{"id":7768,"date":"2001-01-01T00:00:00","date_gmt":"2001-01-01T00:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.clubotaku.org\/nijiwp\/?p=7768"},"modified":"2001-01-01T00:00:00","modified_gmt":"2001-01-01T00:00:00","slug":"shonen-e-shoujo-pblicos-alvo-no-japo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.clubotaku.org\/niji\/artigos\/shonen-e-shoujo-pblicos-alvo-no-japo\/","title":{"rendered":"Shonen e Shoujo: P&uacute;blicos-Alvo no Jap&atilde;o"},"content":{"rendered":"<p><split><\/p>\n<p>&Eacute; verdade que, em grande parte, os f&atilde;s de anima&ccedil;&atilde;o e banda desenhada japonesa s&atilde;o-no porque s&atilde;o capazes de discernir a qualidade art&iacute;stica das obras que apreciam. Mas a produ&ccedil;&atilde;o de anima&ccedil;&atilde;o e banda desenhada no Jap&atilde;o &eacute;, e h&aacute; que admiti-lo, uma ind&uacute;stria feroz e competitiva em que um n&uacute;mero alargado de produtores de obras lutam pelos cora&ccedil;&otilde;es e pelas carteiras de uma quantidade limitada de espectadores. E como qualquer ind&uacute;stria, esta &eacute; pautada por uma s&eacute;rie de t&eacute;cnicas e conven&ccedil;&otilde;es que procuram optimizar todos os passos do processo de produ&ccedil;&atilde;o &#8211; desde a concep&ccedil;&atilde;o de uma obra at&eacute; &agrave; sua entrega ao consumidor final &#8211; e mais al&eacute;m!<\/p>\n<p>Uma das t&eacute;cnicas mais conhecidas neste &acirc;mbito &eacute; o marketing, a arte\/t&eacute;cnica de simultaneamente dar o produto a conhecer a um potencial cliente e convenc&ecirc;-lo a adquiri-lo. Dentro desta &aacute;rea em particular, um conceito que merece destaque &eacute; o de p&uacute;blico-alvo: um conjunto de pessoas em rela&ccedil;&atilde;o ao qual as qualidades do produto s&atilde;o optimizadas de forma a torn&aacute;-lo mais atractivo para esse grupo em particular. A no&ccedil;&atilde;o de p&uacute;blico-alvo &eacute; conhecida em todos os tipos de arte popular: um artista que produz obras comerciais deve ter a no&ccedil;&atilde;o, &agrave; partida, do grupo de pessoas mais suscept&iacute;vel de se interessar pela sua obra, e da&iacute;, tirar conclus&otilde;es relativas &agrave; sua viabilidade.<\/p>\n<p>Este conceito &eacute; assumido em pleno pela ind&uacute;stria de manga no Jap&atilde;o, e em muitos casos, levado ao extremo. Tanto que, no caso das obras mais comerciais, n&atilde;o &eacute; o artista que escolhe o p&uacute;blico-alvo, mas este &uacute;ltimo que condiciona indirectamente o trabalho do artista. A exist&ecirc;ncia das compila&ccedil;&otilde;es semanais de manga &eacute; prova disso: elas possuem p&uacute;blicos-alvo bem espec&iacute;ficos, como por exemplo o dos trabalhadores de escrit&oacute;rio masculinos (&#8220;salary-men&#8221;) ou o das raparigas pr&eacute;-adolescentes, e assim for&ccedil;am a maior parte dos artistas que nelas aspirem a ser publicados a limitar-se a um conjunto restrito de temas e conceitos sabidos populares dentro desse segmento da popula&ccedil;&atilde;o. Apenas um conjunto restrito de artistas especialmente populares e conceituados conseguem transcender os seus nichos e, dentro de certa medida, ditar as regras para as obras que criam.<\/p>\n<p>A maior parte das obras de banda desenhada japonesa produzidas em forma impressa podem ser classificadas dentro de dois super-g&eacute;neros bem definidos: shonen e shoujo. Quase todas as compila&ccedil;&otilde;es de manga dedicam-se exclusivamente a um desses campos, embora seja natural que as editoras publiquem duas ou mais compila&ccedil;&otilde;es semanais, de forma a abranger os p&uacute;blicos-alvo principais. Quem adquire uma dessas compila&ccedil;&otilde;es sabe muito bem, &agrave; partida, aquilo que pode esperar: as jovens mulheres adultas gostam de hist&oacute;rias sobre jovens mulheres adultas que balanceiam uma carreira profissional com um romance. Os rapazes adolescentes preferem hist&oacute;rias de aventura repletas de ac&ccedil;&atilde;o e armas grandes. A maior parte dos nichos de mercado t&ecirc;m compila&ccedil;&otilde;es que lhes s&atilde;o dedicadas, e os que s&atilde;o demasiado pequenos para o terem, s&atilde;o cobertos pela imensa comunidade de artistas amadores, os criadores de doujinshi.