{"id":22288,"date":"2016-06-11T18:43:52","date_gmt":"2016-06-11T19:43:52","guid":{"rendered":"http:\/\/www.clubotaku.org\/niji\/?p=22288"},"modified":"2016-06-11T18:43:52","modified_gmt":"2016-06-11T19:43:52","slug":"traces-of-a-diary","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.clubotaku.org\/niji\/cinem\/traces-of-a-diary\/","title":{"rendered":"Traces of a Diary"},"content":{"rendered":"<p><em>Traces of a Diary<\/em> (2010) \u00e9 um filme de Marco Martins e Andr\u00e9 Pr\u00edncipe que leva o espectador numa viagem pelo processo e carreira de grandes fot\u00f3grafos japoneses, nomeadamente Daido Moriyama, Nobuyoshi Araki, Takuma Nakahira, Hiromix, Kajii Syoin e Kohei Yoshiyuki.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-22289\" src=\"http:\/\/www.clubotaku.org\/nijiwp\/wp-content\/uploads\/tracesofadiary01.png\" alt=\"tracesofadiary01\" width=\"640\" height=\"290\" srcset=\"https:\/\/www.clubotaku.org\/nijiwp\/wp-content\/uploads\/tracesofadiary01.png 640w, https:\/\/www.clubotaku.org\/nijiwp\/wp-content\/uploads\/tracesofadiary01-300x136.png 300w\" sizes=\"(max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><\/p>\n<p>Os primeiros minutos de <em>Traces of a Diary<\/em> funcionam como uma esp\u00e9cie de introdu\u00e7\u00e3o \u00e0 obra. O fot\u00f3grafo Gerry Badger fala-nos um pouco da hist\u00f3ria da fotografia do p\u00f3s-guerra japon\u00eas onde, at\u00e9 1959, n\u00e3o era permitida a publica\u00e7\u00e3o em massa de fotografias tiradas sobre os bombardeamentos de Hiroshima e Nagasaki, numa tentativa de apagar o Passado. Isto leva fot\u00f3grafos a usarem uma arte mais metaf\u00f3rica com elementos como a \u00e1gua, o fogo, as explos\u00f5es, as luzes, entre outros. Verdadeiras imagens de um \u201capocalipse\u201d que juntas criam, nas palavras de Badger: \u201clivros maravilhosamente esquizofr\u00e9nicos\u201d.<\/p>\n<p>No final da d\u00e9cada de 1960 e in\u00edcios da d\u00e9cada de 1970, os fot\u00f3grafos japoneses come\u00e7am a interessar-se pelo diar\u00edstico, uma fotografia mais documental que procura registar o mundo e as experi\u00eancias de quem est\u00e1 por detr\u00e1s da c\u00e2mara. \u00c0 semelhan\u00e7a do que acontece no Cinema (e neste filme em particular) a ideologia de que a c\u00e2mara consegue ser objetiva ou imparcial come\u00e7a a cair por terra, e florescem v\u00e1rias obras que abra\u00e7am o subjetivo, a capacidade de registo do mundo pelos olhos de outro, n\u00e3o numa tentativa de mostrar o mundo como ele \u00e9 mas partilhando experi\u00eancias \u00fanicas e muito pessoais.<\/p>\n<p>Os fot\u00f3grafos japoneses mergulham no expressionismo e na capacidade de fazer uma fotografia r\u00e1pida e espont\u00e2nea (conhecida como snapshot, algo poss\u00edvel gra\u00e7as \u00e0s novas c\u00e2maras, mais compactas, baratas e f\u00e1ceis de mover e usar), e com esta nova forma de criar contam hist\u00f3rias sobre o seu mundo, a sua cultura mas tamb\u00e9m sobre eles pr\u00f3prios (os seus gostos, as suas experi\u00eancias, as suas ideologias).<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-22290\" src=\"http:\/\/www.clubotaku.org\/nijiwp\/wp-content\/uploads\/tracesofadiary02.png\" alt=\"tracesofadiary02\" width=\"640\" height=\"290\" srcset=\"https:\/\/www.clubotaku.org\/nijiwp\/wp-content\/uploads\/tracesofadiary02.png 640w, https:\/\/www.clubotaku.org\/nijiwp\/wp-content\/uploads\/tracesofadiary02-300x136.png 300w\" sizes=\"(max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><\/p>\n<p>Somos apresentados primeiro a Daido Moriyama, fotografo nascido em 1938 que olha a Fotografia como uma c\u00f3pia da realidade, um registo que n\u00e3o deixa espa\u00e7o para a cria\u00e7\u00e3o de uma hist\u00f3ria fict\u00edcia sobre os objetos fotografados, levando-o consequentemente a ver os seus livros como um di\u00e1rio, uma mem\u00f3ria das suas experi\u00eancias.