{"id":7694,"date":"2001-01-01T00:00:00","date_gmt":"2001-01-01T00:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.clubotaku.org\/nijiwp\/?p=7694"},"modified":"2001-01-01T00:00:00","modified_gmt":"2001-01-01T00:00:00","slug":"nautilus-the-ship-murai-toyonobu","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.clubotaku.org\/niji\/artigos\/nautilus-the-ship-murai-toyonobu\/","title":{"rendered":"Nautilus, the ship &#8211; Murai Toyonobu"},"content":{"rendered":"<p><split><\/p>\n<p>Para chegarmos ao territ&oacute;rio de Manga Oukuouku, que melhor que tomarmos um transporte h&iacute;brido, para atravessar &aacute;guas n&atilde;o cartografadas no nosso mundo apertado e convencional? Partamos ent&atilde;o, zarpemos pois, azulemos avante. Basta um bilhete em quatro partes para o <i>Nautilus<\/i>.  <\/p>\n<p>No panorama mais ou menos des&eacute;rtico de edi&ccedil;&atilde;o de banda desenhada japonesa de maior qualidade em Portugal, sobretudo de trabalhos mais <i>gekiga<\/i>, desejo falar-vos de uma aposta in&eacute;dita e fabulosa a que a Bedeteca de Lisboa se entregou. No primeiro semestre do ano de 2001, foi publicada na &iacute;ntegra um trabalho in&eacute;dito do artista Murai Toyonobu, intitulado em ingl&ecirc;s <i>Nautilus, The Ship<\/i>. A aposta &eacute; in&eacute;dita pois esta foi uma estreia mundial. Nunca tinha sido publicado antes.<\/p>\n<p>Murai Toyonobu &eacute; um artista multidisciplinar residente em Londres desde 1993, e que estudou no atelier de Tom McCay, conhecido professor americano de ilustra&ccedil;&atilde;o, de onde se formaram Terry Morgan, uma outra artista que mereceu destaque internacional pouco antes da sua infelizmente n&atilde;o inesperada morte, e da qual poder&atilde;o descobrir algum do seu trabalho num volume publicado faz anos pela Ass&iacute;rio &#038; Alvim, <i>Nem Sempre Fada<\/i>,  e ainda o portugu&ecirc;s Tiago Manuel, ilustrador tamb&eacute;m famoso em c&iacute;rculos mais restritos no pa&iacute;s, de quem se pode apreciar as p&aacute;ginas ilustradas da &uacute;ltima <i>Col&oacute;quio\/Letras<\/i>, da Funda&ccedil;&atilde;o Calouste Gulbenkian (no.157\/158). <\/p>\n<p>Toyonobu nasceu em Osaka, onde se alimentou numa dieta di&aacute;ria de manga, anime e toda a cultura japonesa a que nos habituamos nos contactos ligeiros atrav&eacute;s das v&aacute;rias artes. Filho de m&atilde;e japonesa e de pai americano, partiu com os pais para Chicago em 1965, com dez anos. O seu interesse pelas artes gr&aacute;ficas foi precoce e cont&iacute;nuo, ainda que talvez disperso, como se buscasse o caminho exacto para se expressar. O resto da hist&oacute;ria &eacute; um pouco obscura, mas vemo-lo emergir j&aacute; possuindo um estilo pr&oacute;prio e peculiar, da forma&ccedil;&atilde;o com McCay. Como &eacute; indicado na capa interior desta publica&ccedil;&atilde;o, emprega-se no restauro de velhas ilustra&ccedil;&otilde;es, na fotografia &#8211; especialmente de bairros industriais, ou acasos urbanos (o que recordar&aacute; essoutro poeta gr&aacute;fico do mesmo tema, Peter Blegvad). Outro projecto que se deu a conhecer ao p&uacute;blico portugu&ecirc;s aquando do Sal&atilde;o Lisboa 1999 foi o de <i>Tango<\/i>, uma s&eacute;rie de ilustra&ccedil;&otilde;es que glorificava essa dan&ccedil;a, atrav&eacute;s de uma imag&eacute;tica copiosamente singular. H&aacute; uma entrevista ao autor feita num dos <i>Contador-Mor<\/i>, a newsletter da Bedeteca de Lisboa (no. 13, Julho a Setembro de 2001) onde poder&atilde;o descobrir mais pontos interessantes da biografia de Toyonobu.<\/p>\n<p>Nautilus, the ship come&ccedil;a com uma breve introdu&ccedil;&atilde;o ao seu universo hist&oacute;rico, o futuro, pois passa-se em 2005. Apesar do protagonista ser no fundo o pr&oacute;prio nvio de recreio ultra-sofisticado <i>Nautilus<\/i>, que at&eacute; se converte em submarino em caso de tempestades ou em coura&ccedil;ado em caso de ataque de piratas do mar, este n&atilde;o &eacute; o t&iacute;pico manga que se perde em demasia com explica&ccedil;&otilde;es pormenorizadas deste <i>mecha<\/i> central. Apesar da estrutura ser mais ocidental e experimental do que as manga produzidas no Jap&atilde;o, a entrada na ac&ccedil;&atilde;o deste conto &eacute; imediata, e os pr&oacute;prios desenhos (tenham em conta as linhas e o movimento das ondas!!) n&atilde;o pretendem dar a ideia de rapidez, mas antes de uma fluidez espessa, lenta&#8230;.<\/p>\n<p>Muitos dos enquadramentos, ou sobretudo a tem&aacute;tica constante, desprovida de seres humanos na cena vis&iacute;vel, relembra mais a fotografia industrial. Como referimos atr&aacute;s, este facto n&atilde;o ser&aacute; demasiado surpreendente se tivermos em conta que Toyonobu se dedica a outras artes, sendo a fotografia, precisamente a industrial ou a de espa&ccedil;os urbanos, uma das delas, tendo publicado inclusive em Londres um livro pequeno, intitulado Scratch Shops (pela Nequam Vacuum, Londres 1997), dedicada sobretudo a lojas que vendem material para pintores, fot&oacute;grafos e artistas visuais em geral, entre as cidades de Osaka, Kobe, T&oacute;quio, Londres, Chicago e Portland, com as quais diz sentir mais afinidades visuais. Assim, &eacute;-nos algo dif&iacute;cil n&atilde;o o associar a expoentes desse campo exclusivo, como Margaret Bourke-White ou o casal alem&atilde;o Hilla e Bernd Becher.