<\/p>\n<p>O conceito de p&uacute;blicos-alvo em banda desenhada &eacute; algo que n&atilde;o se tem traduzido muito bem na Europa, porque na mente do consumidor m&eacute;dio europeu, apenas existe um p&uacute;blico-alvo: as crian&ccedil;as. Na restrita comunidade de leitores de banda desenhada mais madura, o conceito tamb&eacute;m se torna um pouco alien&iacute;gena, j&aacute; que a este n&iacute;vel, os artistas assumem um controlo muito maior sobre a sua obra do que os seus colegas japoneses ou americanos. No mundo da banda desenhada europeia &#8220;erudita&#8221;, as obras n&atilde;o correspondem a necessidades do mercado, mas sim a pretens&otilde;es art&iacute;sticas dos seus criadores, o que as aproxima mais de artes respeitadas como a literatura ou a pintura, mas afasta-as do grande p&uacute;blico.<\/p>\n<p><split><\/p>\n<p>N&atilde;o &eacute; de admirar, por isso, que mesmo entre os f&atilde;s de manga europeus, exista uma compreens&atilde;o bastante limitada do conceito de p&uacute;blico-alvo e, por consequ&ecirc;ncia, do significado das palavras &#8220;shonen&#8221; e &#8220;shoujo&#8221;. Certas pessoas parecem estar totalmente convencidas de que &eacute; uma classifica&ccedil;&atilde;o dada a artistas ou em fun&ccedil;&atilde;o do g&eacute;nero de hist&oacute;ria. O que n&atilde;o falta na &#8220;fandom&#8221; s&atilde;o supostos &#8220;connoisseurs&#8221; a afirmar de joelhos e m&atilde;os juntas que as Clamp apenas fazem shoujo, que &#8220;Angel Sanctuary&#8221; &eacute; shonen porque tem muita ac&ccedil;&atilde;o e mortes, e que &#8220;Aa! Megami-sama&#8221; &eacute; shoujo porque &eacute; uma hist&oacute;ria rom&acirc;ntica. A fim de descontruir muitos mitos e proporcionar um melhor entendimento aos leitores sobre as caracter&iacute;sticas e distin&ccedil;&atilde;o entre estes dois super-g&eacute;neros, vamos analizar cada um destes casos.<\/p>\n<p>Embora as Clamp tenham-se popularizado com obras shoujo como &#8220;RG Veda&#8221; e &#8220;Tokyo Babylon&#8221;, sejam ex&iacute;mias na representa&ccedil;&atilde;o de um dos mais marcantes elementos do manga shoujo (o chamado bishonen, ou rapaz bonito), e seja um grupo composto integralmente por mulheres, n&atilde;o se pode dizer que s&oacute; fa&ccedil;am shoujo. O exemplo mais berrante disto est&aacute; em &#8220;Chobits&#8221;, um manga repleto de clich&eacute;s de manga shonen, e que n&atilde;o pode ser classificado de nenhuma outra forma. A notoriedade das autoras faz com que elas tenham uma liberdade criativa bem maior do que a m&eacute;dia, o que lhes permitiu em determinadas circunst&acirc;ncias esbater um pouco a fronteira entre shonen e shoujo. &#8220;Angelic Layer&#8221; &eacute; um exemplo disto: apesar de possuir uma trama t&iacute;pica de shonen (a demanda por um trof&eacute;u), a sua hero&iacute;na feminina e a aus&ecirc;ncia de fan-service faz com que se incline um pouco para o lado do shoujo. A primeira li&ccedil;&atilde;o &eacute;, ent&atilde;o, a de n&atilde;o classificar um manga pelo seu autor. Apesar da maior parte dos autores estarem afectos a um determinado super-g&eacute;nero, n&atilde;o significa que isso aconte&ccedil;a sempre, particularmente no caso dos artistas mais c&eacute;lebres. Melhor ser&aacute; analizar caso a caso.<\/p>\n<p>Continuando a utilizar as Clamp como ponto de compara&ccedil;&atilde;o, chegamos a &#8220;Angel Sanctuary&#8221; de Yuki Kaori &#8211; um caso que &eacute; perfeitamente paralelo a &#8220;X&#8221;, das Clamp. Sim, &eacute; verdade que ambas s&atilde;o obras &eacute;picas com elementos sobrenaturais, e acima de tudo com muita ac&ccedil;&atilde;o, mortes e sangue. Mas uma an&aacute;lise um pouco mais profunda marca a diferen&ccedil;a: sem muito esfor&ccedil;o, o leitor atento repara que ambos os t&iacute;tulos t&ecirc;m como protagonistas t&iacute;picos bishonen andr&oacute;ginos, e que colocam uma &ecirc;nfase exacerbada nas motiva&ccedil;&otilde;es, emo&ccedil;&otilde;es e reac&ccedil;&otilde;es dos personagens em detrimento de uma narrativa com um ritmo r&aacute;pido. A li&ccedil;&atilde;o a tirar? N&atilde;o classificar um manga pela sua brutalidade ou pela abrang&ecirc;ncia da sua trama. Em vez disso, &eacute; melhor focar na forma como a narrativa &eacute; transmitida ao leitor, tentando deduzir o tipo de sensibilidade a que ela &eacute; dirigida.