{"id":7951,"date":"2006-03-26T00:00:00","date_gmt":"2006-03-26T00:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.clubotaku.org\/nijiwp\/?p=7951"},"modified":"2014-10-30T19:28:59","modified_gmt":"2014-10-30T20:28:59","slug":"ping-pong","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.clubotaku.org\/niji\/cinem\/ping-pong\/","title":{"rendered":"Ping Pong"},"content":{"rendered":"<p>A ideia de ver um filme sobre um desporto como ping-pong poder\u00e1 n\u00e3o ser apelativa \u00e0 grande maioria dos espectadores de cinema, mesmo aqueles que v\u00eaem no &#8216;novo cinema asi\u00e1tico&#8217; um excelente escape \u00e0 falta de ideias nos blockbusters americanos. Mas &#8220;Ping Pong&#8221;, filme de estreia de Fumihiko (ou Sori) Masuri \u00e9 um dos filmes mais cativantes de um g\u00e9nero cinematogr\u00e1fico e televisivo extremamente popular junto do p\u00fablico japon\u00eas (refiro-me aos filmes sobre desportos), prendendo ao ecr\u00e3 mesmo aqueles que t\u00eam total avers\u00e3o \u00e0 pr\u00e1tica desportiva com espectaculares efeitos especiais e ac\u00e7\u00e3o fren\u00e9tica, combinados com uma hist\u00f3ria com alguma profundidade narrativa, algo nem sempre presente em filmes de tem\u00e1tica semelhante.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-15258\" src=\"http:\/\/www.clubotaku.org\/nijiwp\/wp-content\/uploads\/1619.jpg\" alt=\"1\" width=\"640\" height=\"290\" srcset=\"https:\/\/www.clubotaku.org\/nijiwp\/wp-content\/uploads\/1619.jpg 640w, https:\/\/www.clubotaku.org\/nijiwp\/wp-content\/uploads\/1619-300x135.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><\/p>\n<p>Realizado em 2002, &#8220;Ping Pong&#8221; \u00e9 uma adapta\u00e7\u00e3o comercial do popular manga de Taiyo Matsumoto com o mesmo nome, que relata as mudan\u00e7as nas rela\u00e7\u00f5es entre dois amigos de inf\u00e2ncia, o irreverente e desbocado Peco (representado por um dos actores mais \u2018vis\u00edveis\u2019 da nova gera\u00e7\u00e3o do cinema japon\u00eas, Yosuke Kubozuka) e um calado e t\u00edmido Smile (representado por Arata), quando confrontados com a hip\u00f3tese de tornarem o seu hobby de sempre (o t\u00e9nis de mesa) numa carreira profissional. Peco, que sempre teve talento mas pouca disciplina para conseguir progredir, come\u00e7a a d\u00favidar da sua aparente mestria no Ping Pong quando \u00e9 derrotado de forma humilhante por China (Sam Lee), um Pro que n\u00e3o conseguiu lugar na selec\u00e7\u00e3o chinesa e que emigrou para o Jap\u00e3o para conseguir ascender no campeonato local. Simultaneamente Smile, que sempre manteve um low-profile perto de Peco, deixando-o sempre ganhar todos os jogos que jogaram juntos, come\u00e7a a treinar intensivamente, encorajado pelo treinador Butterfly Joe (Naoto Takenaka), um antigo campe\u00e3o ca\u00eddo em desgra\u00e7a, para conseguir destronar o invenc\u00edvel e fan\u00e1tico Dragon (interpretado por Shido Nakamura, um actor de Kabuki e estrela do aclamado Rinjin 13-g\u00f4\/Neighbour No. 13).<\/p>\n<p>Sem querer revelar muito mais, a hist\u00f3ria ir\u00e1 desenrolar-se pondo em causa muito dos pormenores que cimentavam a amizade de ambos, envolvendo o espectador numa narrativa onde se assiste \u00e0 desilus\u00e3o, \u00e0 vit\u00f3ria, ao refor\u00e7ar e ao destruir de mitos e clich\u00e9s desportivos (existe mesmo uma c\u00f3pia \u00e0 c\u00e9lebre cena da escadaria de &#8220;Rocky&#8221;), e at\u00e9 mesmo \u00e0 chegada ao Satori budista de uma das v\u00e1rias personagens que construem uma das f\u00e1bulas desportivas mais interessantes que o cinema nip\u00f3nico nos deu.