{"id":17814,"date":"2014-07-01T11:36:49","date_gmt":"2014-07-01T12:36:49","guid":{"rendered":"http:\/\/www.clubotaku.org\/niji\/?p=17814"},"modified":"2014-07-01T11:36:49","modified_gmt":"2014-07-01T12:36:49","slug":"yasujiro-ozu-a-passagem-do-tempo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.clubotaku.org\/niji\/cinem\/yasujiro-ozu-a-passagem-do-tempo\/","title":{"rendered":"Yasujiro Ozu &#8211; A Passagem do Tempo"},"content":{"rendered":"<p>Yasujiro Ozu \u00e9 conhecido por ser um \u00a0dos Mestres de Cinema mas poucos s\u00e3o aqueles que compreendem a ess\u00eancia das suas obras. Viajando um pouco pela Cinematografia do autor, este artigo tem como objecto dar a conhecer um pouco sobre a vis\u00e3o do Mundo de um homem que come\u00e7ou por encarar o Cinema como um meio de entretenimento mas que com o passar do tempo o come\u00e7ou a sentir de forma \u00fanica e inspiradora.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.clubotaku.org\/nijiwp\/wp-content\/uploads\/ozu01.png\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-17815\" src=\"http:\/\/www.clubotaku.org\/nijiwp\/wp-content\/uploads\/ozu01.png\" alt=\"ozu01\" width=\"640\" height=\"290\" srcset=\"https:\/\/www.clubotaku.org\/nijiwp\/wp-content\/uploads\/ozu01.png 640w, https:\/\/www.clubotaku.org\/nijiwp\/wp-content\/uploads\/ozu01-300x135.png 300w\" sizes=\"(max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><\/a><\/p>\n<p><strong>Do Aprendiz ao Mestre<\/strong><\/p>\n<p>Dois amigos universit\u00e1rios disputam o amor de uma rapariga durante uma viagem. Este \u00e9 o resumo de <em>Gakusei Romansu: Wakaki Hi<\/em> (1929), uns dos primeiros filmes de Yasujiro Ozu . Ao contr\u00e1rio do que estamos habituados quando ouvimos o nome de Ozu, as obras at\u00e9 ao in\u00edcio dos anos 40 s\u00e3o um tanto ou quanto Hollywoodescas (heran\u00e7a de Tadamoto Okubo para o qual Ozu trabalhou como Assistente de Realiza\u00e7\u00e3o entre 1923 e 1927), tomando um tom mais s\u00e9rio conforme o desenrolar da Guerra. Yasujiro Ozu termina a sua carreira em 1963 como um Mestre do Cinema.<\/p>\n<p>Depois de enviado para a guerra no final dos anos 30, Ozu \u00e9 considerado um criminoso de Guerra em solo Singapurense, terminando numa planta\u00e7\u00e3o de borracha onde permanece at\u00e9 1946, ano em que \u00e9 reenviado para o Jap\u00e3o. Durante o tempo em Singapura, o autor acaba por se envolver no mundo da Poesia, o qual, juntamente com a experi\u00eancia da Guerra, mudar\u00e1 para sempre a sua obra.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.clubotaku.org\/nijiwp\/wp-content\/uploads\/ozu07.png\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-17822\" src=\"http:\/\/www.clubotaku.org\/nijiwp\/wp-content\/uploads\/ozu07.png\" alt=\"ozu07\" width=\"640\" height=\"290\" srcset=\"https:\/\/www.clubotaku.org\/nijiwp\/wp-content\/uploads\/ozu07.png 640w, https:\/\/www.clubotaku.org\/nijiwp\/wp-content\/uploads\/ozu07-300x135.png 300w\" sizes=\"(max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><\/a><\/p>\n<p>A composi\u00e7\u00e3o dos seus planos e em especial a Montagem ganham novos sentidos e aproximam-se da forma de constru\u00e7\u00e3o da Poesia, especialmente devido aos padr\u00f5es (planos gerais seguidos por planos pormenores, terminando novamente em planos gerais, por exemplo), algo estudado por David Bordwell em <em>Ozu and The Poetics of Cinema<\/em>. Mas o que realmente interessa neste artigo \u00e9 compreender de que forma o Passado de Yasujiro Ozu vem a alterar n\u00e3o apenas as narrativas mas a forma como estas s\u00e3o interpretadas.