{"id":7881,"date":"2005-08-11T23:00:00","date_gmt":"2005-08-11T23:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.clubotaku.org\/nijiwp\/?p=7881"},"modified":"2013-09-01T11:07:14","modified_gmt":"2013-09-01T12:07:14","slug":"merzbow-msica-noise","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.clubotaku.org\/niji\/music\/merzbow-msica-noise\/","title":{"rendered":"Merzbow: M&uacute;sica Noise"},"content":{"rendered":"<p>No &iacute;nicio dos anos 80, o jovem Masami Akita, insatisfeito com a sua passagem pelo rock e pela pintura, decide-se exprimir-se de um modo novo: brutal e inconformista, junta a agressividade do rock, a espontaneidade do freejazz, a radicalidade do dada&iacute;smo e o extremismo do que se chamou &#8220;m&uacute;sica industrial&#8221;, para criar Merzbow.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.clubotaku.org\/niji\/music\/merzbow-msica-noise\/attachment\/1-307\/\" rel=\"attachment wp-att-11594\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.clubotaku.org\/nijiwp\/wp-content\/uploads\/1292.jpg\" alt=\"\" title=\"1\" width=\"640\" height=\"290\" class=\"alignnone size-full wp-image-11594\" srcset=\"https:\/\/www.clubotaku.org\/nijiwp\/wp-content\/uploads\/1292.jpg 640w, https:\/\/www.clubotaku.org\/nijiwp\/wp-content\/uploads\/1292-300x135.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><\/a><\/p>\n<p>O nome deste cad&aacute;ver esquesito adaptou-o de uma colagem tridimensional do dada&iacute;sta alem&atilde;o Kurt Schwitters, Merzbau, constitu&iacute;da por pe&ccedil;as inuitilizadas de velharias encontradas na rua. No conceito desta &#8220;Catederal da Mis&eacute;ria Er&oacute;tica&#8221;, nome alternativo da obra, Masami Akita encontrou a ideia para as primeiras realiza&ccedil;&otilde;es do seu projecto musical.<br \/>Tamb&eacute;m elas eram colagens an&aacute;rquicas de ru&iacute;dos recolhidos de diversas fontes (televis&atilde;o, r&aacute;dio, discos, guitarras desafinadas, vozes) manipulados e amplificados de modo a produzir uma cacofonia densa e violenta. sem a m&iacute;nima concess&atilde;o &agrave;s conven&ccedil;&otilde;es sobre ritmo e melodia.<\/p>\n<p>Estas pe&ccedil;as haviam de se tornar cada vez mais extensas, superando os seus pr&oacute;prios limites em cada obra seguinte , originando aquilo que contraditoriamente se pode chamar: m&uacute;sica noise.<\/p>\n<p>A presen&ccedil;a do ru&iacute;do na m&uacute;sica contempor&atilde;nea n&atilde;o era, j&aacute; ent&atilde;o in&eacute;dita e, pelo menos, desde os futuristas itaianos que encontramos o ru&iacute;do, n&atilde;o s&oacute; como fen&oacute;meno acidental, mas tomado mesmo por vezes como o objecto essencial da express&atilde;o musical moderna.<\/p>\n<p>Em 1913, Luigi Russolo escrevia o seu manifesto &#8220;A Arte dos Ru&iacute;dos&#8221; e proclamava o uso de todos os ru&iacute;dos, desde os motores de explos&atilde;o aos gritos humanos, como express&atilde;o material de uma m&uacute;sica moderna e futurista, que se opunha aos entediantes concertos dos sal&otilde;es burgueses.<\/p>\n<p>Na verdade, este compositor italiano n&atilde;o se limitou a usaar os sons urbanos do quotidiano como os recriou, inventando os seus pr&oacute;prios intonarumori (m&aacute;quinas de fazer ru&iacute;do), para os quais escreveu composi&ccedil;&otilde;es numa nova forma de nota&ccedil;&atilde;o musical. N&atilde;o obstante, n&atilde;o podemos inscrever o &#8220;bruitismo&#8221; de Russolo na genealogia de Merzbow. Se Russolo reivindicava o uso dos ru&iacute;dos  na sua m&uacute;sica futurista, fazia-o em nome da renova&ccedil;&atilde;o t&iacute;mbrica da m&uacute;sica moderna. De facto, podemos reconhecer herdeiros directos desse enrequecimento da m&uacute;sica com sons concrets do quotidiano e da s&iacute;ntese electr&oacute;nioca de sons em Edgar Var&egrave;se (&#8220;Po&eacute;me El&eacute;ctronique&#8221;), em Pierre Schaffer e Pierre Henry, ou mesmo em express&otilde;es populares, do rock ao techno. J&aacute; em Merzbow, e no noise japon&ecirc;s, em geral, o ru&iacute;do n&atilde;o &eacute; apenas um novo instrumento; ele torna-se a forma e a mat&eacute;ria da obra musical, em tudo o que isso pode ter de contradit&oacute;rio.