modo como se desenvolvem as personagens, a complexidade da trama. Se for essa a perspectiva para com a maturidade, ent\u00e3o, sim, MW inscrever-se-\u00e1 nesse grupo, sem quaisquer d\u00favidas. No entanto, \u00e9 necess\u00e1rio n\u00e3o perder de vista igualmente que esta \u00e9 uma fase da carreira de Tezuka em que ele \u00e9 j\u00e1 um autor consagrado, premiado, viajado e com in\u00fameros convites para v\u00e1rios projectos para al\u00e9m da mang\u00e1 e do anim\u00e9 (inclusive de escultura), disciplinas nas quais continuava a trabalhar afincada e constantemente, gra\u00e7as ao seu cada vez mais consolidado est\u00fadio (apesar das suas biografias encomi\u00e1sticas gostarem sempre de sublinhar que grande parte do trabalho era feito pelo pr\u00f3prio Tezuka, especialmente nas bandas desenhadas). Ao mesmo tempo que esta obra, Tezuka desenvolvera Ode to Kihirito, mas tamb\u00e9m contribu\u00edra com hist\u00f3rias curtas como \u201cO rapaz da Chuva\u201d ou as de personagens infanto-juvenis como o Rapaz dos Tr\u00eas Olhos, Black Jack e Unico. Esta men\u00e7\u00e3o serve somente para tornar claro que o trabalho de Tezuka era profissional, e movido provavelmente por uma constante preocupa\u00e7\u00e3o em garantir uma presen\u00e7a em todos os p\u00fablicos poss\u00edveis da banda desenhada no Jap\u00e3o.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.clubotaku.org\/niji\/manga\/mw\/attachment\/1-297\/\" rel=\"attachment wp-att-11409\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.clubotaku.org\/nijiwp\/wp-content\/uploads\/1284.jpg\" alt=\"\" title=\"1\" width=\"640\" height=\"290\" class=\"alignnone size-full wp-image-11409\" srcset=\"https:\/\/www.clubotaku.org\/nijiwp\/wp-content\/uploads\/1284.jpg 640w, https:\/\/www.clubotaku.org\/nijiwp\/wp-content\/uploads\/1284-300x135.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><\/a><\/p>\n<p>J\u00e1 hav\u00edamos tamb\u00e9m salientado o facto de que Tezuka, devido \u00e0 emerg\u00eancia da gekig\u00e1, ter come\u00e7ado a investir parte da sua criatividade a t\u00edtulos que fossem um pouco mais al\u00e9m do mero entretenimento infanto-juvenil a que o seu trabalho havia habituado o p\u00fablico, e que ainda hoje \u00e9 a fonte de maior rendimento e fama, se bem que a recente tradu\u00e7\u00e3o de obras mais complexas possa vir a inverter essa mesma imagem. No entanto, MW tem toda uma s\u00e9rie de caracter\u00edsticas que a diferencia da demais.<br \/>\nO livro \u00e9 apontado como um \u201cdos mais negros\u201d de Tezuka, por mergulhar numa realidade sem condescend\u00eancias para com a fantasia ou o maravilhoso, mas tamb\u00e9m por lidar com temas algo controversos. O t\u00edtulo, &#8220;MW&#8221;, vem de um suposto g\u00e1s venenoso empregue como arma militar por uma na\u00e7\u00e3o X \u2013 apesar de, mais tarde, os Estados Unidos serem indicados por nome noutras circunst\u00e2ncias, ser\u00e1 \u00f3bvio que esta misteriosa na\u00e7\u00e3o com a qual o Jap\u00e3o tem uma rela\u00e7\u00e3o privilegiada, permitindo-lhe bases militares no seu territ\u00f3rio e garantindo-lhe protec\u00e7\u00e3o pol\u00edtica \u00e9 a Am\u00e9rica. Uma breve consulta dos problemas reais no Jap\u00e3o da \u00e9poca, com tens\u00f5es permanentes (herdeiras dos anos 60) entre as fac\u00e7\u00f5es de esquerda, a oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 perman\u00eancia dos Estados Unidos enquanto for\u00e7a militar e de press\u00e3o econ\u00f3mica, os esc\u00e2ndalos financeiros, e alguma actividade da direita (na qual Yukio Mishima teve um papel preponderante) serve como base de entendimento deste tipo de trabalho de Tezuka, que n\u00e3o lhe parece natural. Parte do livro centra-se num retrato pouco lisonjeiro da classe pol\u00edtica, e chega-se mesmo a colocar em quest\u00e3o toda a rela\u00e7\u00e3o de soberania do Jap\u00e3o (e dos seus representantes eleitos) face \u00e0s obriga\u00e7\u00f5es lan\u00e7adas pelos Estados Unidos. Desconhe\u00e7o se teria MW causado alguma celeuma ent\u00e3o, transmitida numa publica\u00e7\u00e3o de grande circula\u00e7\u00e3o mas que visava um p\u00fablico-alvo de jovens adultos que talvez n\u00e3o estivessem directamente envolvidos em ac\u00e7\u00f5es de cariz pol\u00edtico, mas seja como for \u00e9 in\u00e9dito nos trabalhos de Tezuka uma abordagem t\u00e3o directa de problemas inerentes ao seu Jap\u00e3o contempor\u00e2neo. Ao contr\u00e1rio das outras obras, onde sempre existe alguma nota de esperan\u00e7a ou de reden\u00e7\u00e3o no infinito, MW \u00e9 uma trag\u00e9dia em que o \u00fanico poss\u00edvel \u201cfinal feliz\u201d apenas pode passar pela morte e destrui\u00e7\u00e3o dos seus protagonistas; e mesmo assim, essa quest\u00e3o fica em suspenso.