{"id":7962,"date":"2006-05-01T23:00:00","date_gmt":"2006-05-01T23:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.clubotaku.org\/nijiwp\/?p=7962"},"modified":"2006-05-01T23:00:00","modified_gmt":"2006-05-01T23:00:00","slug":"3-adultos-oji-suzuki-parte-iii","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.clubotaku.org\/niji\/manga\/3-adultos-oji-suzuki-parte-iii\/","title":{"rendered":"3 Adultos: Oji Suzuki (parte III)"},"content":{"rendered":"<p><split><\/p>\n<p>De todas as debilidades que possam existir da condi&ccedil;&atilde;o intelectual, a estupidez (suspens&atilde;o dos sentidos), a ignor&acirc;ncia (n&atilde;o-saber), e a ingenuidade (natural, uma liberdade da terra), &eacute; a segunda a mais feliz, j&aacute; que a primeira jamais se ultrapassa e a &uacute;ltima apenas com choques brutais. A ignor&acirc;ncia, por&eacute;m, &eacute; facilmente corrigida com a aprendizagem, o tempo, a perseveran&ccedil;a. E com gestos de desvendamento s&uacute;bito, como ocorre com esta edi&ccedil;&atilde;o, pela respeit&aacute;vel Seuil, de um livro de Oji Suzuki, de quem jamais vira trabalhos.<\/p>\n<p>Muitos dos preconceitos que existem em v&aacute;rios quadrantes &#150; at&eacute; em pessoas respeit&aacute;veis e curiosas intelectualmente &#8211; contra a mang&aacute; (de resto, um termo t&atilde;o gen&eacute;rico no Jap&atilde;o quando &#147;banda desenhada&#148; entre n&oacute;s) deve-se &agrave; sua produ&ccedil;&atilde;o mais vis&iacute;vel ser fraca e dar azo a lugares-comuns e ep&iacute;gonos. Como se o mesmo problema n&atilde;o ocorresse em qualquer outra &aacute;rea da produ&ccedil;&atilde;o humana&#8230; Espero que tenha neste espa&ccedil;o mostrado alguns exemplos fora desse &#147;baralho inconsequente&#148;, com &oacute;bvios destaques para Taniguchi, Yoshihiro Tatsumi, I&ocirc; Koruda, tamb&eacute;m, a um n&iacute;vel diferente, Tezuka, mas mais marcantemente ainda, Yoshiharu Tsuge.<\/p>\n<p>Das v&aacute;rias hist&oacute;rias que se apresentam, encontro duas linhas de interpreta&ccedil;&atilde;o, dois &#147;fios vermelhos&#148; que as atravessam. A condi&ccedil;&atilde;o da crian&ccedil;a &eacute; que quando se &eacute; crian&ccedil;a n&atilde;o se &#147;brinca a&#148;, mas &#147;&eacute;-se&#148;. A maioria destas hist&oacute;rias fala de crian&ccedil;as que o deixaram de ser, cujas circunst&acirc;ncias hist&oacute;ricas e sociais (um Jap&atilde;o lentamente libertando-se da mis&eacute;ria e da derrota da guerra, e crescendo para o mundo) obrigam-nas a deixarem de o ser mas que, por uma conviv&ecirc;ncia s&uacute;bita, um encontro inesperado, a vis&atilde;o de um brinquedo que n&atilde;o podem ter numa montra, um sonho, as relan&ccedil;am ou permitem retornar a essa condi&ccedil;&atilde;o. Ou &eacute; como se fosse uma condi&ccedil;&atilde;o que afinal n&atilde;o haviam abandonado totalmente, mas s&oacute; o descobriam agora.<\/p>\n<p>Um outro caminho &eacute; o de se tratarem de contos que se partilham enquanto tamb&eacute;m se partilha um copo ou dois, hist&oacute;rias de terror, de perdas, de desaparecimentos de crian&ccedil;as, sendo recorrentes certas f&oacute;rmulas e express&otilde;es lingu&iacute;sticas que a isso apontam, ou a figura do homem da gabardina, uma esp&eacute;cie de predador, de raptor de menores (que abarcaria o nosso Lobo, a Baba Yaga russa, a Kitsune ou raposa japonesa, e at&eacute; o Pregador de A Noite do Ca&ccedil;ador, filme de Charles Laughton), com a ligeira diferen&ccedil;a de que se trata de uma figura simp&aacute;tica, que d&aacute; a ver &agrave; crian&ccedil;a um outro mundo.<\/p>\n<p>No folclore japon&ecirc;s existem umas personagens a que se d&aacute; o nome de tengu, uma esp&eacute;cie de homens-milhafre, de grande nariz, que tanto raptam como salvam crian&ccedil;as desaparecidas (na costumeira e confusa distribui&ccedil;&atilde;o equitativa de caracter&iacute;sticas &#147;mal&eacute;ficas&#148; e &#147;divinas&#148; nessas criaturas), e podem lan&ccedil;ar os incautos numa esp&eacute;cie de loucura que os deixa perdidos em florestas&#8230; Apesar destas serem hist&oacute;rias curtas e individuais, tais factores permitem-nos agrup&aacute;-las num ciclo sobre esses temas.<\/p>\n<p>Ligando estes dois fios interpretativos, talvez esse raptor das crian&ccedil;as n&atilde;o seja mais do que o pr&oacute;prio Tempo&#8230;<br \/>Uma das pranchas mais belas de todo este livro &eacute; a que se encontra na p&aacute;gina 48, cuja interpreta&ccedil;&atilde;o se desdobraria quase infinitamente. Faz-me recordar um dos v&aacute;rios pontos em que discordo fundamentalmente com Scott McCloud na sua tipologia de transi&ccedil;&otilde;es entre vinhetas, quando fala do non-sequitur (n&atilde;o obstante a sua fr&aacute;gil retrac&ccedil;&atilde;o\/explana&ccedil;&atilde;o). &Eacute; um problema, obviamente, do processo de McCloud, fal&iacute;vel logo &agrave; partida, de utilizar exemplos descontextualizados e\/ou fabricados por ele ad hoc para provar a sua ideia&#8230; Mas prender-se-&aacute; com outras quest&otilde;es ainda mais profundas, que vejo como a aus&ecirc;ncia do surrealismo na banda desenhada (cuja estrutura&ccedil;&atilde;o implica graves dificuldades aos mesmos jogos ditos &#147;autom&aacute;ticos&#148;), ainda que possa ocorrer uma ambienta&ccedil;&atilde;o on&iacute;rica (que ter&aacute; a ver antes com uma qualidade pl&aacute;stica, sugestiva). Nesta prancha, tal como ao longo de v&aacute;rias sequ&ecirc;ncias deste volume que re&uacute;ne mais de 10 hist&oacute;rias curtas, surgem desses momentos fugazes cuja l&oacute;gica apenas emerge da sua conviv&ecirc;ncia interna &agrave; narrativa e da empatia estabelecida com o leitor.