{"id":7740,"date":"2001-01-01T00:00:00","date_gmt":"2001-01-01T00:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.clubotaku.org\/nijiwp\/?p=7740"},"modified":"2001-01-01T00:00:00","modified_gmt":"2001-01-01T00:00:00","slug":"gunnm-edio-brasileira","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.clubotaku.org\/niji\/manga\/gunnm-edio-brasileira\/","title":{"rendered":"Gunnm (Edi&ccedil;&atilde;o Brasileira)"},"content":{"rendered":"<p><split><\/p>\n<p>O mercado de banda-desenhada portugu&ecirc;s sempre deveu muito da sua vitalidade &agrave;s exporta&ccedil;&otilde;es das editoras brasileiras para o nosso pa&iacute;s. Basta relembrar que, nas d&eacute;cadas de 80 e 90, a quase totalidade de t&iacute;tulos norte-americanos dos gigantes Marvel e DC Comics que chegavam &agrave;s bancas portuguesas eram edi&ccedil;&otilde;es da Abril-Jovem importadas directamente do pa&iacute;s do Carnaval. Traduzidas para o portugu&ecirc;s adocicado t&atilde;o caracter&iacute;stico do Brasil, estas edi&ccedil;&otilde;es constitu&iacute;am a &uacute;nica alternativa que qualquer f&atilde; de banda-desenhada tinha &agrave;s apostas excessivamente centradas na BD franco-belga das editoras lusitanas, e foi atrav&eacute;s da compra regular destes &#147;gibis&#148; que a maioria dos jovens portugueses tomaram conhecimento com cl&aacute;ssicos como o Homem-Aranha ou o Batman. &Eacute; verdade, a impress&atilde;o nem sempre foi a melhor, o papel tamb&eacute;m n&atilde;o era famoso e a leitura do texto deixou muitos jovens a escreverem &#147;a&ccedil;&atilde;o&#148; em vez de &#147;ac&ccedil;&atilde;o&#148;, mas o certo &eacute; que hoje, sem tudo isto, n&atilde;o s&oacute; o mercado de BD portugu&ecirc;s seria radicalmente diferente, como provavelmente n&atilde;o poder&iacute;amos desfrutar das edi&ccedil;&otilde;es soberbamente traduzidas e imprimidas dessas mesmas obras que a Devir e outras editoras actualmente colocam nas lojas&#133; no nosso portugu&ecirc;s de Portugal.<\/p>\n<p>Dito isto, s&atilde;o por demais conhecidas as poucas edi&ccedil;&otilde;es de manga em Portugal e, portanto, n&atilde;o &eacute; totalmente de estranhar que, talvez como resposta &agrave; quase total in&eacute;rcia do mercado portugu&ecirc;s no que toca &agrave; banda-desenhada japonesa, vejamos agora algumas editoras brasileiras a mostrarem um certo interesse em exportarem os seus t&iacute;tulos directamente para c&aacute;. Assim, ap&oacute;s uma primeira tentativa falhada pela parte da Mythos Editora de publicar e exportar a s&eacute;rie de heroic-fantasy &#147;Guerreiros Errantes&#148; (que, para variar, foi malograda devido a problemas internos relacionados com a aquisi&ccedil;&atilde;o dos direitos da obra e n&atilde;o a uma &#147;rejei&ccedil;&atilde;o&#148; pela parte do leitorado portugu&ecirc;s&#133;), eis que a &Oacute;pera Graphica, uma editora de comics com sede em S&atilde;o Paulo, desembarca nalgumas lojas de Portugal o seu primeiro volume traduzido de &#147;Gunnm&#148;, a mais c&eacute;lebre obra de fic&ccedil;&atilde;o cient&iacute;fica assinada por Yukito Kishiro, estranhamente rebaptizada aqui para &#147;Gunm &#8211; Alita Battle Angel&#148;.