<\/p>\n<p>A raz\u00e3o disso \u00e9 que as personagens principais n\u00e3o poderiam ser mais atormentadas. Toda a trama se centra na rela\u00e7\u00e3o de dois homens, Garai e Yuki Michio, que se conheceram numa pequena ilha, sendo o primeiro um membro de uma turma de delinquentes e o segundo uma crian\u00e7a que por ali passava. Por raz\u00f5es das circunst\u00e2ncias, acabam por se encontrar numa gruta no alto da ilha quando parte do g\u00e1s se liberta pela ilha, matando todas as pessoas que ali se encontravam. Garai e Yuki sobrevivem, mas n\u00e3o sem maleitas. Uma, derivada do g\u00e1s: por uma qualquer raz\u00e3o, Yuki ingere uma quantidade m\u00ednima do g\u00e1s que o afecta, tornando-o num psicopata implac\u00e1vel. Outra, mais profunda, \u00e9 da descoberta da homossexualidade dos dois, uma rela\u00e7\u00e3o carnal que se manteria ao longo dos anos. A hist\u00f3ria come\u00e7a 16 anos depois destes acontecimentos, em que Garai \u00e9 j\u00e1 um padre cat\u00f3lico e Yuki um \u201csarariman\u201d de sucesso. Aos poucos \u00e9 que o plano se desvela, primeiro pensando n\u00f3s que Yuki se move numa elaborada vingan\u00e7a contra os respons\u00e1veis militares e pol\u00edticos do desastre com o MW, depois apercebendo-nos de que n\u00e3o \u00e9 mais do que um simples plano de um demente.<\/p>\n<p>Existem muitas outras dimens\u00f5es em MW que talvez merecessem ser explorado, mas prendamo-nos, por ora, a um deles. O da representa\u00e7\u00e3o da homossexualidade. Este \u00e9 um territ\u00f3rio muito perigoso, que se sente que Tezuka n\u00e3o estaria completamente \u00e0 vontade. Se por um lado bastas vezes nesta narrativa \u00e9 indicado que a realidade dos homossexuais \u00e9 aceite noutros pa\u00edses (ocidentais), Tezuka representa-os nestas duas personagens, um padre cat\u00f3lico e um psicopata, ou outros no interior de um clube, onde se encontram travestis e orgias secretas. No fim, portanto, a imagem n\u00e3o \u00e9 de todo positiva, mas sim a de homens (e mulheres) que n\u00e3o s\u00f3 t\u00eam de esconder essa sua faceta como ainda estabelecem redes suspeitas de influ\u00eancia e comportamentos de desbragamento moral. A defesa estar\u00e1 talvez no mesmo patamar da representa\u00e7\u00e3o de pessoas de outras na\u00e7\u00f5es que n\u00e3o os japoneses, as mais das vezes atravessando graus vari\u00e1veis de caricaturiza\u00e7\u00e3o e de preconceitos: a de que Tezuka era o primeiro a explorar estes assuntos. Mas isso n\u00e3o \u00e9 defesa suficiente, e apenas o poderemos entender como passos primeiros que ligeiramente levavam para longe da ignor\u00e2ncia total. Ainda hoje a homossexualidade masculina \u00e9 tratada pelas shoju manga como mat\u00e9ria rom\u00e2ntica, mas que nada tem a ver com os problemas tang\u00edveis no Jap\u00e3o.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.clubotaku.org\/niji\/manga\/mw\/attachment\/2-267\/\" rel=\"attachment wp-att-11410\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.clubotaku.org\/nijiwp\/wp-content\/uploads\/2253.jpg\" alt=\"\" title=\"2\" width=\"640\" height=\"290\" class=\"alignnone size-full wp-image-11410\" srcset=\"https:\/\/www.clubotaku.org\/nijiwp\/wp-content\/uploads\/2253.jpg 640w, https:\/\/www.clubotaku.org\/nijiwp\/wp-content\/uploads\/2253-300x135.