{"id":19349,"date":"2015-04-15T20:22:03","date_gmt":"2015-04-15T21:22:03","guid":{"rendered":"http:\/\/www.clubotaku.org\/niji\/?p=19349"},"modified":"2017-11-07T19:37:10","modified_gmt":"2017-11-07T20:37:10","slug":"cowboy-bebop-tengoku-no-tobira","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.clubotaku.org\/niji\/anime\/cowboy-bebop-tengoku-no-tobira\/","title":{"rendered":"Cowboy Bebop: Tengoku no Tobira"},"content":{"rendered":"<p>Alva City, Marte, v\u00e9speras do Halloween de 2071. Ao perseguir um hacker com a cabe\u00e7a a pr\u00e9mio, Faye Valentine (Hayashibara) cruza-se com um indiv\u00edduo que provoca uma violenta explos\u00e3o numa art\u00e9ria movimentada da cidade e desaparece sem deixar rasto. Al\u00e9m de elevada mortandade, o atentado liberta um organismo cuja natureza as autoridades n\u00e3o conseguem identificar e que causa a hospitaliza\u00e7\u00e3o de um grande n\u00famero de cidad\u00e3os. No interior da nave Bebop, Spike (Yamadera), Jet (Ishizuka) e Ed (Tada), assistem \u00e0s reivindica\u00e7\u00f5es de um suposto terrorista que amea\u00e7a prosseguir os ataques contra a cidade. As investiga\u00e7\u00f5es levam os ca\u00e7adores de pr\u00e9mio na pista de um homem chamado Vincent (Isobe Tsutomu) e de uma corpora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00abCowboy Bebop: Knocking on Heaven&#8217;s Door\u00bb, rebaptizado \u00abThe Movie\u00bb para o lan\u00e7amento nos EUA, talvez para evitar confus\u00f5es de direitos de autor relacionados com a can\u00e7\u00e3o de Bob Dylan, situa-se cronologicamente entre os epis\u00f3dios 22 e 23 da popular s\u00e9rie de TV japonesa. A informa\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 relevante no sentido de ser necess\u00e1ria para situar a audi\u00eancia, implicando que quem n\u00e3o esteja familiarizado com a s\u00e9rie n\u00e3o possa entender plenamente o ponto de partida do filme. N\u00e3o \u00e9 assim, de todo, pois a presente obra \u00e9 plenamente estanque, a n\u00edvel narrativo, ainda que os cineastas n\u00e3o percam tempo com a necessidade de &#8220;apresentar&#8221; as personagens, inserindo dados redundantes para os espectadores da s\u00e9rie de TV.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.clubotaku.org\/nijiwp\/wp-content\/uploads\/11015.jpg\" alt=\"1\" width=\"640\" height=\"290\" class=\"aligncenter size-full wp-image-19351\" srcset=\"https:\/\/www.clubotaku.org\/nijiwp\/wp-content\/uploads\/11015.jpg 640w, https:\/\/www.clubotaku.org\/nijiwp\/wp-content\/uploads\/11015-300x136.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><\/p>\n<p>A s\u00e9rie &#8220;Cowboy Bebop&#8221; (1998) j\u00e1 era profundamente &#8220;cinem\u00e1tica&#8221;, tanto na concep\u00e7\u00e3o visual, como na pr\u00f3pria estrutura dos epis\u00f3dios \u2013 alguns dos quais assumidamente baseados em obras cinematogr\u00e1ficas, como o n\u00famero 11, que emula \u00abAlien\u00bb \u2013, de modo que n\u00e3o havia propriamente uma forte curiosidade sobre o modo como Watanabe Shinichiro iria conceber um &#8220;epis\u00f3dio&#8221; cinematogr\u00e1fico. Al\u00e9m do mais, a grande qualidade da anima\u00e7\u00e3o e o cuidado posto na concep\u00e7\u00e3o de alguns epis\u00f3dios, tamb\u00e9m teriam de reduzir necessariamente a sensa\u00e7\u00e3o de que estarmos perante algo muito melhor, no que aos