{"id":7976,"date":"2006-05-31T23:00:00","date_gmt":"2006-05-31T23:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.clubotaku.org\/nijiwp\/?p=7976"},"modified":"2016-04-11T21:50:39","modified_gmt":"2016-04-11T22:50:39","slug":"monster","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.clubotaku.org\/niji\/anime\/monster\/","title":{"rendered":"Monster"},"content":{"rendered":"<p>De que se faz um cl&aacute;ssico? De uma hist&oacute;ria sobre a culpa e a reden&ccedil;&atilde;o. Sim, podem franzir o sobrolho &agrave; vontade, mas Monster &eacute; o primeiro cl&aacute;ssico da anima&ccedil;&atilde;o japonesa a nascer no s&eacute;culo XXI.<\/p>\n<p>Com 74 epis&oacute;dios e dois pr&eacute;mios ARC (Anime-Reactor) arrecadados em 2004 &#8211; Melhor Hist&oacute;ria e Melhor Thriller &#8211; ainda para mais em ano de Elfen Lied e Full Metal Alchemist, s&oacute; para dizer dois, Monster &eacute; somente a melhor coisa que aconteceu ao anime desde os idos anos 80 e suas s&eacute;ries gigantes com fundo moral.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.clubotaku.org\/nijiwp\/wp-content\/uploads\/1-22.jpg\" alt=\"1\" width=\"640\" height=\"290\" class=\"aligncenter size-full wp-image-21999\" srcset=\"https:\/\/www.clubotaku.org\/nijiwp\/wp-content\/uploads\/1-22.jpg 640w, https:\/\/www.clubotaku.org\/nijiwp\/wp-content\/uploads\/1-22-300x136.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><\/p>\n<p>Se dissermos que a culpa ocupa apenas o primeiro epis&oacute;dio da s&eacute;rie e a reden&ccedil;&atilde;o os outros 73, n&atilde;o estaremos a exagerar. Tenma, um m&eacute;dico japon&ecirc;s prestigiado a trabalhar na Alemanha comete um erro ao salvar um &#8220;serial-killer&#8221; embrion&aacute;rio depois de, anteriormente, ter escolhido operar algu&eacute;m mais importante em detrimento de um homem que havia chegado primeiro ao hospital. A escolha posterior em salvar uma crian&ccedil;a, preterindo o presidente da C&acirc;mara local f&aacute;-lo cair em desgra&ccedil;a no amor, na profiss&atilde;o e em si mesmo (como se n&atilde;o estivesse tudo ligado). Numa Alemanha p&oacute;s-queda do Muro de Berlim com as doen&ccedil;as t&iacute;picas da p&oacute;s-modernidade &#8211; assass&iacute;nios em s&eacute;rie, o poder das m&aacute;fias e o recrudescimento do nacional-socialismo &#8211; s&atilde;o introduzidas v&aacute;rias hist&oacute;rias e pessoas num enredo disposto em camadas baseadas numa tr&iacute;ade de desvios ps&iacute;quicos, actos de viol&ecirc;ncia e peda&ccedil;os da hist&oacute;ria contempor&acirc;nea.<\/p>\n<p>Com uma trama principal que envolve a persegui&ccedil;&atilde;o incessante por Runge (uma das personagens mais interessantes da s&eacute;rie e que lembra o detective Javert dos Miser&aacute;veis de Victor Hugo), detective do BKA que tamb&eacute;m vive obcecado em encontrar e prender o Jean Valjean de Monster, o m&eacute;dico Tenma. A procura de Runge pela confirma&ccedil;&atilde;o de que Tenma &eacute; o monstro por tr&aacute;s dos actos criminosos torna-o uma personagem bastante irritante, no entanto, no epis&oacute;dio 40 &eacute; introduzido outra pessoa na hist&oacute;ria que vem compensar o desequil&iacute;brio provocado pelas injusti&ccedil;as constantes da pol&iacute;tica alem&atilde;. Essa personagem &eacute; Grimmer, um ex-espi&atilde;o na Alemanha de Leste que procura agora provar os abusos sexuais a menores em orfanatos antes da queda do Muro.<\/p>\n<p>Mas o melhor da s&eacute;rie &eacute; de longe o tri&acirc;ngulo disposto entre o Dr. Tenma e os irm&atilde;os g&eacute;meos e, depois, o desdobramento das hist&oacute;rias (e das personalidades) que &eacute; feito a partir destes dois &uacute;ltimos numa constante descoberta da hist&oacute;ria que sofre v&aacute;rios atropelos durante os quais n&oacute;s, deste lado, nos sentimos manipulados pelo vil&atilde;o Johan Libert. Destes tr&ecirc;s personagens, desenvolve-se uma das melhores hist&oacute;rias em anime que abarca muito daquilo que pode ter acontecido na Rep&uacute;blica Democr&aacute;tica Alem&atilde; e as consequ&ecirc;ncias de aproveitamentos