{"id":7680,"date":"2001-01-01T00:00:00","date_gmt":"2001-01-01T00:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.clubotaku.org\/nijiwp\/?p=7680"},"modified":"2013-07-07T09:22:10","modified_gmt":"2013-07-07T10:22:10","slug":"heavy-metal-son-o-kong","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.clubotaku.org\/niji\/manga\/heavy-metal-son-o-kong\/","title":{"rendered":"Heavy Metal Son-o-Kong"},"content":{"rendered":"<p>Se os f&atilde;s da s&eacute;rie Dragon Ball ainda n&atilde;o sabem, j&aacute; &eacute; tempo de o aprenderem&#8230;<br \/>Um dos cl&aacute;ssicos da literatura chinesa, uma das obras seminais e centrais do c&acirc;none da literatura asi&aacute;tica &eacute; um enorme livro intitulado Viagem ao Oeste. Ainda que seja baseado numa colagem de v&aacute;rios mitos, contos folcl&oacute;ricos, novelas orais perdidas nas tradi&ccedil;&otilde;es, e q.b. de hist&oacute;ria, a sua recompila&ccedil;&atilde;o por Wu Cheng-en &#150; durante o s&eacute;culo XVI, dinastia Ming &#150; cedo se tornou incontorn&aacute;vel na aprendizagem de qualquer das artes da palavra. Viagem ao Oeste, tamb&eacute;m conhecido no Ocidente por Macaco ou Rei Macaco, conta as aventuras do monge Xuanzang, e dos seus companheiros, numa viagem at&eacute; &agrave; &Iacute;ndia em busca de escritos e da luz do Budismo.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.clubotaku.org\/nijiwp\/wp-content\/uploads\/1580.jpg\" alt=\"1\" width=\"640\" height=\"290\" class=\"aligncenter size-full wp-image-14817\" srcset=\"https:\/\/www.clubotaku.org\/nijiwp\/wp-content\/uploads\/1580.jpg 640w, https:\/\/www.clubotaku.org\/nijiwp\/wp-content\/uploads\/1580-300x135.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><\/p>\n<p>Os companheiros s&atilde;o um homem ex-monstro marinho, um porco que abandonara uma vida de crime, e um macaco&#8230; mas n&atilde;o um macaco qualquer, o rei-macaco&#8230;ou que se auto-proclama rei, para pesar e c&oacute;lera de muitos, inclusive divindades. As perip&eacute;cias s&atilde;o fabulosas, desde o roubo do pilar do oceano ao rei dos mares (um drag&atilde;o), a descida aos Infernos, as lutas com os deuses, a oferta da nuvem voadora, etc. Uma leitura inesquec&iacute;vel que demonstrar&aacute; que se a tradi&ccedil;&atilde;o do fant&aacute;stico &eacute; relativamente recente no Ocidente, o mesmo n&atilde;o se passar&aacute; no Oriente.<\/p>\n<p>No Sudoeste Asi&aacute;tico esta personagem m&iacute;tica &eacute; conhecida por Hanuman, e j&aacute; aparece no &eacute;pico Ramayana, na &Iacute;ndia do s&eacute;culo III, a saga do deus Rama. Na Tail&acirc;ndia, por exemplo, &eacute; conhecida como Ramakyen. Se alguma vez visitarem Bangkok, e visitarem o tur&iacute;stico, mas obrigat&oacute;rio Grande Pal&aacute;cio, e o Wat Phra Keo, no seu interior, encontrar&atilde;o nas paredes uma enorme representa&ccedil;&atilde;o desse &eacute;pico em frescos, que datam do s&eacute;culo XIX, mas sofreram v&aacute;rias remodela&ccedil;&otilde;es e restauros. E em mais do que menos partes desses frescos ver&atilde;o sempre Hanuman, o rei-macaco, nas suas aventuras fabulosas.<\/p>\n<p>Mas a hist&oacute;ria a que nos referimos em primeiro lugar &eacute; largamente conhecida sobretudo na China, na Coreia e no Jap&atilde;o, com o t&iacute;tulo de Say&ucirc;ki. Serve isto para fazer entender que vers&otilde;es destas hist&oacute;rias ou do pr&oacute;prio Rei-Macaco sobejam&#8230; e como n&atilde;o poderia deixar de ser, das vers&otilde;es existentes, a banda desenhada faz jus da sua liberdade, inventabilidade e recursos. At&eacute; &agrave; data, a vers&atilde;o mais fabulosa, apesar de afastada do texto cl&aacute;ssico, &eacute; de facto a s&eacute;rie de Dragon Ball, iniciada por Akira Toriyama em 1985 e que explodiu em uma mir&iacute;ade de parafern&aacute;lia de merchandising pior que Gremlins alimentados debaixo d&#146;&aacute;gua &agrave;s 3 da manh&atilde;&#8230; Essa &eacute; a mais estranha. Ou n&atilde;o?