aspectos formais diz respeito. Em todo o caso, partir para o visionamento de qualquer filme \u2013 seja de anima\u00e7\u00e3o ou de imagem real \u2013 com expectativas assentes meramente em aspectos t\u00e9cnicos n\u00e3o \u00e9 uma atitude que favore\u00e7a a sua aprecia\u00e7\u00e3o. Posto isto de parte, conv\u00e9m esclarecer que o or\u00e7amento superior e o diferente ritmo de produ\u00e7\u00e3o permitiram, naturalmente, um maior refinamento da anima\u00e7\u00e3o e uma maior aten\u00e7\u00e3o ao detalhe.<\/p>\n<p>Watanabe \u00e9 um realizador de anima\u00e7\u00e3o com uma vis\u00e3o de cinema que aproveita as vantagens do meio e n\u00e3o se deixa prender pelas suas desvantagens. As vantagens \u00f3bvias s\u00e3o a concep\u00e7\u00e3o de cenas dif\u00edceis de conceber em imagem real (com base no conceito que toda a anima\u00e7\u00e3o \u00e9 um &#8220;efeito especial&#8221;). Uma desvantagem da anima\u00e7\u00e3o (tradicional) \u00e9 que a c\u00e2mara \u00e9 fixa e todo o movimento \u00e9 concebido de forma artificial, com recurso a computadores ou desenho a desenho, mas aqui, como noutros trabalhos do realizador, consegue-se transmitir ao espectador a presen\u00e7a da lente, a captar a ac\u00e7\u00e3o in loco. Watanabe recorre a toda a esp\u00e9cie de movimentos de &#8220;c\u00e2mara&#8221;, em cenas de ac\u00e7\u00e3o ou est\u00e1ticas, por modo a acentuar determinado efeito dram\u00e1tico, bem como a efeitos &#8220;\u00f3pticos&#8221; de zoom ou a desfocagem, natural quando o operador \u00e9 surpreendido por algo e n\u00e3o teve ainda tempo de o enquadrar e focar correctamente. Tome-se, como ilustra\u00e7\u00e3o, o primeiro contacto de Faye com Vincent, ainda envolto numa aura de mist\u00e9rio, e o modo como a c\u00e2mara \u2013 ou o ponto de vista de Faye \u2013 procura o rosto dele ou ainda as sequ\u00eancias que ilustram a vis\u00e3o nebulosa, pr\u00f3xima da morte, das v\u00edtimas do v\u00edrus. A execu\u00e7\u00e3o de um destes efeitos \u00e9 ilustrada no making of de \u00abA Kid&#8217;s Story\u00bb (uma das curtas &#8220;Animatrix&#8221;) e a sua simplicidade \u00e9 surpreendente: uma sequ\u00eancia animada \u00e9 manipulada atrav\u00e9s do rato de um computador, conferindo-lhe um aspecto de c\u00e2mara \u00e0 m\u00e3o. O projecto dos irm\u00e3os Wachowski, ali\u00e1s, ser\u00e1 o filme-autocolante de Watanabe (\u00e9 inevit\u00e1vel que qualquer lan\u00e7amento dos seus filmes, novos ou antigos, leve com &#8220;do realizador de Animatrix&#8221; coladinho na capa).<\/p>\n<p>O excelente resultado final de \u00abCowboy Bebop: Knocking on Heaven&#8217;t Door\u00bb n\u00e3o assenta naturalmente no talento de um \u00fanico homem (nem o cinema \u00e9, por natureza, a arte de um indiv\u00edduo isolado, ainda que existam excep\u00e7\u00f5es, puras ou aproxima\u00e7\u00f5es). Al\u00e9m da produ\u00e7\u00e3o ter recorrido a uma infinidade de est\u00fadios de anima\u00e7\u00e3o \u2013 japoneses, mas tamb\u00e9m coreanos e chineses (a ficha t\u00e9cnica parece n\u00e3o terminar) \u2013, Watanabe \u00e9 secundado por um realizador de anima\u00e7\u00e3o de ac\u00e7\u00e3o (Nakamura Yutaka) e outro de anima\u00e7\u00e3o mec\u00e2nica (Goto Masami), al\u00e9m do director geral de anima\u00e7\u00e3o (e designer de personagens) Kawamoto Toshihiro. Nada \u00e9 deixado ao acaso e todas estas vertentes