<\/p>\n<p><em>Banshun<\/em> (1949) traz ao de cima um Ozu mais maduro do que o jovem que criara<em> Gakusei Romansu<\/em> vinte anos antes. Para al\u00e9m de uma altera\u00e7\u00e3o profunda na t\u00e9cnica (entre outros a posi\u00e7\u00e3o da c\u00e2mara ao n\u00edvel de algu\u00e9m sentado no tatami como se o espectador fosse um convidado ou a nega\u00e7\u00e3o das conven\u00e7\u00f5es de Hollywood como a Regra dos 180\u00ba e a montagem Campo\/Contra-Campo), as suas obras anteriormente inconsequentes (Com\u00e9dias que serviam apenas para entreter) transformam-se em puras reflex\u00f5es sobre a Passagem do Tempo e, por conseguinte, sobre o Ciclo da Vida e a Efemeridade das Coisas, temas fortemente ligados \u00e0 pr\u00f3pria passagem das Esta\u00e7\u00f5es do Ano e da sua consequ\u00eancia para o Homem, temas dos quais<em> Banshun<\/em> (1949), <em>Bakushu<\/em> (1951), <em>Soshun<\/em> (1956), <em>Higanbana<\/em> (1958), <em>Akibiyori<\/em> (1960) e <em>Kohayakawake no Aki<\/em> (1961) s\u00e3o exemplos paradigm\u00e1ticos.<\/p>\n<p><strong><em>Mono no Aware<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Acreditando-se Imortal e com vontade de viver sem grandes preocupa\u00e7\u00f5es, este seria Yasujiro Ozu no in\u00edcio da sua carreira, tal como a maioria dos jovens da sua idade. No entanto, a guerra f\u00e1-lo entrar em contacto com uma vis\u00e3o mais negra do Mundo que eventualmente terminaria com a sua pr\u00f3pria mortalidade, uma vis\u00e3o que o autor ir\u00e1 transmitir atrav\u00e9s das suas obras, uma vis\u00e3o que, como observa Nick Wrigley, se aproxima do conceito <em>Mono no Aware<\/em>.<\/p>\n<p>Podendo ser traduzido como <em>A Sensibilidade das Coisas<\/em>, o conceito \u00e9 utilizado pela primeira vez pelo Fil\u00f3sofo Motoori Norinaga (1730 \u2013 1801) para descrever uma observa\u00e7\u00e3o relaxada e contemplativa do Mundo, feita pelo individuo que se aproxima da morte, que compreende a sua mortalidade (seja ele um homem de noventa anos ou um jovem de vinte).<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.clubotaku.org\/nijiwp\/wp-content\/uploads\/ozu02.png\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-17816\" src=\"http:\/\/www.clubotaku.org\/nijiwp\/wp-content\/uploads\/ozu02.png\" alt=\"ozu02\" width=\"640\" height=\"290\" srcset=\"https:\/\/www.clubotaku.org\/nijiwp\/wp-content\/uploads\/ozu02.png 640w, https:\/\/www.clubotaku.org\/nijiwp\/wp-content\/uploads\/ozu02-300x135.png 300w\" sizes=\"(max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><\/a><\/p>\n<p>O pai que v\u00ea a filha ir embora para sempre, condenando-o a uma solid\u00e3o que apenas terminar\u00e1 com a sua morte, mas aceita a realidade. A perda irrepar\u00e1vel de um filho durante a Segunda Guerra Mundial. O amor entre dois jovens que embora correspondido \u00e9 renegado, levando-os a viver o resto das suas vidas com algu\u00e9m que n\u00e3o amam. A passagem do tempo que embora traga amarguras \u00e9 vivida sem grande luta pela mudan\u00e7a, vivida com aceita\u00e7\u00e3o. Estes s\u00e3o os elementos principais da Filmografia P\u00f3s-Guerra de Yasujiro Ozu.