<\/p>\n<p>Como j\u00e1 foi referido o filme est\u00e1 construido sobre as elaboradas performances desportivas, todas realizadas com estonteantes efeitos especiais, mas consegue ganhar interesse para al\u00e9m das cenas de ac\u00e7\u00e3o. Masuri, at\u00e9 aqui um consultor de efeitos especiais (segundo parece fez parte da equipa de efeitos especiais do piroso &#8220;Titanic&#8221;) joga no seu &#8216;elemento natural&#8217;, filmando toda a ac\u00e7\u00e3o em video digital, mas sem cair no deslumbramento perigoso de &#8216;infestar&#8217; o filme apenas com espectaculares cenas produzidas atrav\u00e9s de CGI, tendo tido especial cuidado na adapta\u00e7\u00e3o ao complexo (em termo narrativos e de personagens) manga de Matsumoto, mesmo quando a cad\u00eancia da estrutura narrativa (que at\u00e9 ao meio do filme se apresenta lenta e introspectiva), n\u00e3o \u00e9 vantajosa (aparentemente) para o formato cinematogr\u00e1fico.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-15257\" src=\"http:\/\/www.clubotaku.org\/nijiwp\/wp-content\/uploads\/2442.jpg\" alt=\"2\" width=\"640\" height=\"290\" srcset=\"https:\/\/www.clubotaku.org\/nijiwp\/wp-content\/uploads\/2442.jpg 640w, https:\/\/www.clubotaku.org\/nijiwp\/wp-content\/uploads\/2442-300x135.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><\/p>\n<p>Mesmo sendo t\u00e3o fiel \u00e0 obra que deu forma ao filme, &#8220;Ping Pong&#8221; consegue ser visionado perfeitamente sem qualquer liga\u00e7\u00e3o ao manga, algo nem sempre conseguido de forma t\u00e3o total e independente em adapta\u00e7\u00f5es de comics e anime (estou-se a lembrar do caso particular de &#8220;Nana&#8221; de Kentar\u00f4 \u00d4tani, estreado em 2005 e que parece estar dependente de um p\u00fablico j\u00e1 conhecedor do manga de Ai Yazawa para conseguir gerar o culto que j\u00e1 se faz sentir).<\/p>\n<p>A interpreta\u00e7\u00e3o mais relevante do filme \u00e9 claramente para Yosuke Kubozuka (que ficou conhecido com \u201cLaundry\u201d de Junichi Mori), a quem personagens &#8216;expansivas&#8217; calham sempre bem (basta ver o posterior Madness in Bloom para entender isso), mas todas as interpreta\u00e7\u00f5es conseguem acompanhar bastante bem o ritmo da personagem de Peco, mesmo os secund\u00e1rios aparentemente sem grande relevo (como YosiYosi Arakawa, aqui num inevit\u00e1vel papel de comic relief como quase todos os outros que costuma fazer em cinema e dorama), cumprindo eficientemente os pap\u00e9is das v\u00e1rias personagens que v\u00e3o circulando \u00e0 volta da hist\u00f3ria de Peco e Smile, e que valorizam ainda mais o filme.<\/p>\n<p>Mesmo parecendo por vezes algo &#8216;poupado&#8217; na caracteriza\u00e7\u00e3o das personagens (nota-se isso sobretudo na personagem de Smile, que \u00e9 algo &#8216;obscurecida&#8217; pela j\u00e1 referida entusi\u00e1stica performance de Kubozuka\/Peco), Masuri consegue transportar a ess\u00eancia dos cinco volumes de Ping Pong de uma forma bastante fiel, quer em termos visuais e narrativos (praticamente um &#8216;espelho&#8217; do manga), quer na rela\u00e7\u00e3o entre as v\u00e1rias personagens, sobretudo a amb\u00edgua e longa rela\u00e7\u00e3o de amizade entre as duas personagens principais, vivendo o filme mais do &#8216;existencialismo&#8217; que a obra de Matsumoto transmite do que dos inevit\u00e1veis efeitos especiais. V\u00e1rios pormenores narrativos e flashbacks na hist\u00f3ria foram respeitados (atrav\u00e9s de uma montagem de filme apreci\u00e1vel) e mesmo pormenores simb\u00f3licos ou aleg\u00f3ricos que Matsumoto usa na sua obra foram aproveitados, como a magn\u00edfica cenas de Butterfly Joe com as asas de borboleta ou o uso nos uniformes de Peco e Smile de uma estrela e de um crescente lunar, respectivamente, uma met\u00e1fora \u00e0s personalidades de ambos e \u00e0 sua rela\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Embora n\u00e3o seja directamente um filme de &#8216;efeitos especiais&#8217;, Ping Pong foi &#8216;apresentado&#8217; ao p\u00fablico como uma esp\u00e9cie de &#8216;Matrix do Ping Pong'(!), termo, segundo parece, inventado por alguns cr\u00edticos de cinema ocidentais pouco habituados ao cinema asi\u00e1tico e que tinham j\u00e1 tido oportunidade de ver o aparatoso mas pouco relevante &#8220;Shaolin Soccer&#8221; (de Stephen Chow) um ano antes e a quem parecia que \u201cPing Pong\u201d seguiria o mesmo caminho.