<br \/>\nEis que entra Terada Katsyua. Nascido a 7 de Dezembro de 1963, na cidade de Tamano, prefeitura de Okayama, Terada ganhou grande respeito sobretudo como ilustrador. O seu trabalho pode ser visto associado a universos de jogos, filmes e outras s&eacute;ries de banda desenhada (Terra, Blood: O &Uacute;ltimo Vampiro, etc.), recordando um pouco a rela&ccedil;&atilde;o da arte e dos produtos de que outro mestre ilustrador japon&ecirc;s, Yoshitaka Amano, partilha. Terada foi tamb&eacute;m o criador tamb&eacute;m de um design espectacular da personagem Hellboy de Mike Mignola (Dark Horse) e que levou &agrave; cria&ccedil;&atilde;o de uma estatueta (julgo que de vinil).<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.clubotaku.org\/nijiwp\/wp-content\/uploads\/2423.jpg\" alt=\"2\" width=\"640\" height=\"290\" class=\"aligncenter size-full wp-image-14818\" srcset=\"https:\/\/www.clubotaku.org\/nijiwp\/wp-content\/uploads\/2423.jpg 640w, https:\/\/www.clubotaku.org\/nijiwp\/wp-content\/uploads\/2423-300x135.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><\/p>\n<p>Apesar disto, ele define-se como um artista de rakugaki, isto &eacute; os desenhos que fazemos num bloco quando distra&iacute;dos, esbo&ccedil;amos ou n&atilde;o pensamos muito conscientemente no desenho que nasce na p&aacute;gina. O que em ingl&ecirc;s se chamaria doodling e em portugu&ecirc;s rabiscar. Terada Katsuya diz fazer rakugaki desde os 3 anos e define-se como aspirante a Rakugaking. Da&iacute; ter publicado muito recentemente um livro de 1000 p&aacute;ginas apenas de rabiscos! Mesmo assim, &eacute; preciso dizer que embora seja bem conhecido pela sua minuciosidade e capacidades de representa&ccedil;&atilde;o pl&aacute;stica pouco comuns no mundo do manga, n&atilde;o &eacute; um autor prol&iacute;fico de bd, tendo-se limitado a algumas hist&oacute;rias curtas, a preto-e-branco ou a cores espalhadas nas mais d&iacute;spares publica&ccedil;&otilde;es. Dos quatro livros publicados, tr&ecirc;s s&atilde;o de ilustra&ccedil;&atilde;o: Katsuya Zenbu (Kodansha: 1999), Terra&#146;s Cover Girls (Wani Magazine: 2000) e Rakugaki (Mosh Books: 2002). Mas, em 1998, publicara o primeiro volume de Sayukiden: Daienou (Shueisha: 5&ordf; ed., Dez 99), mais uma vers&atilde;o, como o t&iacute;tulo indica, da saga do rei-macaco.<\/p>\n<p>O tipo de tra&ccedil;o e o uso de cor e de computa&ccedil;&atilde;o gr&aacute;fica distingue Terada facilmente, se estiverem a fazer um browsing numa livraria de manga. A influ&ecirc;ncia do tipo europeu &eacute; tamb&eacute;m vis&iacute;vel e ele admite ter Moebius como uma for&ccedil;a que o atrai plasticamente. De facto, e folheando o seu livro de ilustra&ccedil;&atilde;o Terra&#146;s Cover Girls, outra publica&ccedil;&atilde;o vem &agrave; mem&oacute;ria, agora remotamente associada a Moebius: Metal Hurlant, ou na sua vers&atilde;o americana, Heavy Metal. Se se recordarem que a partir dos anos 80 esta(s) revista(s) passaram a ter mulheres despidas, em poses sensuais e com pouca roupa, se n&atilde;o contarmos depois com a inclus&atilde;o de artilharia de uso pessoal p&oacute;s-nuclear &agrave; sua volta cobrindo as partes pudibundas, entender&atilde;o o ambiente.<\/p>\n<p>De facto, Sayukiden &eacute; uma vers&atilde;o heavy metal do rei-macaco. A varia&ccedil;&atilde;o de Terada leva-nos a um texto mais adulto, nos campos violento e sexual, assim como a liberdades do foro religioso que seriam impens&aacute;veis noutras vers&otilde;es. A ac&ccedil;&atilde;o come&ccedil;a com um epis&oacute;dio conhecido: o protagonista encontra-se debaixo da Montanha dos cinco dedos, que Buda lhe p&ocirc;s em cima para lhe acalmar a ira em rela&ccedil;&atilde;o &agrave;s hostes do c&eacute;u&#8230; Mas as imagens n&atilde;o correspondem a vers&otilde;es mais c&eacute;lebres&#8230; as splash pages mostram aves-vampiro, onomatopeias de terror, e um rei-macaco de olhos atravessados por espig&otilde;es. Um flashback faz-nos retornar