<\/p>\n<p><strong>S\u00edmbolos de Mudan\u00e7a<\/strong><\/p>\n<p>Deixando momentaneamente de lado os elementos \u00f3bvios da passagem do tempo (as viagens, os casamentos, o envelhecimento dos personagens), \u00e9 importante compreender os elementos narrativos subtis que marcam esta mudan\u00e7a.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.clubotaku.org\/nijiwp\/wp-content\/uploads\/ozu05.png\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-17819\" src=\"http:\/\/www.clubotaku.org\/nijiwp\/wp-content\/uploads\/ozu05.png\" alt=\"ozu05\" width=\"640\" height=\"290\" srcset=\"https:\/\/www.clubotaku.org\/nijiwp\/wp-content\/uploads\/ozu05.png 640w, https:\/\/www.clubotaku.org\/nijiwp\/wp-content\/uploads\/ozu05-300x135.png 300w\" sizes=\"(max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Come\u00e7o com o comboio, s\u00edmbolo da passagem n\u00e3o apenas do tempo em si mas das grandes mudan\u00e7as na vida dos personagens. Entre in\u00fameros exemplos, temos <em>Higanbana<\/em> (1958) e <em>Akibiyori<\/em> (1960). No primeiro, temos a cena em que Ayako v\u00ea passar o comboio onde estaria uma amiga sua rec\u00e9m-casada (sendo que Ayako acaba tamb\u00e9m por apanhar um comboio para ir ter com o homem que ama e enfrentar uma nova fase da sua vida) enquanto no segundo exemplo vemos dois trabalhadores da Esta\u00e7\u00e3o de Tokyo comentar a quantidade de noivas que chegara ao local. Em ambos os casos o comboio \u00e9 encarado como uma marca da mudan\u00e7a entre o estado de solteira e a nova vida como casada. Relembro tamb\u00e9m que, ainda em <em>Akibiyori<\/em> e \u00e0 semelhan\u00e7a do que acontece a Tomi em <em>Tokyo Monogatari<\/em> (1953), Manbei morre depois de uma viagem de comboio, s\u00edmbolo da passagem para o outro Mundo.<\/p>\n<p>Seguindo esta ideia de passagem para o Mundo dos Mortos temos ainda planos com pontes e corredores vazios (s\u00edmbolo de uma presen\u00e7a Humana que desapareceu) ou ainda o fumo e o vapor, s\u00edmbolos do ritual da crema\u00e7\u00e3o . Por exemplo, em Akibiyori vemos um plano onde se encontra incenso a ser queimado, prevendo a morte de Manbei.<\/p>\n<p><strong>Esta\u00e7\u00f5es do Ano<\/strong><\/p>\n<p>Incontestavelmente ligado \u00e0 ideia de Passagem do Tempo est\u00e3o as Esta\u00e7\u00f5es do Ano, trabalhadas por Ozu nestas seis obras. Mais do que qualquer elemento, s\u00e3o as Esta\u00e7\u00f5es que nos transmitem a ideia de Tempo, desde as flores que brotam na Primavera e as cores vivas do Ver\u00e3o at\u00e9 \u00e0s folhas castanhas no Outono e os troncos nus no Inverno.<\/p>\n<p>\u00c9poca de grandes transi\u00e7\u00f5es, a Primavera \u00e9 um despertar para uma nova vida. Embora nem sempre simbolizem Felicidade, pr\u00f3pria da Esta\u00e7\u00e3o, as obras primaveris de Ozu, nomeadamente <em>Banshun<\/em> (1949), <em>Soshun<\/em> (1956) e <em>Higanbana<\/em> (1958), s\u00e3o marcadas pelo come\u00e7o de algo.<\/p>\n<p>Em <em>Banshun<\/em> (Primavera Tardia), a protagonista Noriko decide finalmente casar, ap\u00f3s muitas insist\u00eancias do pai, deixando a sua vida de solteira e despreocupa\u00e7\u00e3o para iniciar uma vida de trabalho e cuido da casa e do marido. <em>Soshun<\/em> (Primavera Prematura) mostra-nos como o casamento de Shoji e Masako embora pare\u00e7a terminado pode ainda ter um novo come\u00e7o, ou recome\u00e7ar, quando Shoji se apercebe do quanto realmente ama a mulher. Finalmente, <em>Higanbana<\/em> (Flor de Equin\u00f3cio) pode estar presente tanto na Primavera como na parte do Outono, sendo que no caso da protagonista esta obra marca a sua Primavera, nomeadamente quando Fumiko decide ir contra a vontade do pai e casar com o homem que ama e n\u00e3o com algu\u00e9m escolhido por ele.