{"id":7677,"date":"2001-01-01T00:00:00","date_gmt":"2001-01-01T00:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.clubotaku.org\/nijiwp\/?p=7677"},"modified":"2001-01-01T00:00:00","modified_gmt":"2001-01-01T00:00:00","slug":"de-mother-sarah-a-akira","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.clubotaku.org\/niji\/artigos\/de-mother-sarah-a-akira\/","title":{"rendered":"De Mother Sarah a Akira"},"content":{"rendered":"<p><split><br \/>Os Manga (nome dado &agrave; Banda Desenhada japonesa), apesar das diferen&ccedil;as culturais e narrativas espec&iacute;ficas da cultura japonesa que os produz, souberam conquistar facilmente o mercado ocidental da BD, num processo espont&acirc;neo, que decorreu ao longo dos anos 90, contando, muitas vezes com o aux&iacute;lio importante das s&eacute;ries de anima&ccedil;&atilde;o japonesas, muitas delas baseadas em mang&aacute;s de sucesso, como foi o caso do Dragon Ball de Akira Toryama. O resultado foi um sucesso comercial fulgurante,  que faz com que actualmente, a maioria das editoras francesas tenham uma colec&ccedil;&atilde;o mang&aacute; no seu cat&aacute;logo e algumas, como a Tonkam, se dediquem apenas a este g&eacute;nero.<\/p>\n<p>Mesmo que as editoras japonesas n&atilde;o tenham tido que se esfor&ccedil;ar muito para isso, os mang&aacute; invadiram literalmente as livrarias e quiosques de toda a Europa. Bem&#8230; toda n&atilde;o, pois, tal como nas hist&oacute;rias de Asterix, um pequeno pa&iacute;s &agrave; beira-mar plantado, resistia ainda ao invasor japon&ecirc;s&#8230; At&eacute; agora! <br \/>Depois da experi&ecirc;ncia falhada da Texto Editora com as s&eacute;ries Styker e Ramna &frac12;, a Merib&eacute;rica\/liber, decidiu tamb&eacute;m ela apostar nos mang&aacute;, come&ccedil;ando por publicar a mega-s&eacute;rie Akira, j&aacute; no 11&ordm; volume, a que se seguem agora os dois primeiros volumes de Mother Sarah, outra cria&ccedil;&atilde;o de Katshuiro Otomo, com desenhos de Takumi Nagayasu.<\/p>\n<p>O VIOLENTO DESPERTAR DE AKIRA<\/p>\n<p>Justamente considerado como o ponta de lan&ccedil;a da invas&atilde;o japonesa, Akira chegou ao Ocidente em finais da d&eacute;cada de 80, atrav&eacute;s da Epic Comics, uma companhia subsidi&aacute;ria da Marvel que, numa tentativa de adequar a s&eacute;rie aos padr&otilde;es dos leitores americanos, publicou Akira em formato comic-book e numa vers&atilde;o colorida por computador por Steve Oliff, que est&aacute; na origem das restantes vers&otilde;es europeias, incluindo a da Merib&eacute;rica.<br \/>Iniciada em 1982, nas p&aacute;ginas da revista YOUNG MAGAZINE, Akira nasceu a partir de uma sugest&atilde;o do editor de Otomo, que lhe pediu uma hist&oacute;ria de adolescentes. O que era para ser inicialmente uma hist&oacute;ria de 200 p&aacute;ginas foi-se complicando e evoluindo, at&eacute; dar origem a um &eacute;pico de mais de 2.000 p&aacute;ginas de ac&ccedil;&atilde;o ininterrupta, que se l&ecirc;em de um f&ocirc;lego.<\/p>\n<p>Apesar do seu extraordin&aacute;rio sucesso, Akira foi considerada como demasiado ocidentalizada para os leitores japoneses (foi a primeira s&eacute;rie a trazer o t&iacute;tulo em ingl&ecirc;s na capa), confundidos pelo estilo personalizado de Otomo, que cita Moebius como uma das suas principais influ&ecirc;ncias.  No entanto, Akira &eacute; profundamente japon&ecirc;s na sua narrativa e na sua mensagem. Conforme refere Thiery Groensteen, no seu livro L&#146;Univers des Mang&aacute;s, &#147;Os mang&aacute; n&atilde;o descrevem o Jap&atilde;o tal como ele &eacute;, eles materializam antes as suas projec&ccedil;&otilde;es fantasm&aacute;ticas e os seus traumas&#148;. E o  maior desses fantasmas &eacute; o da guerra nuclear, que o Jap&atilde;o experimentou na pele, atrav&eacute;s dos bombardeamentos de Hiroshima e Nagazaky que puseram fim &agrave; 2&ordf; Guerra Mundial.