{"id":7957,"date":"2006-04-14T23:00:00","date_gmt":"2006-04-14T23:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.clubotaku.org\/nijiwp\/?p=7957"},"modified":"2006-04-14T23:00:00","modified_gmt":"2006-04-14T23:00:00","slug":"3-adultos-yoshiharu-tsuge-parte-ii","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.clubotaku.org\/niji\/manga\/3-adultos-yoshiharu-tsuge-parte-ii\/","title":{"rendered":"3 Adultos: Yoshiharu Tsuge (parte II)"},"content":{"rendered":"<p><split><\/p>\n<p>O que nos faz adiar o inadi&aacute;vel? N&atilde;o se trata de um ox&iacute;moro, mas uma observ&acirc;ncia de factos a que nos entregamos nas nossas vidas. Vivendo todos os dias, sendo imposs&iacute;vel podermos interromper essa vida por uns breves momentos que sonhamos serem de descanso, ou sendo-nos imposs&iacute;vel viver diferentes vidas, como se existisse alguma consola&ccedil;&atilde;o na sua multiplica&ccedil;&atilde;o, n&atilde;o nos podemos furtar ao que lhe surge pela frente como, n&atilde;o somente necess&aacute;rio, nem sequer obrigat&oacute;rio, mas intrinsecamente imperativo. Quando tomamos consci&ecirc;ncia, mesmo que quase imperceptivelmente, como se fosse um laivo de intui&ccedil;&atilde;o que nos segredasse o que se aproximava mas n&atilde;o o fizesse por palavras, de algo que se aproxima com consequ&ecirc;ncias irrefut&aacute;veis para as nossas vidas, fazemos tudo para que esse encontro e a subsequente metamorfose de n&oacute;s pr&oacute;prios seja sempre &#147;um pouco mais tarde&#148;, um &#147;mais tarde&#148; indefinido&#8230;<\/p>\n<p>Aos poucos, por repetir esse gesto, a felicidade surge-nos como a ilus&atilde;o de evitar que alguma vez esse encontro se d&ecirc;. Em vez de abra&ccedil;armos esse vulto que nos parece incomport&aacute;vel, insuport&aacute;vel at&eacute;, mas nos transfiguraria, &eacute;-nos mais f&aacute;cil v&ecirc;-lo como uma esp&eacute;cie de inimigo, ou melhor, um primo indesej&aacute;vel, que convid&aacute;mos a aparecer &#147;um dia destes&#148;, mas esperamos que jamais apare&ccedil;a. E sempre se inventam desculpas para que n&atilde;o seja hoje, nem este fim-de-semana, que ele nos visite&#8230; &#147;Temos tempo&#148;, pensamos para n&oacute;s mesmos.<\/p>\n<p>N&atilde;o temos tempo. Essa &eacute; a &uacute;nica &#150; afora mais duas ou tr&ecirc;s &#150; certezas que podemos ter na vida. Sukez&ocirc; Sukegawa, o protagonista desta narrativa dividida em cinco cap&iacute;tulos, parece saber melhor que ningu&eacute;m que n&atilde;o h&aacute; tempo para nada, por isso entrega-se mais depressa a um devaneio mole por sonhos que jamais ser&atilde;o cumpridos, a uma esp&eacute;cie de arrastamento mole de cada dia, concentrando o seu esfor&ccedil;o n&atilde;o no esfor&ccedil;o, mas na mais leve fantasia que esse esfor&ccedil;o permite. N&atilde;o &eacute; escapista, Sukez&ocirc;, porque para escapar &eacute; preciso estar-se num s&iacute;tio de onde se escapa, e ele vive no mundo quase como que por acaso, fantasmando-se pelas esquinas.<\/p>\n<p>Num mundo perfeito, n&atilde;o precisar&iacute;amos de apresentar Yoshiharu Tsuge e conhecer&iacute;amos com maior intimidade a sua obra. Mas aos poucos, atrav&eacute;s de edi&ccedil;&otilde;es esparsas e dispersas vamos descobrindo o valor deste autor, grande entre os grandes, n&atilde;o s&oacute; em termos da mang&aacute; como na banda desenhada. Esta, como arte, tem de facto os seus autores &#147;universais&#148;. Tsuge &eacute; um deles sem a mais tremebunda das d&uacute;vidas. O texto que acompanha esta edi&ccedil;&atilde;o &eacute; curto mas incisivo e resume parte do peso do autor. Outra fonte de informa&ccedil;&atilde;o &eacute; a Raw (inclusive nas edi&ccedil;&otilde;es mais tardias na Penguin), onde se editaram, julgo, s&oacute; duas hist&oacute;rias (uma delas capaz de levar &agrave;s l&aacute;grimas cr&iacute;ticos &#147;virulentos&#148;: wink! wink! e ol&aacute;!), The Comics Journal #250, os livros de Frederick Schodt, o