<\/p>\n<p>Moriyama, galardoado com um Infinity Award pelo International Center of Photography de Nova Iorque em 2012, cria caminhando pelas ruas de Shinjuku, local predileto que escolhe para os seus \u201cStreet Snaps\u201d, m\u00e9todo onde o artista fotografa espontaneamente o que vai encontrando pelas ruas. No final deste processo nascem livros que n\u00e3o possuem um tema determinado, repletos de imagens \u201caleat\u00f3rias\u201d sejam elas de pessoas, cartazes, animais, ou qualquer outro objeto. Como Moriyama afirma no document\u00e1rio: \u201cQuando fotografo no meu dia-a-dia, alguma coisa vai atrair a minha aten\u00e7\u00e3o. E ent\u00e3o aproximo-me. Procuro o significado enquanto crio, e ele aparece. E quando o resultado \u00e9 algo ca\u00f3tico fico satisfeito. N\u00e3o gosto dele demasiado organizado\u201d.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-22295\" src=\"http:\/\/www.clubotaku.org\/nijiwp\/wp-content\/uploads\/tracesofadiary07.png\" alt=\"tracesofadiary07\" width=\"640\" height=\"290\" srcset=\"https:\/\/www.clubotaku.org\/nijiwp\/wp-content\/uploads\/tracesofadiary07.png 640w, https:\/\/www.clubotaku.org\/nijiwp\/wp-content\/uploads\/tracesofadiary07-300x136.png 300w\" sizes=\"(max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><\/p>\n<p>Kohei Yoshiyuki (1946) \u00e9 o segundo fot\u00f3grafo que encontramos no document\u00e1rio. Levado pelo desejo de fotografar algo que ningu\u00e9m conhecesse, Yoshiyuki escolhe como objeto do seu trabalho os parques de Shinjuku e Yoyogi, parques bastante pol\u00e9micos onde \u00e0 noite se podem encontrar in\u00fameros amantes.<\/p>\n<p>Durante dois anos deslocava-se at\u00e9 este parque quase diariamente, levando consigo uma pequena e discreta c\u00e2mara com infravermelhos. Este h\u00e1bito culminou em rumores de que o artista seria apenas mais um \u201cvoyeur\u201d, homens que se deslocavam at\u00e9 ao parque para espiar os casais, chegando mesmo a aproximar-se sem que eles dessem por isso. Curiosamente em resposta, Yoshiyuki comenta: \u201cFotografar \u00e9 isso, na sua ess\u00eancia, n\u00e3o \u00e9? Fotografar \u00e9 um acto de espiar\u201d.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-22291\" src=\"http:\/\/www.clubotaku.org\/nijiwp\/wp-content\/uploads\/tracesofadiary03.png\" alt=\"tracesofadiary03\" width=\"640\" height=\"290\" srcset=\"https:\/\/www.clubotaku.org\/nijiwp\/wp-content\/uploads\/tracesofadiary03.png 640w, https:\/\/www.clubotaku.org\/nijiwp\/wp-content\/uploads\/tracesofadiary03-300x136.png 300w\" sizes=\"(max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><\/p>\n<p>Passando de um desejo de fotografar o outro chegamos a Hiromix, nome art\u00edstico de Hiromi Toshikawa. Nascida em 1976 a fot\u00f3grafa dedica o seu trabalho a auto-retratos que servem como um di\u00e1rio de pensamentos e sentimentos ligados a determinada \u00e9poca.<br \/>\nQuando come\u00e7ou, por volta dos 18 anos, a artista usou a sua arte para registar uma altura de transforma\u00e7\u00e3o que poderia rever mais tarde. As suas obras permitem-lhe ainda aceder ao seu interior, ajudando-a a refletir sobre quem realmente \u00e9. Nas palavras de Hiromix: \u201cFotografar o meu rosto n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 mostrar a minha apar\u00eancia, mas o meu interior tamb\u00e9m\u201d. Apesar disto, depressa o seu trabalho foi alvo de v\u00e1rias cr\u00edticas que descreviam a sua arte como narcisista.