<\/p>\n<p>&#147;Gunnm&#148;, abreviatura de &#147;Gun Dream&#148;, foi publicado pela primeira vez no Jap&atilde;o em Novembro de 1990 na Business Jump, uma das v&aacute;rias revistas de manga da editora Shueisha, tendo a edi&ccedil;&atilde;o da obra durado cinco anos. Escrito e desenhado por um (ent&atilde;o) jovem mangaka de nome Yukito Kishiro, o manga em quest&atilde;o conta a hist&oacute;ria de Gally, uma ciborgue abandonada que &eacute; recolhida pelo cientista Daisuke Ido num passeio deste por um dos v&aacute;rios dep&oacute;sitos de sucata de Scrap Metal City, uma cidade subterr&acirc;nea destinada &agrave;s camadas sociais mais pobres e marginalizadas. Ido decide reparar a pequena ciborgue, que revela desconhecer qualquer tra&ccedil;o do seu pr&oacute;prio passado, inclusivamente o seu pr&oacute;prio nome. Daisuke ent&atilde;o baptiza-a de Gally baseando-se no nome do seu antigo gato, e como que a &#147;adopta&#148; como a filha que nunca teve. No entanto, n&atilde;o demora muito para que Gally comece a adquirir consci&ecirc;ncia pr&oacute;pria e a querer retribuir o seu favor a Ido, e quando a jovem ciborgue descobre que o seu salvador tem como hobby a profiss&atilde;o ocasional de ca&ccedil;a-recompensas, sente uma enorme atrac&ccedil;&atilde;o, para n&atilde;o dizer uma certa &#147;reminisc&ecirc;ncia&#148;, por essa fun&ccedil;&atilde;o. Ali&aacute;s, o mundo em Scrap-Metal &eacute; bastante prop&iacute;cio a esta actividade, j&aacute; que n&atilde;o existe nenhuma for&ccedil;a policial e criminosos perigosos abundam&#133; consequ&ecirc;ncia directa de Scrap-Metal ser um &#147;caixote do lixo&#148; da cidade de Zalem, casa das classes superiores\/enriquecidas. Ido come&ccedil;a por n&atilde;o reagir bem ao desejo de Gally se tornar numa guerreira, estando completamente obcecado que esta mantenha a sua &#147;pureza&#148; quase infantil&#133; mas n&atilde;o demorar&aacute; a perceber que h&aacute; algo no passado de Gally que a empurra quase instintivamente para o combate. O primeiro volume de &#147;Gunnm&#148; descreve a inicia&ccedil;&atilde;o de Gally neste mundo, bem como o encontro desta com o seu primeiro grande rival, o s&aacute;dico devorador de c&eacute;rebros Makaku.<\/p>\n<p><split><\/p>\n<p>A obra em si revela um enorme dinamismo narrativo, bem como um universo detalhadamente desenhado. N&atilde;o &eacute; dif&iacute;cil perceber como este manga adquiriu o estatuto de s&eacute;rie de culto um pouco por todo o lado onde foi editado, j&aacute; que Kishiro consegue simultaneamente criar personagens interessantes e enquadr&aacute;-las num mundo p&oacute;s-apocaliptico onde s&atilde;o brutalmente postas &agrave; prova e onde devem confrontar os seus pesadelos interiores. A busca de Gally pela sua pr&oacute;pria identidade, a exposi&ccedil;&atilde;o de um mundo onde o cibern&eacute;tico e o humano se misturam com uma facilidade assustadora, e a arte cativante de Kishiro s&atilde;o outros dos atractivos deste manga. De um ponto de vista gr&aacute;fico-conceptual, as (assumidas) refer&ecirc;ncias cinematogr&aacute;ficas s&atilde;o imensas, tendo o cl&aacute;ssico &#147;Metropolis&#148; de Fritz Lang ajudado a delinear a divis&atilde;o de classes em sectores (um pouco como um outro &#147;Metropolis&#148;, s&oacute; que de Osamu Tezuka&#133;) e &#147;Mad Max&#148; de George Miller servido de inspira&ccedil;&atilde;o para o mundo fora-da-lei de Scrap-Metal City.<\/p>\n<p>A presente edi&ccedil;&atilde;o foi realizada a partir das graphic-novels norte-americanas editadas pela Viz Comics, o que quer dizer que, para al&eacute;m do sentido da leitura estar &#147;ocidentalizado&#148;  (ou seja, da esquerda para a direita), as altera&ccedil;&otilde;es feitas pelos tradutores americanos aos nomes de algumas personagens e de certos locais mant&ecirc;m-se na sua vers&atilde;o brasileira &#8211; assim, &#147;Gally&#148; &eacute; rebaptizada de &#147;Alita&#148;, &#147;Scrap-Metal City&#148;  passa a &#147;Scrap Yard&#148; e a cidade de &#147;Zalem&#148; muda de nome para &#147;Tiphares&#148;. Os mais puristas n&atilde;o v&atilde;o gostar destes pormenores, mas os restantes n&atilde;o dever&atilde;o ter quaisquer problemas com a leitura. O que n&atilde;o dever&aacute; agradar a ningu&eacute;m &eacute; o n&iacute;vel pobre da impress&atilde;o (logo nas primeiras p&aacute;ginas, &eacute; quase imposs&iacute;vel ler o letreiro da oficina de Daisuke Ido!) e a p&eacute;ssima qualidade do papel, decerto mais barato do ponto de vista da produ&ccedil;&atilde;o e do custo final para o consumidor, mas certamente menos confort&aacute;vel para o leitor &#8211; o seu manuseamento acaba por nos deixar com os polegares ligeiramente manchados, o que n&atilde;o &eacute; propriamente a experi&ecirc;ncia de leitura mais agrad&aacute;vel do mundo&#133; mas tamb&eacute;m, pelo m&oacute;dico pre&ccedil;o de R$6.50 (cerca de 2 euros), n&atilde;o h&aacute; muito por onde nos queixarmos&#133;<\/p>\n<p>Saliente-se pelo lado positivo que o primeiro volume vem artilhado com mais de 10 p&aacute;ginas de notas sobre a s&eacute;rie em quest&atilde;o, mas embora alguma informa&ccedil;&atilde;o contida no texto seja realmente interessante (como o levantamento de algumas inspira&ccedil;&otilde;es cinematogr&aacute;ficas pela parte de Kishiro que foram pertinentes na g&eacute;nese do manga), &eacute; s&oacute; pena constatar que grande parte do que est&aacute; escrito n&atilde;o passe de (v&aacute;rios!) resumos da hist&oacute;ria que o pr&oacute;prio tomo conta! Uma oportunidade (para j&aacute;) parcialmente desperdi&ccedil;ada que pode vir a ser corrigida nos pr&oacute;ximos volumes, j&aacute; que a quantidade de informa&ccedil;&atilde;o interessante que rodeia o universo de Gunnm dificilmente se esgotaria num s&oacute; conjunto de textos!<\/p>\n<p>No fim do dia, embora esta edi&ccedil;&atilde;o n&atilde;o seja t&atilde;o boa quanto, por exemplo, os tomos franceses propostos pela Gl&eacute;nat (sobretudo as recentes reedi&ccedil;&otilde;es em grande formato), n&atilde;o deixa de ser de aplaudir que finalmente este cl&aacute;ssico do manga de fic&ccedil;&atilde;o cientifica chegue a solo portugu&ecirc;s &#8211; mesmo que sem garantias de continuidade, em pontos de vendas limitados (at&eacute; &agrave; data, s&oacute; o avistei numa FNAC e na BD-Mania&#133;) e sem estar na nossa variante da l&iacute;ngua de Cam&otilde;es. O que &eacute; realmente de lamentar &eacute; que n&atilde;o tenha c&aacute; chegado pela m&atilde;o de nenhuma das editoras portuguesas que, um pouco &agrave; semelhan&ccedil;a do que acontecia com os comics nos anos 80\/90, continuam a ignorar quaisquer possibilidades de editar manga e permanecem maioritariamente focadas em continuar a apostar na BD europeia\/franco-belga e, muito ironicamente, nos mesmos comics americanos que at&eacute; h&aacute; bem pouco tempo tamb&eacute;m n&atilde;o eram publicados pelas mais curiosas raz&otilde;es&#8230; O mesmo &eacute; dizer: s&oacute; &eacute; pena que, mais uma vez, uma editora estrangeira tenha de vir satisfazer os f&atilde;s portugueses que gostariam de ler as suas bandas-desenhadas favoritas na sua l&iacute;ngua natal para compensar a inactividade (atitude conservadora?) das editoras nacionais&#133;<\/p>\n<p>E se a hist&oacute;ria, por vezes, tem tend&ecirc;ncia a se repetir, torna-se pertinente colocar a seguinte quest&atilde;o: ser&aacute; que esta aposta da &Oacute;pera Graphica poder&aacute; representar os primeiros ventos de mudan&ccedil;a no sector editorial lusitano no que diz respeito &agrave; publica&ccedil;&atilde;o de manga em portugu&ecirc;s? Esperemos que sim&#133; <\/p>\n<p><split><br \/><b>Autor:Ricardo Gon&ccedil;alves<\/b><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O mercado de banda-desenhada portugu&ecirc;s sempre deveu muito da sua vitalidade &agrave;s exporta&ccedil;&otilde;es das editoras brasileiras para o nosso pa&iacute;s. 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