do filme s\u00e3o brilhantemente executadas, com uma perfeita harmoniza\u00e7\u00e3o entre elas. Na verdade, por compara\u00e7\u00e3o com a generalidade dos filmes de artes marciais mais recentes, afectados por alguma hollywoodiza\u00e7\u00e3o, produzidos num ou noutro continente, \u00abCowboy Bebop\u00bb apresenta uma \u00f3ptima coreografia nos combates corpo-a-corpo. Spike tem treino em Jeet Kune Do, a arte marcial desenvolvida por Bruce Lee, e os animadores conseguem capturar alguns movimentos f\u00edsicos t\u00edpicos do actor, em particular os passos de &#8220;dan\u00e7a&#8221; que precedem um dos confrontos.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.clubotaku.org\/nijiwp\/wp-content\/uploads\/2629.jpg\" alt=\"2\" width=\"640\" height=\"290\" class=\"aligncenter size-full wp-image-19352\" srcset=\"https:\/\/www.clubotaku.org\/nijiwp\/wp-content\/uploads\/2629.jpg 640w, https:\/\/www.clubotaku.org\/nijiwp\/wp-content\/uploads\/2629-300x136.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><\/p>\n<p>Com Jet relegado para os bastidores, depois da cena de abertura, o filme centra-se nas movimenta\u00e7\u00f5es de Faye e Spike, por diferentes cen\u00e1rios e em oposi\u00e7\u00e3o directa a duas personagens cujas motiva\u00e7\u00f5es demoram a tornar-se claras, respectivamente, Vincent e Electra (Kobayashi Ai). N\u00e3o se perde muito tempo a construir emparelhamentos rom\u00e2nticos casuais, mas n\u00e3o se deixa de insinuar algumas possibilidades (noutro tempo, noutro lugar, quem sabe). A ac\u00e7\u00e3o f\u00edsica surge naturalmente inserida no fluir da ac\u00e7\u00e3o, mas h\u00e1 uma sequ\u00eancia de combate a\u00e9reo que parece algo desnecess\u00e1ria. H\u00e1 um bom equil\u00edbrio entre um tom s\u00e9rio, com alguns laivos filos\u00f3ficos, e algum humor slapstick ou a vertente de uma anima\u00e7\u00e3o mais irreal e &#8220;cartoon&#8221;, substanciada na personagem de Ed. O vil\u00e3o, ainda que, em abstracto, possa fazer lembrar os t\u00edpicos megal\u00f3manos de algum destroy-cinema, querendo aniquilar o mundo inteiro (no caso, Marte), \u00e9 mais complexo do que numa primeira an\u00e1lise possa parecer, em particular quando se nos d\u00e1 a conhecer melhor, \u00e0 medida que a narrativa se desenvolve.<\/p>\n<p>Alva City, o cen\u00e1rio onde a hist\u00f3ria decorre, \u00e9 uma megal\u00f3pole, cultural e etnicamente diversificada, com bairros e zonas t\u00edpicas das grandes cidades (algumas cenas passam-se num bairro marroquino, que apresenta escadarias que poderiam pertencer \u00e0 Mouraria ou Alfama, em Lisboa). A linguagem escrita \u00e9 muito diversa, com emiss\u00f5es televisivas a apresentarem suporte nas duas mais universais (ingl\u00eas e chin\u00eas). Fica por saber se \u00e9 suposto que o japon\u00eas se tenha tornado a l\u00edngua de elei\u00e7\u00e3o do futuro ou se \u00e9 suposto abstrairmo-nos dessa quest\u00e3o (isto \u00e9, tratar-se-ia da l\u00edngua de produ\u00e7\u00e3o do filme\/s\u00e9rie n\u00e3o necessariamente a l\u00edngua \u201creal\u201d que as personagens est\u00e3o a usar). Em todo o caso parece um racioc\u00ednio algo pregui\u00e7oso e dificilmente sustent\u00e1vel defender a qualidade da dobragem em ingl\u00eas (\u00e9 surpreendente o n\u00famero de pessoas que a afirmam superior \u00e0 pista original, mesmo entre os que declaram que normalmente preferem as VOs) com base em estarmos, supostamente, num mundo angl\u00f3fono. N\u00e3o \u00e9 certamente o caso.