a um deserto onde uma mulher bela, de seios abastados e proeminentes parece pedir-lhe ajuda&#8230; mas o grande guerreiro dos monos arranca a cabe&ccedil;a &agrave; pobre mulher com o costumeiro pilar. Revela-se afinal uma criatura monstruosa&#8230;e partir da&iacute;, viol&ecirc;ncia a toda a hora, monstros de cabe&ccedil;as decapitadas, encontros com mulheres de corpos que se explodem numa sexualidade frontal, uma cativa que tem poderes desmesurados sempre despertados pelo prazer f&iacute;sico, onomatopeias exageradas e integradas na imagem. Ali&aacute;s, &eacute; esta mulher presa que parece substituir o vener&aacute;vel e santo monge Xuanzang.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.clubotaku.org\/nijiwp\/wp-content\/uploads\/3379.jpg\" alt=\"3\" width=\"640\" height=\"290\" class=\"aligncenter size-full wp-image-14819\" srcset=\"https:\/\/www.clubotaku.org\/nijiwp\/wp-content\/uploads\/3379.jpg 640w, https:\/\/www.clubotaku.org\/nijiwp\/wp-content\/uploads\/3379-300x135.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><\/p>\n<p>A cena mais sensacional &eacute; quando os deuses recorrem a Buda il-m&ecirc;me para p&ocirc;r um fim a um combate estrondoso (no qual Son-O-Kong se multiplica em v&aacute;rios si-pr&oacute;prios); contudo, o nosso anti-her&oacute;i espeta-lhe com o pilar no olho, e aumenta-o (ao pilar, entenda-se) arrancando metade da cabe&ccedil;a do Despertado. O deus supremo engole-o depois e consegue dom&aacute;-lo atrav&eacute;s de conversa, magia, sexo&#8230; mas por pouco tempo, aprisionando Son-O-Kong ent&atilde;o na montanha,  retornando &agrave; cena que abrira o livro.<\/p>\n<p>Narrativamente, talvez n&atilde;o seja das obras de manga mais interessantes. Existem divis&otilde;es a mais, com separadores imensos, e splash pages que pouco ajudam &agrave; injun&ccedil;&atilde;o de um ritmo regular da est&oacute;ria. Mas Terada Katsyua &eacute; conhecido pelas ilustra&ccedil;&otilde;es e sabe tirar partido do seu talento para equilibrar os seus defeitos de contador. Folhear um livro dele, inclusive este, &eacute; uma experi&ecirc;ncia de imagens, de uma imagina&ccedil;&atilde;o pl&aacute;stica quase sem limites, que criam uma vontade atroz em que as cenas que se passam, mesmo no limite da obscenidade e do abjecto, n&atilde;o terminem.<\/p>\n<p><b>Escrito por: Pedro Vieira de Moura<\/b><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Se os f&atilde;s da s&eacute;rie Dragon Ball ainda n&atilde;o sabem, j&aacute; &eacute; tempo de o aprenderem&#8230;Um dos cl&aacute;ssicos da literatura chinesa, uma das obras seminais e centrais do c&acirc;none da&nbsp;[ &hellip; ]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":14817,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1283,5],"tags":[1418,3177,3176],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.clubotaku.org\/niji\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7680"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.clubotaku.org\/niji\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.clubotaku.org\/niji\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.clubotaku.org\/niji\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.clubotaku.org\/niji\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=7680"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.clubotaku.org\/niji\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7680\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.clubotaku.org\/niji\/wp-json\/wp\/v2\/media\/14817"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.clubotaku.org\/niji\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=7680"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.clubotaku.org\/niji\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=7680"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.clubotaku.org\/niji\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=7680"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}