{"id":18417,"date":"2014-10-21T20:59:16","date_gmt":"2014-10-21T21:59:16","guid":{"rendered":"http:\/\/www.clubotaku.org\/niji\/?p=18417"},"modified":"2016-04-21T00:44:34","modified_gmt":"2016-04-21T01:44:34","slug":"mobo-moga-uma-era-de-renovacao-artistica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.clubotaku.org\/niji\/cultu\/mobo-moga-uma-era-de-renovacao-artistica\/","title":{"rendered":"Mobo-Moga &#8211; Uma era de renova\u00e7\u00e3o art\u00edstica"},"content":{"rendered":"<p>Os japoneses t\u00eam, como povo, uma caracter\u00edstica bem conhecida \u2013 a capacidade de adoptar com facilidade costumes ou pr\u00e1ticas estrangeiras. Quando os portugueses chegaram ao Jap\u00e3o em 1543, logo notaram a curiosidade dos jap\u00f5es, a sua insaci\u00e1vel vontade de aprender. Ficaram t\u00e3o intrigados com o mosquete (as armas dos samurai eram sobretudo as espadas \u2013 <em>katana<\/em> &#8211; e os arcos e flechas) que, de imediato, quiseram experiment\u00e1-lo e fabric\u00e1-lo eles pr\u00f3prios, o que fizeram bastante bem. Mais tarde, a sua mestria nas \u00e1reas da tecnologia e do cinema \u2013 importa\u00e7\u00f5es ocidentais \u2013 seria not\u00f3ria.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.clubotaku.org\/nijiwp\/wp-content\/uploads\/1930.jpg\" alt=\"1\" width=\"640\" height=\"290\" class=\"aligncenter size-full wp-image-18419\" srcset=\"https:\/\/www.clubotaku.org\/nijiwp\/wp-content\/uploads\/1930.jpg 640w, https:\/\/www.clubotaku.org\/nijiwp\/wp-content\/uploads\/1930-300x135.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><\/p>\n<p>Os japoneses reconhecem esta sua caracter\u00edstica de facilmente adoptar o que consideram bom em pr\u00e1ticas alheias e chamam-na <em>iitoko-dori<\/em>. Longe de significar que rejeitam os seus pr\u00f3prios costumes ou pr\u00e1ticas, significa antes que os sabem conservar o antigo sem todavia rejeitar o novo. Uma das raz\u00f5es que torna o Jap\u00e3o t\u00e3o apaixonante \u00e9 precisamente esta estrutura em camadas que faz prova de uma destreza admir\u00e1vel. De tal maneira assim \u00e9 que se pode visitar o pa\u00eds experimentando apenas o antigo, pois est\u00e1 l\u00e1 tudo \u2013 a arquitectura tradicional, a cerim\u00f3nia do ch\u00e1, os quimonos, as <em>geishas<\/em>, os festivais tradicionais, a arte da espada, o sumo, o xinto\u00edsmo, o budismo, o <em>zen<\/em>, etc. \u2013 ou experimentando apenas o novo, na direc\u00e7\u00e3o do futuro \u2013 arquitectura arrojada, tecnologia de ponta, m\u00fasica experimental, cidades gigantescas e ultra-modernas, etc. Futuro e passado coexistem no presente de forma quase miraculosa. Deve-se isto \u00e0 acima referida capacidade de absor\u00e7\u00e3o conhecida como <em>iitoko-dori<\/em> \u2013 adoptar os bons aspectos tanto do antigo como do moderno.<\/p>\n<p>A caracter\u00edstica <em>iitoko-dori<\/em> foi bem vis\u00edvel durante as primeiras d\u00e9cadas do s\u00e9culo XX, um per\u00edodo pouco familiar da cultura nip\u00f3nica mas nem por isso menos fascinante que a era dos x\u00f3guns e samurai ou a din\u00e2mica do p\u00f3s-guerra. A capacidade <em>iitoku-dori<\/em> estava no auge nos anos dez, vinte e trinta do s\u00e9culo passado, na era Taisho, o curto per\u00edodo de 15 anos e meio entre 1912 e 1926.