<\/p>\n<p>O ru&iacute;do &eacute; normalmente definido como o som desagrad&aacute;vel e n&atilde;o desejado, opondo-se ao som musical. Esta &eacute; talvez a defini&ccedil;&atilde;o mais simples e mais aceite, mas assenta num crit&eacute;rio subjectivo:o que &eacute; ru&iacute;do para uns pode tratar-se m&uacute;sica para outros. Nesta mesma linha relativista e subjectivista, Masami Akita problematiza: &#8220;N&atilde;o fa&ccedil;o ideia do que chamam m&uacute;sica ou ru&iacute;do (&#8230;) se o ru&iacute;do significa som desconfort&aacute;vel, ent&atilde;o a m&uacute;sica pop &eacute; ru&iacute;do para mim&#8221;.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.clubotaku.org\/niji\/music\/merzbow-msica-noise\/attachment\/2-274\/\" rel=\"attachment wp-att-11595\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.clubotaku.org\/nijiwp\/wp-content\/uploads\/2259.jpg\" alt=\"\" title=\"2\" width=\"640\" height=\"290\" class=\"alignnone size-full wp-image-11595\" srcset=\"https:\/\/www.clubotaku.org\/nijiwp\/wp-content\/uploads\/2259.jpg 640w, https:\/\/www.clubotaku.org\/nijiwp\/wp-content\/uploads\/2259-300x135.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Por&eacute;m, e ao contr&aacute;rio do que mostra a boa f&eacute; destas palavras, a m&uacute;sica noise joga precisamente com a oposi&ccedil;&atilde;o som musical\/ru&iacute;do, nomeadamente, com o facto de o ru&iacute;do ser fun&ccedil;&atilde;o do que n&atilde;o &eacute; ru&iacute;do, que por sua vez &eacute; fun&ccedil;&atilde;o de n&atilde;o ser ru&iacute;do. Isto &eacute;, o ru&iacute;do &eacute; ru&iacute;do na medida em que n&atilde;o &eacute; m&uacute;sica, e a m&uacute;sica s&oacute; o &eacute;, porque n&atilde;o &eacute; ru&iacute;do.<\/p>\n<p>Mas isto n&atilde;o significa que o ru&iacute;do seja uma forma mais primitiva e origin&aacute;ria de som. O som bruto n&atilde;o &eacute; nem m&uacute;sica, nem ru&iacute;do. Essas s&atilde;o apenas categorias que s&atilde;o aplicadas aos resultados da percep&ccedil;&atilde;o auditiva em fun&ccedil;&atilde;o de crit&eacute;rios psicol&oacute;gicos e culturais. Escolher o ru&iacute;do como categoria est&eacute;tica essencial de uma express&atilde;o musical &eacute; partir de uma contradi&ccedil;&atilde;o interna: apresentando como m&uacute;sica o que &eacute; suposto n&atilde;o ser m&uacute;sica, parece matar no ber&ccedil;o o pr&oacute;prio projecto de m&uacute;sica noise, pois, a partir do momento em que &eacute; apresentado a um p&uacute;blico dispon&iacute;vel ela parece perder instantaneamente a sua fun&ccedil;&atilde;o de ru&iacute;do, tornando-se apenas projecto art&iacute;stico.<\/p>\n<p>Semelhante situa&ccedil;&atilde;o viveu o projecto de &#8220;anti-arte&#8221; Dada, onde os limites entre a express&atilde;o art&iacute;stica e a vida foram postos &agrave; prova, quando objectos do quotidiano (o famoso urinol de Duchamp) foram retirados do seu contexto e expostos como obras de arte. O projecto &#8220;anti&#8221; fracassara a  partir do momento em que as pe&ccedil;as passaram a integrar as colec&ccedil;&otilde;es permanentes dos museus e o que era subversivo tornara-se num inofensivo momento da hist&oacute;ria da arte.<\/p>\n<p>Ora o fracasso foi meramente aprarente e s&oacute; pode assim ser interpretado &agrave; luz de considera&ccedil;&otilde;es meramente formais. Com efeito, a subvers&atilde;o Dada foi bem real e concreta, servindo para requestionar os limites da linguagem art&iacute;stica e do papel da arte na sociedade.<\/p>\n<p>Tamb&eacute;m o noise de Merzbow &eacute; concreto e a tens&atilde;o dial&eacute;ctica entre a m&uacute;sica e ru&iacute;do n&atilde;o pode ser resolvida pela op&ccedil;&atilde;o formal de apresentar ou n&atilde;o como obra musical. Pelo contr&aacute;rio, a sedu&ccedil;&atilde;o do som de Merzbow, em toda a sua densidade, satura&ccedil;&atilde;o, irrepetibilidade, irracionalidade, brutalidade, reside na iminente reversibilidade da sua tens&atilde;o dial&eacute;ctica: ru&iacute;do insuport&aacute;vel\/&ecirc;xtase auditivo.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.clubotaku.org\/niji\/music\/merzbow-msica-noise\/attachment\/3-242\/\" rel=\"attachment wp-att-11596\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.clubotaku.org\/nijiwp\/wp-content\/uploads\/3231.jpg\" alt=\"\" title=\"3\" width=\"640\" height=\"290\" class=\"alignnone size-full wp-image-11596\" srcset=\"https:\/\/www.clubotaku.org\/nijiwp\/wp-content\/uploads\/3231.jpg 640w, https:\/\/www.clubotaku.org\/nijiwp\/wp-content\/uploads\/3231-300x135.