<\/p>\n<p>No caso de &#8220;Aa! Megami-sama&#8221;, obra de Fujishima Kosuke, um paralelo pode ser tra&ccedil;ado a t&iacute;tulos como &#8220;Tenchi Muyo&#8221;, &#8220;Love Hina&#8221; e outros do g&eacute;nero. Apesar de serem claramente classificadas como com&eacute;dias rom&acirc;nticas (um g&eacute;nero que no ocidente &eacute; associado a um p&uacute;blico eminentemente feminino), que ponto comum reune todas estas obras? Muito simplesmente, todas elas t&ecirc;m como her&oacute;i um rapaz com pouco jeito para lidar com o sexo oposto, que de repente se v&ecirc; rodeado por um grupo de bonitas raparigas, todas elas p&uacute;blica ou secretamente com vontade de lhe saltar para a cueca. Ora, a quem acham que uma hist&oacute;ria deste g&eacute;nero apela, homens ou mulheres?<\/p>\n<p><split><\/p>\n<p>Assim, a terceira li&ccedil;&atilde;o &eacute; que n&atilde;o se deve classificar um manga pela quantidade de romance. &Eacute; prefer&iacute;vel analizar o efeito no p&uacute;blico e as emo&ccedil;&otilde;es que a narrativa suscita nele, e definir qual o segmento da popula&ccedil;&atilde;o em que essas emo&ccedil;&otilde;es se tornam mais excitantes e reconfortantes (em suma, positivas).<\/p>\n<p>Esperamos que assim se dissipem um pouco mais as confus&otilde;es sobre o que exactamente constitui shonen e shoujo &#8211; uma distin&ccedil;&atilde;o que em &uacute;ltima inst&acirc;ncia depende menos do conte&uacute;do da obra do que dos cordelinhos que mexe nos p&uacute;blicos que atinge. Listamos abaixo algumas das caracter&iacute;sticas chave (clich&eacute;s, se quiserem) que costumam caracterizar cada um destes super-g&eacute;neros. No seu conjunto, estes pontos permitir&atilde;o identificar 90% das obras de manga como shoujo ou shonen. Contudo, al&eacute;m das &aacute;reas cinzentas, existem sempre desafios &agrave;s conven&ccedil;&otilde;es, por isso conv&eacute;m analizar sempre caso a caso&#8230;<\/p>\n<p>Elementos t&iacute;picos de manga shonen:<br \/>&#8211; &Ecirc;nfase na ac&ccedil;&atilde;o<br \/>&#8211; Ritmo narrativo r&aacute;pido<br \/>&#8211; &Eacute; gerada empatia com os personagens masculinos<br \/>&#8211; Sexualiza&ccedil;&atilde;o das situa&ccedil;&otilde;es, quer de forma expl&iacute;cita ou impl&iacute;cita<br \/>&#8211; Personagens femininos seguem estere&oacute;tipos que correspondem a objectos de desejo masculino<br \/>&#8211; &#8220;Fan Service&#8221;: exibi&ccedil;&atilde;o gratuita de caracter&iacute;sticas sexuais e pormenores fetichistas<br \/>&#8211; Predomin&acirc;ncia de temas tecnol&oacute;gicos (n&atilde;o s&atilde;o, por&eacute;m, exclusivos do<br \/>shonen)<\/p>\n<p>Elementos t&iacute;picos de manga shoujo:<br \/>&#8211; &Ecirc;nfase nas emo&ccedil;&otilde;es e rela&ccedil;&otilde;es entre personagens.<br \/>&#8211; Ritmo narrativo relativamente lento<br \/>&#8211; Introspectivo: an&aacute;lise do impacto de acontecimentos externos nos personagens<br \/>&#8211; &Eacute; gerada empatia com os personagens femininos<br \/>&#8211; Presen&ccedil;a de bishonen e de personagens andr&oacute;ginos<br \/>&#8211; Sentimentaliza&ccedil;&atilde;o das situa&ccedil;&otilde;es<br \/>&#8211; Dramatismo exacerbado<br \/>&#8211; Predomin&acirc;ncia de situa&ccedil;&otilde;es quotidianas (n&atilde;o s&atilde;o, por&eacute;m, exclusivos do shoujo)<\/p>\n<p><split><br \/><b>Autor:Jo&atilde;o Rocha<\/b><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&Eacute; verdade que, em grande parte, os f&atilde;s de anima&ccedil;&atilde;o e banda desenhada japonesa s&atilde;o-no porque s&atilde;o capazes de discernir a qualidade art&iacute;stica das obras que apreciam. 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