texto de Mitsuhiro Asakawa na 9e. Art # 10, e este excelente artigo de Beatrice Marechal, que s&oacute; nos amola por n&atilde;o termos acesso &agrave;s obras citadas. Mas &eacute;-me incomport&aacute;vel se n&atilde;o mesmo insuport&aacute;vel querer num t&atilde;o curto espa&ccedil;o dar-vos a amplitude de Tsuge. Seria um desmerecimento. Centremo-nos no livro que se nos apresenta. &Eacute; um livro relativamente caro, mas para quem n&atilde;o busca satisfa&ccedil;&otilde;es e prazeres f&aacute;ceis (que na bd, os h&aacute; aos montes), e procura antes uma educa&ccedil;&atilde;o e uma emo&ccedil;&atilde;o inaudita, &eacute; uma obrigatoriedade.<\/p>\n<p><split><\/p>\n<p>Logo &agrave; superf&iacute;cie, poder&iacute;amos dizer que O Homem sem Talento resulta da linha dos gekika, da mang&aacute; de autor, que &eacute; semi-autobiogr&aacute;fico, que voga pelas amarguras da falta de vontade em criar, no engano em procurar as qualidades pr&oacute;prias, no peso esmagador que a vida de todos os dias exerce na exist&ecirc;ncia mundana de um homem. Apesar de haver quem salte de imediato &agrave; compara&ccedil;&atilde;o, mais por paran&oacute;ia do t&iacute;tulo que qualquer outra coisa, com O Homem sem Qualidades, de Musil, n&atilde;o poderia essa aproxima&ccedil;&atilde;o ser mais err&oacute;nea. O Mann ohne Eigenschaften, Ulrich, &eacute; a criatura ep&iacute;teto do s&eacute;culo XX, o eterno adaptado, o verdadeiro Super-Homem anunciado e n&atilde;o &#147;efeminado&#148; que n&atilde;o poderia de modo algum herdar a Terra &#150; mas que acabou por herdar (veja-se o texto de Jo&atilde;o Urbano, na Nada #3). O Homem sem Talento &eacute; algu&eacute;m que n&atilde;o tem m&atilde;os h&aacute;beis para nenhum dos seus dias, que desfaz o trabalho feito, que n&atilde;o encontra mesura que lhe sirva. Nada disso nega a beleza que surge de momentos mais ocultos e subtis (uma sesta na neblina, as recorda&ccedil;&otilde;es de um passeio, a descoberta moment&acirc;nea da capacidade em consertar m&aacute;quinas fotogr&aacute;ficas).<\/p>\n<p>Uma outra poss&iacute;vel linha tem&aacute;tica &eacute; estabelecida com o &uacute;ltimo cap&iacute;tulo e ter&aacute; repercuss&otilde;es espec&iacute;ficas para n&oacute;s, ocidentais, que vivemos num certo fasc&iacute;nio pela cultura japonesa &#150; sobejamente apresentada como o ep&iacute;teto do Outro. O fasc&iacute;nio &eacute; estruturalmente diferente, por um lado, da atrac&ccedil;&atilde;o e, por outro, do gosto. Pois a atrac&ccedil;&atilde;o &eacute; exercida apenas superficial e momentaneamente, sen&atilde;o intermitentemente, o gosto &eacute; algo que se cultiva com paci&ecirc;ncia, esfor&ccedil;o intelectual e intimidade crescente, e o fasc&iacute;nio vive da alimenta&ccedil;&atilde;o de um certo tipo de ignor&acirc;ncia; isto &eacute;, alimenta-se de mitos. E o Jap&atilde;o presta-se sobretudo a esse tipo de aproxima&ccedil;&atilde;o: veja-se o culto dos samurais, eleitos como honrados homens de batalhas de grandes valores, defensores de uma &eacute;tica perdida, quando n&atilde;o passavam de um s&iacute;mbolo do exerc&iacute;cio do poder feudal, corrupt&iacute;veis e prepotentes. Se a palavra fosse traduzida por &#147;jagun&ccedil;o&#148;, j&aacute; a cultura samurai (tardia, por sinal) n&atilde;o exerceria tanto &#147;fasc&iacute;nio&#148;.<\/p>\n<p>Este &uacute;ltimo cap&iacute;tulo faz-nos testemunhar ainda um aprofundamento da rela&ccedil;&atilde;o entre Sukez&ocirc; e o alfarrabista Yama&iuml;, atrav&eacute;s da leitura &#150; que aqui Tsuge demonstra, por cotejamento aos restantes cap&iacute;tulos, que &eacute; tamb&eacute;m literalmente uma &#147;viagem&#148; &#150; da biografia e obra do poeta Seigetsu Yanaginoya. Aos poucos, mais subtil ou mais obviamente, apercebemo-nos de que &eacute; poss&iacute;vel estabelecer uma compara&ccedil;&atilde;o muito estreita entre esse velho monge-poeta e as duas personagens contempor&acirc;neas. Mas &eacute; precisamente nessa compara&ccedil;&atilde;o que o contexto de cada um dos termos se consolida, em rela&ccedil;&atilde;o um ao outro, como absolutos contrastes: o que nos poder&aacute; parecer rom&acirc;ntico e louv&aacute;vel numa Hist&oacute;ria j&aacute; tornada egr&eacute;gia pela dist&acirc;ncia soa-nos a displicente ego&iacute;smo e aliena&ccedil;&atilde;o no nosso tempo.