<\/p>\n<p>Durante essa era, os japoneses urbanos abra\u00e7aram fervorosamente os modelos e atitudes da cultura ocidental, por vezes ao at\u00e9 ao ponto da excentricidade. Surgia ent\u00e3o, e com poderosa energia, uma nova sensibilidade. A mudan\u00e7a n\u00e3o provinha apenas do exterior, como durante a precedente era Meiji (1868-1912), mas do pr\u00f3prio interior dos japoneses. E era a juventude quem liderava o processo, um novo tipo urbano que ficou conhecido como <em>mobo<\/em> e <em>moga<\/em>, abreviatura de <em>modern boy<\/em> e <em>modern girl<\/em> (<em>modaan boi<\/em> e <em>modaan gaaru<\/em>, de acordo com a pron\u00fancia japonesa).<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.clubotaku.org\/nijiwp\/wp-content\/uploads\/2593.jpg\" alt=\"2\" width=\"640\" height=\"290\" class=\"aligncenter size-full wp-image-18420\" srcset=\"https:\/\/www.clubotaku.org\/nijiwp\/wp-content\/uploads\/2593.jpg 640w, https:\/\/www.clubotaku.org\/nijiwp\/wp-content\/uploads\/2593-300x135.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><\/p>\n<p>Os <em>mobo<\/em> (\u30e2\u30dc) eram rapazes de cabelo farto que frequentavam teatros onde eram exibidas pe\u00e7as de Ibsen, liam romances ocidentais e obras marxistas e assistiam a concertos de m\u00fasica cl\u00e1ssica ocidental. Trocavam os quimonos por fatos e os socos de madeira por sapatos de couro. As <em>moga<\/em> (\u30e2\u30ac) eram raparigas que trabalhavam fora de casa, que de modo similar trocavam os quimonos e geta (socos de madeira) por vestidos, saias e sapatos de salto alto da \u00faltima moda, usavam cabelo curto \u2013 quase um pecado mortal na sociedade tradicional \u2013 e frequentavam os caf\u00e9s Art Deco do famoso bairro da moda, Ginza, em T\u00f3quio. Ambos os sexos enchiam os caf\u00e9s e as salas de teatro e cinema. Cultivavam como maiores aspira\u00e7\u00f5es o individualismo e a auto-express\u00e3o, algo que parecia em total contradi\u00e7\u00e3o com o esp\u00edrito japon\u00eas da submiss\u00e3o ao grupo e da supress\u00e3o do ego. Os <em>mobo<\/em> e <em>moga<\/em> debatiam-se entre a sua latente criatividade e a consci\u00eancia de estarem interligados com o mundo exterior, tornando movedi\u00e7o e amb\u00edguo este per\u00edodo da hist\u00f3ria do pa\u00eds.<\/p>\n<p>Apesar do travo de optimismo incorporado pelos <em>mobo<\/em> e pelas <em>moga<\/em>, tratou-se de um per\u00edodo acossado por v\u00e1rias calamidades e tudo menos pac\u00edfico: a Primeira Grande Guerra, o Grande Terramoto de Kanto (1923), a emerg\u00eancia de movimentos de trabalhadores e sua subsequente repress\u00e3o, os motins do arroz, etc. O pa\u00eds industrializava-se rapidamente. A popula\u00e7\u00e3o agr\u00edcola mudava-se para as cidades e T\u00f3quio e Osaka transformavam-se em gigantescas capitais modernas. Varriam-nas novas ideias, como o individualismo, a democracia e o proletarianismo. Tais eventos tornavam consciente o facto de que a modernidade era, tamb\u00e9m ela, vulner\u00e1vel.