{"id":7952,"date":"2006-03-26T00:00:00","date_gmt":"2006-03-26T00:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.clubotaku.org\/nijiwp\/?p=7952"},"modified":"2006-03-26T00:00:00","modified_gmt":"2006-03-26T00:00:00","slug":"3-adultos-yoshihiro-tatsumi-parte-i","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.clubotaku.org\/niji\/manga\/3-adultos-yoshihiro-tatsumi-parte-i\/","title":{"rendered":"3 Adultos: Yoshihiro Tatsumi (parte I)"},"content":{"rendered":"<p>&#147;Cad&aacute;veres adiados que procriam&#148;. Seguramente conhecer&atilde;o esta conhecida frase de Fernando Pessoa. Eis o tema que me parece surgir a cada hist&oacute;ria de Yoshihiro Tatsumi, eis o nome que parecem carregar todos seus protagonistas.<\/p>\n<p>Tal como Osamu Tezuka &eacute; invariavelmente apontado como o inventor da mang&aacute; moderna (da banda desenhada moderna no Jap&atilde;o), tamb&eacute;m Tatsumi &eacute; indicado como o respons&aacute;vel &#150; dentro destas generaliza&ccedil;&otilde;es que tornam uma s&oacute; pessoa respons&aacute;vel por uma transforma&ccedil;&atilde;o profunda de qualquer coisa, atitude t&iacute;pica de uma Velha Hist&oacute;ria, por um lado, e por outro de uma reifica&ccedil;&atilde;o do Her&oacute;i, pr&oacute;pria destas bandas &#150; do advento de uma mang&aacute; mais adulta, realista, &#147;alternativa&#148;. Tatsumi chegou mesmo a inventar um neologismo, de que fez sua miss&atilde;o divulgar, influenciar outros, etc.: &#147;Gegika&#148;, usualmente traduzido por &#147;imagens dram&aacute;ticas&#148;. No entanto (cf. gloss&aacute;rio no clubotaku.org), este &eacute; um termo em desuso no Jap&atilde;o e que se presta aos abusos t&iacute;picos de outros, como &#147;graphic novel&#148;. &Eacute; ineg&aacute;vel, por&eacute;m, que estamos longe de uma manga dirigida a um p&uacute;blico infantil, ou mesmo juvenil, ou a qualquer dos temas que tipificam os escapismos tamb&eacute;m pr&oacute;prios da maior ind&uacute;stria de banda desenhada do mundo (e quantidade n&atilde;o significa nada mais, como se sabe&#8230;).<\/p>\n<p>Parece estarmos num momento decisivo em (re)descobrir uma produ&ccedil;&atilde;o mais interessante de mang&aacute;. N&atilde;o obstante o tempo que demorou ser-nos acess&iacute;vel estoutro tipo de trabalho, parece haver um certo concerto em nos franquearem as portas de acesso: nos &uacute;ltimos dois anos, as baterias editoriais em Fran&ccedil;a, Espanha e Estados Unidos come&ccedil;aram a publicar tradu&ccedil;&otilde;es dos curtos relatos de Tatsumi, que agora nos ocupa. Enquanto que a Drawn &#038; Quarterly j&aacute; havia publicado uma das hist&oacute;rias na sua revista hom&oacute;nima (no. 5) e est&aacute; prestes a iniciar uma colec&ccedil;&atilde;o de livros da sua obra integral, j&aacute; a Vertige Graphic e a La C&uacute;pula editavam v&aacute;rios volumes (3 a primeira, 2 a segunda). A compara&ccedil;&atilde;o das estrat&eacute;gias editoriais, a tradu&ccedil;&atilde;o, as apresenta&ccedil;&otilde;es, as selec&ccedil;&otilde;es, dessas edi&ccedil;&otilde;es levar&atilde;o a algum grau de entendimento da dificuldade que ser&aacute; em se ser objectivo na transla&ccedil;&atilde;o da mang&aacute; para as nossas (ocidentais) p&aacute;ginas.