<\/p>\n<p><split><br \/>Um estigma presente em muita da fic&ccedil;&atilde;o popular japonesa do p&oacute;s-guerra (e os filmes da s&eacute;rie Godzilla, um gigantesco dinossauro geneticamente modificado pela radia&ccedil;&atilde;o, s&atilde;o talvez o exemplo mais &oacute;bvio) em que a destrui&ccedil;&atilde;o maci&ccedil;a das cidades, as muta&ccedil;&otilde;es gen&eacute;ticas provocadas pela radia&ccedil;&atilde;o e as amea&ccedil;as naturais exteriores (conv&ecirc;m n&atilde;o esquecer que o Jap&atilde;o est&aacute; situado numa zona s&iacute;smica por excel&ecirc;ncia) s&atilde;o presen&ccedil;a constante.   <\/p>\n<p>ARQUITECTURA E DESTRUI&Ccedil;&Atilde;O<\/p>\n<p>E essa destrui&ccedil;&atilde;o est&aacute; bem presente na obra de Katshuiro Otomo, em especial na saga de Akira. A Neo-T&oacute;quio que Otomo criou para cen&aacute;rio da s&eacute;rie &eacute; um espa&ccedil;o de uma grandiosidade majest&aacute;tica, apesar de decadente (e que, precisamente, s&oacute; &eacute; mostrada em todo o seu esplendor nas p&aacute;ginas que antecedem a sua meticulosa e espectacular destrui&ccedil;&atilde;o), que n&atilde;o deixa de evocar a Los Angeles do filme Blade Runner. Conforme salienta Jordi Costa, &#147;de todos os autores de BD fascinados pela arquitectura, o japon&ecirc;s Katshuiro Otomo deve ser o &uacute;nico mais interessado no conceito de destrui&ccedil;&atilde;o do que no de constru&ccedil;&atilde;o. As cidades de Otomo s&oacute; existem como potenciais cen&aacute;rios de confrontos desmesurados, combates de m&iacute;ticas resson&acirc;ncias que desembocam na aniquila&ccedil;&atilde;o total, no nada, o deserto. Provavelmente &eacute; em Akira que essa ideia encontra a sua express&atilde;o mais di&aacute;fana, com esse urbanismo futurista de pesadelo, mas coerente que ser&aacute; reduzido a peda&ccedil;os &agrave; medida que avan&ccedil;a a ac&ccedil;&atilde;o&#148;.  <br \/>Uma ac&ccedil;&atilde;o passada num futuro pr&oacute;ximo, mas dist&oacute;pico em que o governo utiliza crian&ccedil;as com poderes paranormais como armas de guerra e a juventude sem futuro e sem esperan&ccedil;a se  agrupa em gangs de delinquentes, que percorrem em potentes motos as estradas de Neo Tokio, uma cidade gigantesca, cuja arquitectura lembra a Los Angeles do filme Blade Runner. Mas agora o perigo e a destrui&ccedil;&atilde;o n&atilde;o v&ecirc;m do espa&ccedil;o exterior ou da natureza, como acontece em v&aacute;rias outras s&eacute;ries de mang&aacute;, mas do interior do pr&oacute;prio homem. O terr&iacute;vel Akira &eacute; apenas uma simples crian&ccedil;a que passa a maioria da hist&oacute;ria num estado de anima&ccedil;&atilde;o suspensa, mas cuja incomensur&aacute;vel energia n&atilde;o pode ser controlada pela avan&ccedil;ada tecnologia de um estado militar que abriu a caixa de Pandora.<\/p>\n<p>E ao despertar de Akira corresponder&aacute; uma onda de  destrui&ccedil;&atilde;o que, ao varrer os &uacute;ltimos vest&iacute;gios da metr&oacute;pole moderna e organizada de Neo-Tokio, sede prevista dos Jogos Ol&iacute;mpicos de 2031, dar&aacute; lugar a uma calcinada terra de ningu&eacute;m. Uma terra disputada pelos senhores da guerra (apoiados mais em poderes m&iacute;sticos e nas drogas, do que na for&ccedil;a das armas) que controlam o acesso aos seus territ&oacute;rios, num previs&iacute;vel regresso a uma &#147;Idade das Trevas&#148;, que o t&eacute;nue raio de luz que atravessa a poeira dos escombros do que foi a orgulhosa Neo Tokio, no final da mais espectacular cena de destrui&ccedil;&atilde;o jamais feita em BD, apenas vem confirmar. Uma vis&atilde;o de pesadelo recorrente na obra de Otomo e que tamb&eacute;m est&aacute; presente na s&eacute;rie Mother Sarah, que Otomo escreveu para os desenhos de Takumi Nagayasu, seu antigo assistente em Akira, o que est&aacute; bem patente nas semelhan&ccedil;as do tra&ccedil;o de