<\/p>\n<p>Hiromix possui ainda fotografias de outras pessoas na sua maioria em momentos felizes, transmitindo ao observador a alegria de quem fora fotografado. Ao perceber a sua beleza, a fot\u00f3grafa consegue mostrar aos outros a sua pr\u00f3pria beleza.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-22292\" src=\"http:\/\/www.clubotaku.org\/nijiwp\/wp-content\/uploads\/tracesofadiary04.png\" alt=\"tracesofadiary04\" width=\"640\" height=\"290\" srcset=\"https:\/\/www.clubotaku.org\/nijiwp\/wp-content\/uploads\/tracesofadiary04.png 640w, https:\/\/www.clubotaku.org\/nijiwp\/wp-content\/uploads\/tracesofadiary04-300x136.png 300w\" sizes=\"(max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><\/p>\n<p>Fugindo da confus\u00e3o das cidades viajamos at\u00e9 \u00e0 Ilha de Sato onde conhecemos Syion Kajii, um monge budista que fotografa o mar, cuja viol\u00eancia lhe transmite energia. O seu av\u00f4 era o respons\u00e1vel pelo templo e desde crian\u00e7a que tem uma grande liga\u00e7\u00e3o n\u00e3o apenas com o templo mas com a ilha em si.<\/p>\n<p>Apesar da religi\u00e3o Kajii tenta abstrair-se dela ainda que, claro, n\u00e3o se desligue totalmente. Nas palavras do fot\u00f3grafo: \u201cNo sutra, o som funde-se com as palavras e tornam-se um s\u00f3. Ent\u00e3o come\u00e7o a concentrar-me. No caso das ondas, observo-as intensamente e ligo-as \u00e0s imagens, e essa sensa\u00e7\u00e3o fugaz das ondas assemelha-se aos sutras\u201d.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-22293\" src=\"http:\/\/www.clubotaku.org\/nijiwp\/wp-content\/uploads\/tracesofadiary05.png\" alt=\"tracesofadiary05\" width=\"640\" height=\"290\" srcset=\"https:\/\/www.clubotaku.org\/nijiwp\/wp-content\/uploads\/tracesofadiary05.png 640w, https:\/\/www.clubotaku.org\/nijiwp\/wp-content\/uploads\/tracesofadiary05-300x136.png 300w\" sizes=\"(max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><\/p>\n<p><em>Traces of a Diary<\/em> termina com um dois dos grandes mestres, Takuma Nakahira e Nobuyoshi Araki, mencionado no in\u00edcio do filme por Gerry Badger.<\/p>\n<p>Permanecemos alguns momentos com Takuma Nakahira (1938 &#8211; 2015) \u00a0enquanto este passeia por Shinjuku e ficamos a saber que gosta especialmente de fotografar paisagens. Nakahira era, para al\u00e9m de fot\u00f3grafo, um cr\u00edtico de Fotografia.<\/p>\n<p>Quanto a Nobuyoshi Araki (1940) , encontramos este outro mestre num bar de karaoke onde a conversa \u00e9 bastante casual. \u00c0 semelhan\u00e7a de Daido Moriyama, Araki v\u00ea a fotografia como uma forma de viver, uma forma de registar a sua vida. O artista continua ainda dizendo que quando est\u00e1 de mau humor, as fotografias acabam por refletir esse estado. Para Araki: \u201c\u00c9 foto-realismo. \u00c9 a realidade da fotografia\u201d. Os seus \u00e1lbuns s\u00e3o constitu\u00eddos, devido a isto, n\u00e3o apenas pelos momentos felizes ou mais \u00edntimos, mas tamb\u00e9m por momentos mais infelizes, como um gato morto na rua.<\/p>\n<p>Depressa percebemos tamb\u00e9m que Araki se foca bastante no nu feminino atrav\u00e9s das fotografias na sala de karaoke e pela t-shirt que utiliza. Em tom de brincadeira, ou n\u00e3o, revela ainda que fotografa a mulher e coloca a sua imagem na t-shirt para que esta n\u00e3o fuja.