<\/p>\n<p>\u00c9 importante ver tamb\u00e9m que o \u00fanico nascimento anunciado num filme acontece em<em> Soshun<\/em> (Primavera Prematura), quando um dos colegas de Shoji aparece desesperado e com receio do que ser\u00e1 do futuro do seu filho, um nascimento que ser\u00e1 prematuro, devido aos problemas financeiros dos pais.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.clubotaku.org\/nijiwp\/wp-content\/uploads\/ozu04.png\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-17818\" src=\"http:\/\/www.clubotaku.org\/nijiwp\/wp-content\/uploads\/ozu04.png\" alt=\"ozu04\" width=\"640\" height=\"290\" srcset=\"https:\/\/www.clubotaku.org\/nijiwp\/wp-content\/uploads\/ozu04.png 640w, https:\/\/www.clubotaku.org\/nijiwp\/wp-content\/uploads\/ozu04-300x135.png 300w\" sizes=\"(max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><\/a><\/p>\n<p>O Ver\u00e3o \u00e9 como uma \u00faltima oportunidade de mudan\u00e7a enquanto o Sol ainda possui a sua influ\u00eancia, algo que determina <em>Bakushu<\/em> (1951). Noriko, protagonista de <em>Bakushu<\/em> (Ver\u00e3o Prematuro), aceita casar-se tardiamente mas consegue encontrar a felicidade ainda a tempo.<\/p>\n<p>O come\u00e7o do fim (as folhas que caem e anunciam a \u201cmorte\u201d da \u00e1rvore) e uma \u00e9poca de desilus\u00f5es &#8211; \u00e9 assim que se pode descrever o Outono nas obras de Ozu, especialmente em <em>Higanbana<\/em> (1958), <em>Akibiyori<\/em> (1960) e <em>Kohayakawake no Aki<\/em> (1961). No primeiro caso, <em>Higanbana<\/em> (Flor de Equin\u00f3cio) para al\u00e9m do lado de felicidade acima referido existe tamb\u00e9m um lado mais negro (afinal existem dois equin\u00f3cios, dois lados da mesma moeda), nomeadamente porque o pai de Fumiko apenas d\u00e1 valor aos dias na companhia da filha quando \u00e9 tarde demais e esta j\u00e1 est\u00e1 pr\u00f3xima do seu casamento (sendo que as noivas quando casavam \u201cabandonavam\u201d a sua fam\u00edlia original). Em <em>Akibiyori<\/em> (Outono Tardio), Akiko v\u00ea a filha casar, embora que relutante, e isto apenas significa o in\u00edcio de um per\u00edodo de solid\u00e3o que terminar\u00e1 apenas com a sua morte. Por fim, <em>Kohayakawake no Aki<\/em> (Outono da Fam\u00edlia Kohayakawa) \u00e9 tal como o nome indica um influenciador n\u00e3o apenas para um personagem mas para uma fam\u00edlia. Para al\u00e9m de Tsune que perde Manbei, o homem que amou toda a vida (sabendo que o seu pr\u00f3prio fim solit\u00e1rio estar\u00e1 pr\u00f3ximo), temos a pr\u00f3pria fam\u00edlia de Manbei que entra num per\u00edodo de luto e tristeza.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.clubotaku.org\/nijiwp\/wp-content\/uploads\/ozu03.png\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-17817\" src=\"http:\/\/www.clubotaku.org\/nijiwp\/wp-content\/uploads\/ozu03.png\" alt=\"ozu03\" width=\"640\" height=\"290\" srcset=\"https:\/\/www.clubotaku.org\/nijiwp\/wp-content\/uploads\/ozu03.png 640w, https:\/\/www.clubotaku.org\/nijiwp\/wp-content\/uploads\/ozu03-300x135.png 300w\" sizes=\"(max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Curiosamente n\u00e3o existem obras influenciadas pelo Inverno embora cronologicamente, de certa forma, Ozu tenha passado de Primaveras (1949, 1956 e 1958) para Ver\u00f5es (1951) e Outonos (1958, 1960, 1961). O Inverno poder\u00e1 ser a sua pr\u00f3pria morte. O fim das obras, o fim de um Ciclo.