<\/p>\n<p><split><br \/>Todo o livro &eacute; a preto e branco, com os fundos carregados de negro, ou antes com o c&eacute;u branco com simples linhas como nuvens ou ainda, as mais das vezes, um intricado trabalho de tracejados, em que os fundos das rochas, os c&eacute;us tempestuosos as sombras, constroem-se numa renda profusa de linhas que adensa a tens&atilde;o desejada pelo autor. Mas esta &eacute; uma tens&atilde;o contida. Soar&aacute; a disparate, mas parece que tudo se move com a velocidade t&iacute;pica (dos humanos) debaixo da superf&iacute;cie da &aacute;gua, tamb&eacute;m igual &agrave; de algumas sequ&ecirc;ncias dos nossos sonhos. O Nautilus atravessa consecutivamente pequenas aventuras, ainda que tudo integrado num quadro maior de ac&ccedil;&atilde;o. E ainda que haja momentos de pausa na progress&atilde;o da hist&oacute;ria, e momentos de grande contraste com o ambiente regular da obra (veja-se na curt&iacute;ssima analepse das duas p&aacute;ginas, quase finais, do volume 4), h&aacute; um cont&iacute;nuo frenesi que nos garante que algo se tece de grande por detr&aacute;s da fachada inicial&#8230; O que se confirmar&aacute; nos dois &uacute;ltimos volumes.<\/p>\n<p>Sobre essa tens&atilde;o, repare-se na &uacute;ltima p&aacute;gina do volume 2, em que aparece um avi&atilde;o militar de nenhures e sem outra explica&ccedil;&atilde;o, fechando esse cap&iacute;tulo. Este tipo de suspense pouco deve ao costumeiro choque final de uma parte da hist&oacute;ria, que nos deixa em frenicoques em esperar pelo pr&oacute;ximo livro. Bem pelo contr&aacute;rio, &eacute; quase uma esp&eacute;cie de anticl&iacute;max a frequ&ecirc;ncia com que os novos dados e informa&ccedil;&otilde;es v&atilde;o sendo introduzidos. Mesmo quando se descobrem as experi&ecirc;ncias que se fazem com humanos no laborat&oacute;rio dos &#147;inimigos&#148;, esse reconhecimento m&aacute;ximo n&atilde;o se nos apresenta como um choque, mas ants como uma esperada parte do puzzle.<\/p>\n<p>N&atilde;o &eacute; dif&iacute;cil entender que o autor pretender&aacute; com esta obra exibir o navio Nautilus como uma met&aacute;fora de alguns sectores da humanidade. A forma como se dirige a certos temas &#8211; os pecados de excesso da ci&ecirc;ncia, a forma de imiscuir da pol&iacute;tica, a protec&ccedil;&atilde;o de menores pa&iacute;ses por pot&ecirc;ncias militares, a irrevog&aacute;vel superioridade da natureza sobre a obra humana, etc. &#8211; &eacute; sinal confirmador. O que de certa forma nos recordar&aacute; atitudes mais cl&aacute;ssicas da bd japonesa, com as obras de Tezuka. <\/p>\n<p>&Eacute; &oacute;bvio que se esta fosse uma obra publicada no Jap&atilde;o, no seio das milh&otilde;es de hist&oacute;rias curtas que se espalham por milhares de publica&ccedil;&otilde;es todos os anos, seria algo de pouco not&aacute;vel, talvez nem a descobr&iacute;ssemos&#8230; Mas <i>Nautilus, the Ship<\/i> &eacute; de facto uma obra de algum m&eacute;rito, de qualidade acima da m&eacute;dia, ainda que provavelmente seja algo que interessar&aacute; a um p&uacute;blico mais reduzido do habitual da manga. E a Bedeteca apenas merece os parab&eacute;ns por colocar como principal objectivo a divulga&ccedil;&atilde;o de obras assim, em vez de se preocupar com prop&oacute;sitos meramente numa l&oacute;gica de sistema econ&oacute;mico de mercado. O que, j&aacute; o dissemos aqui, n&atilde;o existe sequer em Portugal no que concerne &agrave; banda desenhada. <br \/><split><br \/><b>Autor:Pedro Vieira Moura<\/b><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Para chegarmos ao territ&oacute;rio de Manga Oukuouku, que melhor que tomarmos um transporte h&iacute;brido, para atravessar &aacute;guas n&atilde;o cartografadas no nosso mundo apertado e convencional? Partamos ent&atilde;o, zarpemos pois, azulemos&nbsp;[ &hellip; ]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1283],"tags":[1293],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.clubotaku.org\/niji\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7694"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.clubotaku.org\/niji\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.clubotaku.org\/niji\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.clubotaku.org\/niji\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.clubotaku.org\/niji\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=7694"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.clubotaku.org\/niji\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7694\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.clubotaku.org\/niji\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=7694"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.clubotaku.org\/niji\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=7694"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.clubotaku.org\/niji\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=7694"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}