<\/p>\n<p><split><\/p>\n<p>Ainda inclu&iacute;do neste volume, encontrar-se-&atilde;o dois estranhos e tamb&eacute;m on&iacute;ricos contos ilustrados, e uma s&eacute;rie de ilustra&ccedil;&otilde;es aparentemente desconexas, mas de um significado simb&oacute;lico oculto, mais uma vez nos lan&ccedil;ando nos territ&oacute;rios do sonho da raz&atilde;o. Trabalhos cuja sugestividade tanto pode nascer da natureza dos elementos da pr&oacute;pria imagem fixa (como numa alegoria, da qual a Melencolia I de D&uuml;rer surge como paradigma eterno) No Ocidente, essas imagens foram culto da cria&ccedil;&atilde;o de um Max Klinger ou um Max Ernst, e at&eacute; certo ponto tamb&eacute;m por Bertrand Russell (as ilustra&ccedil;&otilde;es que encomendou a um tal de Zo para o livro Novas Impress&otilde;es de &Aacute;frica) e, mais recentemente e entre n&oacute;s, um autor como Tim Morris. No Jap&atilde;o, poder-se-iam referir o &#147;Anu&aacute;rio das Mans&otilde;es Verdes&#148; de Utamaro, as v&aacute;rias s&eacute;ries dos &#147;grotescos&#148;, &#147;fantasmas&#148; e &#147;espelhos&#148; de Yoshitoshi, e, porque n&atilde;o?, as mais famosas s&eacute;ries dos &#147;Fuji&#148; de Hokusai ou Hiroshige&#8230;<\/p>\n<p>Ainda um recurso gr&aacute;fico interessante &eacute; o de palavras que se confundem com onomatopeias, ou parecem ser cantadas ou se assemelham &agrave; chuva&#8230; se funciona na perfei&ccedil;&atilde;o e na mais normal das legibilidades no idioma japon&ecirc;s, levanta ligeiras dificuldades na sua tradu&ccedil;&atilde;o\/legendagem; a manuten&ccedil;&atilde;o do estilo gr&aacute;fico original parece-me uma dolorosa por&eacute;m boa op&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Uma nota aponta que Suzuki &eacute; contempor&acirc;neo de Tsuge, o que n&atilde;o nos surpreender&aacute;, uma vez que este segundo influenciou uma das linhas de estilo mais recorrentes da Garo, de que Suzuki &eacute; visivelmente cultor. Todavia, se aqui tamb&eacute;m se passeia pelas ruas secund&aacute;rias das pequenas vilas, pelos s&iacute;tios com menos luz, menos brilho, talvez sirva de maior mergulho n&atilde;o numa escurid&atilde;o social, mas a das almas dos homens, na sua ignor&acirc;ncia, buscando nessa profundidade os tesouros e brilhos que sempre restam&#8230; a inf&acirc;ncia, o sonho, as recorda&ccedil;&otilde;es&#8230;<\/p>\n<p>Nota: uma hist&oacute;ria de Suzuki foi adaptada ao cinema (A rapariga da moto), e ser&atilde;o esses exemplos de excelentes aproxima&ccedil;&otilde;es entre os dois modos, como em A History of Violence, por exemplo, que n&atilde;o ter&atilde;o necessariamente que passar pelos objectos de maior espectacularidade (Batman, X-Men, Superman, Hellboy, Liga dos Cavalheiros Extraordin&aacute;rios, Quarteto Fant&aacute;stico, etc.), muitas vezes descambando em objectos fr&iacute;volos e desmiolados&#8230;<br \/><split><br \/><b>Autor:Pedro Vieira Moura<\/b><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>De todas as debilidades que possam existir da condi&ccedil;&atilde;o intelectual, a estupidez (suspens&atilde;o dos sentidos), a ignor&acirc;ncia (n&atilde;o-saber), e a ingenuidade (natural, uma liberdade da terra), &eacute; a segunda a&nbsp;[ &hellip; ]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1283,5],"tags":[1601],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.clubotaku.org\/niji\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7962"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.clubotaku.org\/niji\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.clubotaku.org\/niji\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.clubotaku.org\/niji\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.clubotaku.org\/niji\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=7962"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.clubotaku.org\/niji\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7962\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.clubotaku.org\/niji\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=7962"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.clubotaku.org\/niji\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=7962"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.clubotaku.org\/niji\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=7962"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}