<\/p>\n<p>No entanto, embora n\u00e3o seja um tema principal, o Inverno est\u00e1 a meu ver englobado nas obras atrav\u00e9s da cor branca. Partilhando esta cor do mesmo significado que o Inverno para o Oriente (morte, renascer, fim de um ciclo e in\u00edcio de outro), podemos ver a sua influ\u00eancia nas crian\u00e7as e nos idosos (o nascimento de uma gera\u00e7\u00e3o significa necessariamente a morte de outra) mas tamb\u00e9m nas noivas (a crian\u00e7a que cresceu e recebeu o dever de dar continua\u00e7\u00e3o \u00e0s Futuras gera\u00e7\u00f5es e os pais que v\u00eam os seus filhos come\u00e7ar uma nova fam\u00edlia, apercebendo-se da sua pr\u00f3pria mortalidade).<\/p>\n<p><strong>Setsuko Hara, de Noriko a Akiko<\/strong><\/p>\n<p>Curiosamente, a Passagem do Tempo nas obras de Yasujiro Ozu \u00e9 igualmente importante nos pr\u00f3prios actores, especialmente para Setsuko Hara. A actriz que trabalhou com Ozu desde <em>Banshun<\/em> (1949) at\u00e9 <em>Kohayakawake no Aki<\/em> (1961), interpretou sempre personagens com o nome Noriko ou Akiko. Durante os primeiros filmes, onde vestia o papel de filha, usava o nome de Noriko que em japon\u00eas significa \u201cfilha exemplar\u201d, algo que todas as \u201cNorikos\u201d eram, desde a jovem que casa contrariada para seguir o caminho que o seu pai quer (Banshun), \u00e0 nora exemplar que cuida melhor dos sogros do que os pr\u00f3prios filhos (<em>Tokyo Monogatari<\/em>). O nome Akiko, significando \u201ccrian\u00e7a do Outono\u201d, \u00e9 utilizado nas \u00faltimas duas obras em que Hara participou, nomeadamente ambas personagens de m\u00e3es, s\u00e1bias e protectoras, que no caso de <em>Akibiyori<\/em> (1960) \u00e9 uma m\u00e3e prestes a perder a \u00fanica filha, devido ao seu casamento inevit\u00e1vel, destinada a viver em solid\u00e3o at\u00e9 ao fim dos seus dias (tal como o pai de Noriko em Banshun).<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.clubotaku.org\/nijiwp\/wp-content\/uploads\/ozu06.png\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-17820\" src=\"http:\/\/www.clubotaku.org\/nijiwp\/wp-content\/uploads\/ozu06.png\" alt=\"ozu06\" width=\"640\" height=\"290\" srcset=\"https:\/\/www.clubotaku.org\/nijiwp\/wp-content\/uploads\/ozu06.png 640w, https:\/\/www.clubotaku.org\/nijiwp\/wp-content\/uploads\/ozu06-300x135.png 300w\" sizes=\"(max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Outro exemplo \u00e9 ainda o caso de Mariko Okada, filha de Tokihiko Okada (igualmente actor de Ozu em Tokyo no <em>Korasu<\/em> de 1931) que interpreta o papel da jovem rebelde em <em>Akibiyori<\/em> e acaba como a m\u00e3e conservadora em <em>Sanma no Aki<\/em> (1962).<\/p>\n<p><strong>Do Jap\u00e3o para o Mundo<\/strong><\/p>\n<p>Quando se fala em Poesia n\u00e3o nos podemos esquecer do essencial, que esta \u00e9 uma \u00e1rea conhecida por ajudar o indiv\u00edduo a despertar os seus sentidos e a compreender a beleza do que o rodeia. \u00c9 exactamente isto que Yasujiro Ozu procura nos seus trabalhos, ajudar o espectador a olhar para al\u00e9m do \u00f3bvio, das narrativas sobre a jovem obrigada a casar, e contemplar o que rodeia as personagens que, apesar dos seus infort\u00fanios (a filha que perde o pai, a m\u00e3e que perde a \u00fanica filha), conseguem sempre olhar para o que resta e encontrar a felicidade, um verdadeiro <em>Mono no Aware<\/em>.