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.clubotaku.org\/nijiwp\/wp-content\/uploads\/3575.jpg\" alt=\"3\" width=\"640\" height=\"290\" class=\"aligncenter size-full wp-image-19350\" srcset=\"https:\/\/www.clubotaku.org\/nijiwp\/wp-content\/uploads\/3575.jpg 640w, https:\/\/www.clubotaku.org\/nijiwp\/wp-content\/uploads\/3575-300x136.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><\/p>\n<p>\u00abCowboy Bebop: Tengoku no Tobira\u00bb \u00e9 um bom filme de ac\u00e7\u00e3o, sem ced\u00eancias \u00e0 sua origem televisiva, sobrevivendo perfeitamente como objecto isolado. Tem poucas ou nenhumas rela\u00e7\u00f5es com o estilo &#8220;abonecado&#8221; da mais popular anima\u00e7\u00e3o ocidental ou da menos interessante anima\u00e7\u00e3o japonesa. S\u00f3 uma grande falta de habitua\u00e7\u00e3o a obras de anima\u00e7\u00e3o com esta complexidade \u00e9 que pode estar na origem de quest\u00f5es algo absurdas como aquela com que deparamos no n\u00famero de Setembro, da genericamente respeit\u00e1vel revista brit\u00e2nica Sight &#038; Sound, no texto assinado por Andrew Osmond. O cr\u00edtico questiona-se porque \u00e9 que uma hist\u00f3ria t\u00e3o &#8220;hiper-realista&#8221; e t\u00e3o pouco &#8220;cartoony&#8221; n\u00e3o foi produzida em imagem real. Respondendo \u00e0 sua pr\u00f3pria pergunta, arrisca dizendo que seria para melhor salientar o melodrama &#8220;larger-than-life&#8221; da hist\u00f3ria. Se confundir anima\u00e7\u00e3o com um &#8220;g\u00e9nero&#8221; n\u00e3o \u00e9 infrequente no espectador casual, para quem um filme animado \u00e9 uma forma de passar algum tempo com os mi\u00fados e que associa automaticamente a anima\u00e7\u00e3o a cinema infantil, apto para visionamento familiar (80 minutos de inconsequ\u00eancias, n\u00fameros musicais, Mal e Bem muito bem definidos e comic-relieves concebidos de acordo com o seu potencial de bonecos de peluche ou brindes num restaurante de fast-food), n\u00e3o se entende como \u00e9 que tal equ\u00edvoco \u00e9 expresso por um profissional, nas p\u00e1ginas de uma revista conceituada.<\/p>\n<p>Uma palavra final (muito) positiva para o tratamento dado pela Columbia ao filme (n\u00e3o ser\u00e1 apenas por ser japon\u00eas como a companhia m\u00e3e, a Sony): a \u00fanica altera\u00e7\u00e3o \u2013 se \u00e9 que merece, sequer, tal defini\u00e7\u00e3o \u2013 foi um t\u00edtulo ingl\u00eas banal simplista, em substitui\u00e7\u00e3o do t\u00edtulo oficial original, que acompanhou as c\u00f3pias em festivais de cinema. \u00c9 uma pena que a atitude n\u00e3o seja partilhada pela Disney e suas subsidi\u00e1rias, quando adquirem t\u00edtulos estrangeiros. Com a entrada em cena da Dreamworks, que j\u00e1 adquiriu \u00abMilleniun Actress\u00bb, de Kon Satoshi, e a sequela de \u00abGhost in the Shell\u00bb, esperando-se a disponibiliza\u00e7\u00e3o generalizada das vers\u00f5es originais desses filmes, pode ser que a companhia do Rato Mickey acabe por mudar de m\u00e9todos de trabalho.<\/p>\n<p><strong>Escrito por: Luis Canau (www.asia.cinedie.com)<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Alva City, Marte, v\u00e9speras do Halloween de 2071. 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