ambos. <\/p>\n<p>A PEREGRINA&Ccedil;&Atilde;O DE MOTHER SARAH<\/p>\n<p>Nesta longa saga, iniciada em 1990 mas ainda em publica&ccedil;&atilde;o no Jap&atilde;o, (Otomo, que ultimamente se tem dedicado mais &agrave; anima&ccedil;&atilde;o, ainda est&aacute; escrever o 7&ordm; e &uacute;ltimo cap&iacute;tulo da edi&ccedil;&atilde;o japonesa) um holocausto nuclear reduziu a Terra a um deserto radiactivo, obrigando o que resta da humanidade a refugiar-se em esta&ccedil;&otilde;es espaciais em &oacute;rbita sobre a Terra. Quando os escassos sobreviventes podem finalmente abandonar as col&oacute;nias orbitais e regressar ao seu planeta natal, &eacute; um mundo hostil que os aguarda, em que persistem as divis&otilde;es pol&iacute;ticas e a viol&ecirc;ncia e onde o que resta das cidades foi transformado nos castelos dos novos senhores da guerra. Um cen&aacute;rio com bastantes paralelos com o de Akira, tal como &eacute; poss&iacute;vel ver na cori&aacute;cea Chiyoko, de Akira, uma primeira vers&atilde;o de Mother Sarah, uma mulher poderosa, capaz de enfrentar ex&eacute;rcitos para reencontrar os seus filhos.<\/p>\n<p>Concebido pelo argumentista como se de um filme se tratasse, cada epis&oacute;dio de Mother Sarah traduz o amor de Otomo ao cinema. Um amor que o tem afastado gradualmente da BD, mas que deu origem a grandes filmes, como a vers&atilde;o cinematogr&aacute;fica de Akira, Memories, Roujin Z, ou o not&aacute;vel Perfect Blue, de Satoshi Kon, que Otomo produziu.<\/p>\n<p>Embora seja o mais conhecido no Ocidente, Katshuiro Otomo &eacute; apenas um dos muitos autores japoneses que trabalha com um espa&ccedil;o urbano desumanizado e castrador, ao qual o bando de Kaneda procura fugir atrav&eacute;s das drogas e da viol&ecirc;ncia gratuita. Algo que sem d&uacute;vida emana das pr&oacute;prias caracter&iacute;sticas da sociedade japonesa, onde &agrave; grande falta de espa&ccedil;o se junta uma competitividade feroz, misturada com uma r&iacute;gida disciplina e um elevado sentido de miss&atilde;o, funcionando os mang&aacute; como um dos raros escapes das puls&otilde;es acumuladas. As ru&iacute;nas  da mega-cidade de Akira ou a terra desolada de Mother Sarah podem deste modo ser lidas como uma sublima&ccedil;&atilde;o, uma vontade de mudan&ccedil;a que apenas parece passar pelo Apocalipse. Para que das cinzas renas&ccedil;a um novo mundo. Um mundo melhor e mais humano.<br \/><split><br \/><b>Autor:Jo&atilde;o Miguel Lameiras<\/b><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Os Manga (nome dado &agrave; Banda Desenhada japonesa), apesar das diferen&ccedil;as culturais e narrativas espec&iacute;ficas da cultura japonesa que os produz, souberam conquistar facilmente o mercado ocidental da BD, num&nbsp;[ &hellip; ]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1283],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.clubotaku.org\/niji\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7677"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.clubotaku.org\/niji\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.clubotaku.org\/niji\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.clubotaku.org\/niji\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.clubotaku.org\/niji\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=7677"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.clubotaku.org\/niji\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7677\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.clubotaku.org\/niji\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=7677"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.clubotaku.org\/niji\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=7677"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.clubotaku.org\/niji\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=7677"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}