<\/p>\n<p>Afinal, \u00e9 isto que acontece a Yasujiro Ozu, o jovem entusiasmado que se v\u00ea no meio de uma Guerra repleta de morte e sofrimento mas, mesmo assim, consegue olhar em volta e fazer belas obras de arte com o que restava de uma Sociedade destru\u00edda, ajudando-a a superar o seu Passado (de certo modo, as tradi\u00e7\u00f5es come\u00e7am a ser quebradas nos \u00faltimos filmes quando passamos a ter filhas que lutam contra os pais e seguem o seu pr\u00f3prio caminho ou at\u00e9 mesmo com o aparecimento de personagens ocidentais, por exemplo).<\/p>\n<p>O seu trabalho \u00e9 ainda hoje estudado e muitas s\u00e3o as homenagens, vis\u00edveis por exemplo no trabalho de Hirokazu Kore-eda onde, entre outros, o elemento do comboio e a dicotomia entre campo (tradi\u00e7\u00e3o) e cidade (modernidade) est\u00e1 muito presente.<br \/>\nAs Com\u00e9dias Levianas tornam-se modelos que ser\u00e3o seguidos e venerados n\u00e3o apenas pelos Orientais mas tamb\u00e9m pelos Ocidentais que, apesar da descren\u00e7a de Ozu que acredita que estes nunca iriam compreender as suas obras, come\u00e7am a olhar para al\u00e9m do aparente, descobrindo nos anos 70 um novo realizador, uma nova perspectiva e uma nova Poesia.<\/p>\n<p><strong>Bibliografia<\/strong><\/p>\n<p>1. Ferreira, Carlos Melo. As Po\u00e9ticas do Cinema. Edi\u00e7\u00f5es Afrontamento, 2004<br \/>\n2. Nolletti Jr, Arthur &amp; Desser, David. Reframing Japanese Cinema. Indiana University Press, 1992<br \/>\n3. Bordwell, David. Ozu and the Poetics of Cinema. Princeton University Press, (2\u00aa Edi\u00e7\u00e3o) 1994<\/p>\n<p><strong>Webgrafia<\/strong><br \/>\n1. \u201cYasujito Ozu\u201d. Senses of Cinema<br \/>\n(http:\/\/sensesofcinema.com\/2003\/great-directors\/ozu\/#b2).<\/p>\n<p><strong>Filmografia<\/strong><br \/>\n1. Ozu, Yasujiro, realizador, Banshun,1949<br \/>\n2. \u2013, realizador, Bakushu, 1951<br \/>\n3. \u2013, realizador, Soshun, 1956<br \/>\n4. \u2013 , realizador, Higanbana, 1958<br \/>\n5. \u2013 , realizador, Akibiyori, 1960<br \/>\n6. \u2013 , realizador, Kohayakawake no Aki, 1961<\/p>\n<p><strong>Curiosidades:<\/strong><\/p>\n<p>1. Uns dir\u00e3o ser coincid\u00eancia, outros, destino. A fam\u00edlia de Norinaga Motoori fazia parte de um grupo de mercadores que trabalhava para o Cl\u00e3 de Otsu, cl\u00e3 esse para o qual a fam\u00edlia de Yasujiro Ozu trabalhara outrora.<\/p>\n<p>2. A Ideia de uma vida passada de forma contemplativa e reflexiva est\u00e1 presente um pouco por todo o Mundo e n\u00f3s temos um exemplo disso em Portugal, por exemplo, nas obras de Alberto Caeiro.<\/p>\n<p>3. No final da guerra enquanto prisioneiro de guerra\u00a0Ozu ficou a saber que um barco estava a caminho para ir buscar alguns japoneses de volta a casa (apenas haveria lugar para 28 pessoas e as restantes teriam de esperar mais alguns meses). Embora o autor tenha conseguido um bilhete para a viagem atrav\u00e9s de um sistema de lotaria, ele decide dar o bilhete a um colega que estava ansioso por rever a sua fam\u00edlia.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Yasujiro Ozu \u00e9 conhecido por ser um \u00a0dos Mestres de Cinema mas poucos s\u00e3o aqueles que compreendem a ess\u00eancia das suas obras. 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