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-15256\" src=\"http:\/\/www.clubotaku.org\/nijiwp\/wp-content\/uploads\/3397.jpg\" alt=\"3\" width=\"640\" height=\"290\" srcset=\"https:\/\/www.clubotaku.org\/nijiwp\/wp-content\/uploads\/3397.jpg 640w, https:\/\/www.clubotaku.org\/nijiwp\/wp-content\/uploads\/3397-300x135.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><\/p>\n<p>De facto a compara\u00e7\u00e3o, infeliz e injusta, n\u00e3o faz juz ao que esta obra cont\u00e9m, sendo considerado quase unanimemente um dos filmes comerciais mais interessantes a ter sa\u00eddo do Jap\u00e3o nos \u00faltimos 5 anos e uma das melhores primeiras obras de um realizador japon\u00eas dos \u00faltimos anos.<\/p>\n<p>Resta apenas aconselhar a ver (e rever como pessoalmente fa\u00e7o com alguma regularidade) este filme para entender que existe muito mais para al\u00e9m do cinema comercial japon\u00eas do que cinema de terror que mais tarde ou mais cedo ser\u00e1 sujeito a um remake americano ou a simples adapta\u00e7\u00f5es de manga ou anime (com sucess\u00edvos updates por vezes) apenas para agradar aos j\u00e1 inevit\u00e1veis fans de qualquer fandom particular ou para rentabilizar um produto comercialmente vezes sem conta. E para aqueles que possam n\u00e3o se sentir particularmente impelidos a ver este filme devido ao seu tema central, acreditem que depois de o fazer nunca mais ver\u00e3o o Ping Pong como um simples desporto inconsequente que apenas serve para passar o tempo durantes as f\u00e9rias.<\/p>\n<p><b>Escrito por: Nuno Barradas<\/b><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A ideia de ver um filme sobre um desporto como ping-pong poder\u00e1 n\u00e3o ser apelativa \u00e0 grande maioria dos espectadores de cinema, mesmo aqueles que v\u00eaem no &#8216;novo cinema asi\u00e1tico&#8217;&nbsp;[ &hellip; ]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":15258,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1283,12],"tags":[1585,1586],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.clubotaku.org\/niji\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7951"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.clubotaku.org\/niji\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.clubotaku.org\/niji\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.clubotaku.org\/niji\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.clubotaku.org\/niji\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=7951"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/www.clubotaku.org\/niji\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7951\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":18466,"href":"https:\/\/www.clubotaku.org\/niji\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7951\/revisions\/18466"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.clubotaku.org\/niji\/wp-json\/wp\/v2\/media\/15258"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.clubotaku.org\/niji\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=7951"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.clubotaku.org\/niji\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=7951"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.clubotaku.org\/niji\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=7951"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}