<\/p>\n<p>\u201cQuer seja um Passado ou um Presente que nos incomoda, ou um Futuro que idealizamos, dar-lhe forma num peda\u00e7o de papel \u00e9 a nossa fun\u00e7\u00e3o\u201d. \u00c9 com esta frase que nos despedimos de Araki e chegamos ao fim desta obra.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-22294\" src=\"http:\/\/www.clubotaku.org\/nijiwp\/wp-content\/uploads\/tracesofadiary06.png\" alt=\"tracesofadiary06\" width=\"640\" height=\"290\" srcset=\"https:\/\/www.clubotaku.org\/nijiwp\/wp-content\/uploads\/tracesofadiary06.png 640w, https:\/\/www.clubotaku.org\/nijiwp\/wp-content\/uploads\/tracesofadiary06-300x136.png 300w\" sizes=\"(max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><\/p>\n<p>Este \u00e9 de facto um document\u00e1rio imperd\u00edvel para os amantes do Cinema e da Fotografia. A obra \u00e9 um verdadeiro ensaio fotogr\u00e1fico em si sendo uma mistura das imagens capturadas com duas Krasnogork-3 (16mm) e uma edi\u00e7\u00e3o\/montagem bastante interessante. H\u00e1 semelhan\u00e7a do que acontece com os fot\u00f3grafos,<em> Traces of a Diary<\/em> acaba por ser isso mesmo, um di\u00e1rio da ida da equipa ao Jap\u00e3o, dos seus encontros e experi\u00eancias.<\/p>\n<p>O document\u00e1rio \u00e9 ainda bastante influenciado pelo objeto que filma: segue Daido Moriyama, foca-se nas fotos pol\u00e9micas de Kohei Yoshiyuki, anda em volta do rosto de Hiromix, e funde-se com o som do mar enquanto observamos Kajii Syoin.<\/p>\n<p>Curiosamente, a forma como algumas sequ\u00eancias est\u00e3o filmadas (em especial quando seguimos os fot\u00f3grafos) juntamente com o som da c\u00e2mara de filmar, d\u00e1 a sensa\u00e7\u00e3o de que estamos realmente a seguir os artistas. Mergulhamos no ponto de vista da c\u00e2mara como se nos fund\u00edssemos com ela.<\/p>\n<p><strong>Escrito por: \u00c2ngela Costa (@angelaookami)<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Traces of a Diary (2010) \u00e9 um filme de Marco Martins e Andr\u00e9 Pr\u00edncipe que leva o espectador numa viagem pelo processo e carreira de grandes fot\u00f3grafos japoneses, nomeadamente Daido&nbsp;[ &hellip; ]<\/p>\n","protected":false},"author":22,"featured_media":22293,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1283,12],"tags":[5297,5298,5301,5302,5303,5296,5299,5300,5304],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.clubotaku.org\/niji\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/22288"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.clubotaku.org\/niji\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.clubotaku.org\/niji\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.clubotaku.org\/niji\/wp-json\/wp\/v2\/users\/22"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.clubotaku.org\/niji\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=22288"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/www.clubotaku.org\/niji\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/22288\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":22298,"href":"https:\/\/www.clubotaku.org\/niji\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/22288\/revisions\/22298"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.clubotaku.org\/niji\/wp-json\/wp\/v2\/media\/22293"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.clubotaku.org\/niji\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=22288"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.clubotaku.org\/niji\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=22288"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.clubotaku.org\/niji\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=22288"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}