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Curiosamente, \u00e9 a rela\u00e7\u00e3o entre o padre Garai e Yuki que traz uma das mais belas p\u00e1ginas de MW, numa utiliza\u00e7\u00e3o metaf\u00f3rica &#8211; isto \u00e9, que n\u00e3o exerce qualquer peso de realidade no interior da diegese &#8211; das ilustra\u00e7\u00f5es de Aubrey Beardsley, ligeiramente alterada para acomodar o rosto destas personagens. E uma vez que s\u00e3o retiradas de Salom\u00e9, talvez haja aqui um desejo de estabelecer algumas linhas de intertexualidade. O que n\u00e3o \u00e9 de surpreender, j\u00e1 que Tezuka costuma sempre citar algumas das fontes que utiliza, integrando-as de uma forma mais ou menos subtil na pr\u00f3pria hist\u00f3ria. Por exemplo, quando o padre Garai conta toda a hist\u00f3ria da popula\u00e7\u00e3o morta na ilha a um jornalista, este confessa-se surpreso mas compara esse relato a um romance de Jack Finney (conhecido pelo que daria origem a Invasion of the Body Snatchers), o que nos lan\u00e7a \u00e0 ideia de Tezuka se ter parcialmente baseado nessa hist\u00f3ria para a cria\u00e7\u00e3o de MW, revelando ao mesmo tempo a humildade e generosidade de Tezuka em tornar essas liga\u00e7\u00f5es o mais claras poss\u00edveis.<\/p>\n<p>Apesar do tratamento superficial de algumas das quest\u00f5es apontadas, \u00e9 necess\u00e1rio frisar que as personagens s\u00e3o tratadas de um modo que, para Tezuka, seriam bem mais profundas do que o habitual. Por exemplo, poder\u00e3o entender como a crise interna, quase shakespeariana, que obriga o padre Garai a falar consigo pr\u00f3prio \u00e9 tratada nesta p\u00e1gina. No momento em que ele mesmo responde \u00e0s suas quest\u00f5es, \u00e9 quando o reflexo surge na superf\u00edcie do vidro como se se tratasse de uma personagem outra, com a qual dialogasse. \u00c9 uma estrat\u00e9gia visual-narrativa bastante simples, sem d\u00favida, mas extremamente efectiva para nos apercebermos dos problemas que dilaceram esta personagem, dividida entre um desejo (proibido por v\u00e1rias raz\u00f5es) e uma obriga\u00e7\u00e3o moral. \u00c9 nestas quest\u00f5es de pensamento moral, as mais das vezes expressas por Garai, que MW toca perto de outros t\u00edtulos como Apollo\u2019s Song, Phoenix ou mesmo Buddha: quest\u00f5es como as de retribui\u00e7\u00e3o e de reden\u00e7\u00e3o, a da origem do mal e como este pode delir a potencialidade do homem para o bem, a tarefa que compartilhamos em rela\u00e7\u00e3o ao esfor\u00e7o de aperfei\u00e7oar o homem e, com ele, o mundo. Todavia, como se disse e se foi indicando com v\u00e1rios elementos, o fim de MW aponta para uma resposta quase niilista e que nos faz pensar que as ideias positivas de Tezuka se inscreviam no espa\u00e7o das fic\u00e7\u00f5es de fantasia apenas; quando prop\u00f5e um t\u00edtulo estritamente realista, essas ideias dissipam-se quase totalmente, acabando encerradas no idealismo das suas personagens, mas n\u00e3o na da pr\u00f3pria obra.<\/p>\n<p><strong>Autor: Pedro Vieira de Moura<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sendo este livro da segunda metade da d\u00e9cada de 1970, pertencer\u00e1 \u00e0quele grupo de livros de Tezuka a que se d\u00e1 o nome gen\u00e9rico de \u201cda maturidade\u201d, desejando assim apontar-se&nbsp;[ &hellip; ]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":11409,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1283,5],"tags":[2252,1588],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.clubotaku.org\/niji\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11408"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.clubotaku.org\/niji\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.clubotaku.org\/niji\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.clubotaku.org\/niji\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.clubotaku.org\/niji\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=11408"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.clubotaku.org\/niji\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11408\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.clubotaku.org\/niji\/wp-json\/wp\/v2\/media\/11409"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.clubotaku.org\/niji\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=11408"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.clubotaku.org\/niji\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=11408"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.clubotaku.org\/niji\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=11408"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}