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Por esta raz&atilde;o, a experi&ecirc;ncia de Merzbow aproxima-se do pat&eacute;tico er&oacute;tico: o desejo de fus&atilde;o m&iacute;stica e a impossibilidade da uni&atilde;o determinada pela descontinuidade tr&aacute;gica da diferen&ccedil;a. &Eacute; o pr&oacute;prio Masami Akita quem reivindica o pan-erotismo da sua express&atilde;o musical: &#8220;Tudo &eacute; er&oacute;tico, todo o lugar &eacute; er&oacute;tico&#8221;, citando o aforismo surrealista que mais o influenciou; e continua: &#8220;o ru&iacute;do &eacute; a mais er&oacute;tica forma de som, por isso todos os meus trabalhos referem ao er&oacute;tico&#8221;. E, de facto, o ouvinte de Merzbow &eacute; brutalmente violado e, simultaneamente, convocado &agrave; escuta activa e desejante: assaltado pela densa massa de freq&ecirc;ncias, a repuls&atilde;o logo se transforma em atrac&ccedil;&atilde;o e sente-se emergir nessa densidade sonora, sem, por&eacute;m, nunca encontrar o conforto de uma harmonia ou a regularidade de um ritmo, antes, mantendo-se nume fren&eacute;tica e inalcan&ccedil;&aacute;vel demanda.<\/p>\n<p>A met&aacute;fora do masoquista n&atilde;o &eacute; aqui deslocada, podendo mesmo considerar-se o paradigma do ouvinte ocidental de noise japon&ecirc;s. Mas a perspectiva oriental de Merzbow n&atilde;o &eacute; a do controlo da audi&ecirc;ncia ou mesmo do material sonoro (essa seria porventura a inten&ccedil;&atilde;o de alguns grupos ocidentais oriundos da m&uacute;sica industrial, como Whitehouse, referida por&eacute;m como influ&ecirc;ncia de Merzbow); bem no oposto disso, desde os seus primeiros trabalhos, Masami Akita procurou minorar a sua interven&ccedil;&atilde;o, reiventando o processo de cria&ccedil;&atilde;o autom&aacute;tica atrav&eacute;s da aleatoriedade da produ&ccedil;&atilde;o do som pelo equipamento que utilizava, nomeadamente, explorando as virtualidades do &#8220;feedback&#8221;, em vez da nota&ccedil;&atilde;o musical.<\/p>\n<p>&#8220;Os sons de &#8220;feedback&#8221; do equipamento s&atilde;o um conceito central para Merzbow. O &#8220;feedback&#8221; produz automaticamente uma tempestadede ru&iacute;do e isso &eacute; bastante er&oacute;tico&#8221;, como se se tratasse de uma &#8220;expia&ccedil;&atilde;o magn&eacute;tica da electr&oacute;nica&#8221;.<\/p>\n<p>A produ&ccedil;&atilde;o de Merzbow &eacute; ainda muito activa e tem vindo a ganhar um grande reconhecimento internacional. O n&uacute;mero de pe&ccedil;as elava-se acima dos 500. Recomendam-se os &aacute;lbuns dispon&iacute;veis nalgumas discotecas &#8211; &#8220;Noisembryo&#8221;, &#8220;Music for Bondage Performance&#8221;, &#8221; 1930&#8243;, Material Aktion II&#8221; &#8211; para a descoberta de uma das formas mais extremas e menos convencionais de express&atilde;o sonora.<\/p>\n<p><b>Escrito por: Nuno da Fonseca<\/b><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No &iacute;nicio dos anos 80, o jovem Masami Akita, insatisfeito com a sua passagem pelo rock e pela pintura, decide-se exprimir-se de um modo novo: brutal e inconformista, junta a&nbsp;[ &hellip; ]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":11594,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1283,9],"tags":[1400,1399,1401],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.clubotaku.org\/niji\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7881"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.clubotaku.org\/niji\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.clubotaku.org\/niji\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.clubotaku.org\/niji\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.clubotaku.org\/niji\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=7881"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.clubotaku.org\/niji\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7881\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.clubotaku.org\/niji\/wp-json\/wp\/v2\/media\/11594"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.clubotaku.org\/niji\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=7881"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.clubotaku.org\/niji\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=7881"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.clubotaku.org\/niji\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=7881"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}