<\/p>\n<p>Vejamos a hist&oacute;ria que se encontra j&aacute; traduzida em ingl&ecirc;s, espanhol e franc&ecirc;s, cujo t&iacute;tulo original &eacute; &#147;shiik&uacute;&#148;, substantivo aplicado &agrave; &#147;educa&ccedil;&atilde;o&#148; ou &#147;cria&ccedil;&atilde;o&#148;, usualmente de animais de estima&ccedil;&atilde;o, e traduzido respectivamente por Kept, La Caseta e La Nourrice. A op&ccedil;&atilde;o em manter a mesma pagina&ccedil;&atilde;o e orienta&ccedil;&atilde;o de leitura japonesa (op&ccedil;&atilde;o francesa) &eacute; a &uacute;nica que parece apostada em n&atilde;o exercer viol&ecirc;ncia na arte original, mas as outras op&ccedil;&otilde;es n&atilde;o se modo algum mal-vindas. Simplesmente leva-nos a estas quest&otilde;es sobre edi&ccedil;&atilde;o, que ficar&atilde;o sem resposta, precisamente pela liberdade dessas op&ccedil;&otilde;es. O protagonista n&atilde;o diz uma &uacute;nica palavra, somente ladra numa vinheta. Mas n&atilde;o estamos perante uma alegoria, nem perante uma par&aacute;bola de Kafka, nem um conto sobre a loucura. Estamos somente sendo testemunhas de a que &eacute; que o desespero e a falta de orienta&ccedil;&atilde;o humana pode reduzir um homem. O sofrimento humano poder&aacute; possuir muitas fei&ccedil;&otilde;es, mas &eacute; como uma dessas m&aacute;scaras Noh que o mestre escultor tenta criar numa das hist&oacute;rias, que s&oacute; consegue ser criada pela morte, e apesar dos jogos de luz lhe darem a ilus&atilde;o de vida, est&aacute; sempre petrificada num esgar inflex&iacute;vel, um sorriso de Gioconda, belo mas frio, magn&iacute;fico porque em sil&ecirc;ncio.<\/p>\n<p>Os desenhos simples, abonecados, de Tatsumi s&oacute; superficialmente parecem convir a hist&oacute;rias calmas e simples. Bem pelo contr&aacute;rio, e apesar dos dramas apresentados nunca se tornarem hist&eacute;ricos, explosivos &#150; nisto parece ter influenciado muitos autores futuros, de v&aacute;rias gera&ccedil;&otilde;es, de Taniguchi a Kiriko Nananan &#150; s&atilde;o negras as tempestades que se desenrolam nos peitos das suas personagens. Apesar de Tatsumi ter &#147;limpo&#148; as suas hist&oacute;rias dos normais trejeitos e mecanismos espectaculares de mang&aacute;s mais comerciais, um ao deixa de utilizar sobejamente &eacute; mostrar as personagens a olhar para cima e para o lado, com os corpos virados para n&oacute;s (espectadores-leitores), mas vendo o que se passa &#147;atr&aacute;s&#148; deles. Esse olhar &eacute; como um olhar por cima dos ombros, para tr&aacute;s, que tanto abarca o espa&ccedil;o em quest&atilde;o como um tempo ao qual &eacute; imposs&iacute;vel retornar e que ergue uma esp&eacute;cie de muro invis&iacute;vel e mudo de uma qualquer situa&ccedil;&atilde;o imposs&iacute;vel de remediar. &Eacute; tamb&eacute;m um olhar de acossado, impelido inexoravelmente para um desfecho qualquer, raramente &#147;feliz&#148; e nunca turbulento. Podemos falar de &#147;desenlace&#148;, de &#147;resolu&ccedil;&atilde;o&#148; ou simplesmente de &#147;fim&#148; nestas hist&oacute;rias, mas jamais em &#147;cl&iacute;max&#148;. O seu auge &eacute; sempre um understatement.<\/p>\n<p>Para al&eacute;m da frase de Pessoa, h&aacute; duas outras frases feitas que se parecem alojar em perfei&ccedil;&atilde;o com a obra de Tatsumi. Mais vale s&oacute; que acompanhado, por exemplo, apesar das suas hist&oacute;rias demonstrarem que estamos sempre, sempre, rodeados por outros, mas que as &uacute;nicas realiza&ccedil;&otilde;es poss&iacute;veis, s&oacute; o seriam na maior das solid&otilde;es, e mesmo assim seriam meras ilus&otilde;es. E (partindo duma frase sartriiana na edi&ccedil;&atilde;o espanhola) o inferno s&atilde;o os outros, mas somos sempre n&oacute;s apenas que cumprimos as suas penas.<\/p>\n<p><b>Autor:Pedro Moura<\/b><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#147;Cad&aacute;veres adiados que procriam&#148;. 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