<\/p>\n<p>A arte de Tsuge parece-nos p&ocirc;r em quest&atilde;o sempre toda a tentativa em estabelecer tipologias de banda desenhada: estaremos perante um desenho realista? Minimalista? Art brut? Estilizado? Tipicamente mang&aacute; (utilizando algumas das suas estrat&eacute;gias sobejamente conhecidas)? Penso que sim a tudo, de forma d&eacute;bil. Penso que n&atilde;o, quando penso estarmos perante a arte de Yoshiharu Tsuge. Por exemplo, como compreender a n&atilde;o-representa&ccedil;&atilde;o do rosto da mulher at&eacute; um determinado ponto, se n&atilde;o aliando essa representa&ccedil;&atilde;o apenas superficialmente gr&aacute;fica &agrave; imediata e mom&ecirc;ntanea flutua&ccedil;&atilde;o emotiva entre ambas as personagens, uma certa aproxima&ccedil;&atilde;o a um tempo pret&eacute;rito em rela&ccedil;&atilde;o ao que nos introduziu a esta diegese, e, quem sabe, a outros imperativos exteriores &agrave; obra em si (e imposs&iacute;vel para mim, neste patamar, de os descobrir: uma imposi&ccedil;&atilde;o editorial, uma mudan&ccedil;a na edi&ccedil;&atilde;o original, uma vontade s&uacute;bita do autor em alterar a escolha&#8230;).<\/p>\n<p>Uma &uacute;ltima leitura operativa ser&aacute; a de que esta personagem, como autor de bandas desenhadas &#147;falhado&#148; &#150; perante o grande p&uacute;blico mas n&atilde;o uma cr&iacute;tica minorit&aacute;ria (e n&atilde;o vamos entrar aqui em considera&ccedil;&otilde;es em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; poss&iacute;vel identifica&ccedil;&atilde;o e aproxima&ccedil;&atilde;o do autor real, Tsuge) -, se procura uma s&eacute;rie de solu&ccedil;&otilde;es de emprego, tarefas, formas de ganhar a vida e sentir-se realizado perante a sociedade, n&atilde;o s&atilde;o mais do que devaneios que permitem uma experimenta&ccedil;&atilde;o de v&aacute;rios estados de consci&ecirc;ncia e humor e, em &uacute;ltima inst&acirc;ncia e num movimento em direc&ccedil;&atilde;o &agrave; obra e ao leitor, de criar condi&ccedil;&otilde;es para a representa&ccedil;&atilde;o mult&iacute;moda de que esta banda desenhada (entenda-se, de Yoshiharu Tsuge) &eacute; capaz.<\/p>\n<p><split><br \/><b>Autor:Pedro Vieira Moura<\/b><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O que nos faz adiar o inadi&aacute;vel? N&atilde;o se trata de um ox&iacute;moro, mas uma observ&acirc;ncia de factos a que nos entregamos nas nossas vidas. Vivendo todos os dias, sendo&nbsp;[ &hellip; ]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1283,5],"tags":[1596],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.clubotaku.org\/niji\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7957"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.clubotaku.org\/niji\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.clubotaku.org\/niji\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.clubotaku.org\/niji\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.clubotaku.org\/niji\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=7957"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.clubotaku.org\/niji\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7957\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.clubotaku.org\/niji\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=7957"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.clubotaku.org\/niji\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=7957"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.clubotaku.org\/niji\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=7957"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}