<\/p>\n<p>A arte de ent\u00e3o ocupava-se em mostrar essa modernidade, tanto nos seus aspectos brilhantes de vida citadina, como nos seus aspectos mais angustiantes, como a pobreza de certos bairros ou das zonas rurais. Os artistas faziam-no nos estilos prevalecentes nas artes visuais: yoga, influenciada pelo modo de pintar ocidental, o \u00f3leo e a aguarela, a perspectiva e o <em>chiaroscuro<\/em>; ou <em>nihonga<\/em>, a pintura neo-tradicionalista, a tinta, reac\u00e7\u00e3o \u00e0 moda da pintura a \u00f3leo dos finais do s\u00e9c. XIX. In\u00fameros pintores se estabeleciam ent\u00e3o nas capitais ocidentais da arte, sobretudo Paris, que fervilhava ent\u00e3o de movimentos avant-garde: construtivismo, dada, futurismo, surrealismo&#8230;<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.clubotaku.org\/nijiwp\/wp-content\/uploads\/3540.jpg\" alt=\"3\" width=\"640\" height=\"290\" class=\"aligncenter size-full wp-image-18418\" srcset=\"https:\/\/www.clubotaku.org\/nijiwp\/wp-content\/uploads\/3540.jpg 640w, https:\/\/www.clubotaku.org\/nijiwp\/wp-content\/uploads\/3540-300x135.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><\/p>\n<p>Os japoneses absorviam-nos a todos e transplantavam-nos depois para o seu pa\u00eds natal, para l\u00e1 da grande circula\u00e7\u00e3o de informa\u00e7\u00e3o que j\u00e1 existia, sob a forma de livros, imprensa escrita e exposi\u00e7\u00f5es. A arte tornou-se t\u00e9cnica e conceptualmente experimentalista. Os resultados foram, na sua maior parte, um tanto h\u00edbridos e algo como \u201cd\u00e9j\u00e0 vu mas de olhos em bico\u201d. Esta era fervilhante terminaria logo a meio dos anos trinta, com o ressurgimento em for\u00e7a do militarismo e do esp\u00edrito ultra-nacionalista. No entanto, residiu ali o germe de toda a pujan\u00e7a que o Jap\u00e3o exibe hoje \u2013 em mat\u00e9ria de arquitectura moderna, design industrial, desenho gr\u00e1fico, cinema, moda, m\u00fasica e arte em geral. No \u00e2mbito da arte, as etiquetas nacionalistas come\u00e7aram a deixar de fazer sentido, antecipando o que sucede hoje em dia, quando se torna absurdo falar de uma arte americana, francesa ou chinesa. A capacidade <em>iitoko-dori<\/em> pode, assim, ser considerada um tra\u00e7o \u201cmoderno\u201d <em>avant la lettre<\/em>, j\u00e1 que os nip\u00f3nicos a apresentam desde h\u00e1 muitos s\u00e9culos atr\u00e1s. Os japoneses s\u00e3o modernos h\u00e1 j\u00e1 longo tempo. Talvez por isso se tenham adaptado t\u00e3o facilmente \u00e0quilo que n\u00f3s, no ocidente, chamamos modernidade.<\/p>\n<p>Ainda hoje, o povo japon\u00eas nutre um afecto especial pelos dias brilhantes e fr\u00e1geis do Taisho Chic, pela sua atmosfera rom\u00e2ntica e algo decadente. De tal modo assim \u00e9 que existem restaurantes e hot\u00e9is no estilo Taisho, assim como est\u00fadios de fotografia que cujas fotografias seguem o estilo predominante no tempo. <em>Tsigoineruwaizen<\/em> \u00e9 um filme de 1980, dirigido por Suzuki Seijun, que retrata a \u00e9poca. Um filme mais recente, <em>Haru no Yuki<\/em> (Neve da Primavera), baseado no romance de Yukio Mishima, situa-se igualmente na era Taisho.<\/p>\n<p><strong>Escrito por: Cl\u00e1udia Ribeiro<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Os japoneses t\u00eam, como povo, uma caracter\u00edstica bem conhecida \u2013 a capacidade de adoptar com facilidade costumes ou pr\u00e1ticas estrangeiras. 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