pol&iacute;ticos a partir de crian&ccedil;as abandonadas. As quest&otilde;es da personalidade s&atilde;o, apesar de todos os truques da storyboard para preencher (mas nunca encher) 74 epis&oacute;dios, as mais interessantes, principalmente quando chegamos &agrave; sec&ccedil;&atilde;o Rep&uacute;blica Checa, mans&atilde;o das Rosas e experi&ecirc;ncias de apuramento da ra&ccedil;a, tendo como pano de fundo a fam&iacute;lia dos g&eacute;meos. N&atilde;o esquecer epis&oacute;dios em que pomos em causa qual dos g&eacute;meos provoca o mal emergente e outros em que questionamos se o mal n&atilde;o estar&aacute; semeado j&aacute; em todos n&oacute;s e o &#8220;monstro&#8221; &eacute; apenas despertado por um &#8220;vision&aacute;rio&#8221;.<\/p>\n<p>E depois h&aacute; a anima&ccedil;&atilde;o, da Madhouse, pois claro, que se pode dizer ocidentalizada. Faz lembrar uma Fam&iacute;lia Von Trapp, mas em vers&atilde;o mist&eacute;rio, thriller e sem sol. Al&eacute;m disso, a anima&ccedil;&atilde;o come&ccedil;a a melhorar a partir do epis&oacute;dio 20, havendo uma maior fluidez nos movimentos e nas cores e os tra&ccedil;os das caras n&atilde;o aparecem t&atilde;o carregados. N&atilde;o &eacute; um defeito importante, &eacute; uma evolu&ccedil;&atilde;o que acontece em muitas s&eacute;ries e ainda bem, ali&aacute;s &eacute; do conhecimento geral (ou deveria ser) que s&oacute; uma boa anima&ccedil;&atilde;o consegue criar personagens t&atilde;o feias e grotescas (um pouco &agrave; maneira Satoshi Kon) como acontece em Monster.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.clubotaku.org\/nijiwp\/wp-content\/uploads\/2-14.jpg\" alt=\"2\" width=\"640\" height=\"290\" class=\"aligncenter size-full wp-image-22000\" srcset=\"https:\/\/www.clubotaku.org\/nijiwp\/wp-content\/uploads\/2-14.jpg 640w, https:\/\/www.clubotaku.org\/nijiwp\/wp-content\/uploads\/2-14-300x136.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><\/p>\n<p>O toque de cinema noir tamb&eacute;m paira em Monster, n&atilde;o s&oacute; pela persegui&ccedil;&atilde;o ac&eacute;fala do Runge, mas tamb&eacute;m nos subenrendos como os n&eacute;g&oacute;cios das m&aacute;fias alem&atilde;s, os grupos neonazis e as cenas de ac&ccedil;&atilde;o. Em certos aspectos faz lembrar filmes como, e dando apenas um exemplo &agrave; toa, o Falc&atilde;o de Malta em que a procura da justi&ccedil;a &eacute; o ponto de fuga de todos os mini-enredos decorridos &agrave; volta do grande crime. H&aacute; outras refer&ecirc;ncias ao longo do anime como o expressionismo alem&atilde;o nas figuras grotescas como os assassinos, as prostitutas (a falsa Margot Langer &eacute; um exemplo disso) e os bobos, neste caso e como tem de haver sempre uma figura rid&iacute;cula no meio daquilo tudo, o papel calha a um ladr&atilde;o de pacotilha que, felizmente, desaparece por volta do epis&oacute;dio 30 por se tornar altamente desnecess&aacute;rio e com gags aborrecidos de t&atilde;o repetitivos. Felizmente, Monster n&atilde;o se perde muito em personagens insignificantes e aposta nas que s&atilde;o fortes: Eva, Tenma, Anna e Johan. Uma nota especial para Eva, uma das personagens mais brilhantes e menos lineares e que pouco surge em s&eacute;ries de anime. Eva n&atilde;o &eacute; a t&iacute;pica mulher histri&oacute;nica e ac&eacute;fala, ela evolui ao longo dos epis&oacute;dios e n&oacute;s odiamo-la, amamo-la, tememos por ela e desejamos proteg&ecirc;-la. A seyuu tamb&eacute;m ajuda e &eacute; bem capaz de ser a melhor de todas as personagens.<\/p>\n<p>A m&uacute;sica do Monstro divide-se em duas categorias: as dos gen&eacute;ricos e as dos sons situacionais. Ora, as primeiras, por sua vez, dividem-se tamb&eacute;m em duas: uma m&aacute; e duas boas. As m&uacute;sicas do gen&eacute;rico inicial est&atilde;o muito perto do p&eacute;ssimo: um p&oacute;s-rock neog&oacute;tico e gregoriano n&atilde;o poderia nunca, mas mesmo nunca, dar bom resultado. Percebe-se a tentativa de spookiness, mas admitam, mesmo para f&atilde;s da s&eacute;rie, a m&uacute;sica &eacute; um fracasso. Em compensa&ccedil;&atilde;o os dois endings s&atilde;o fenomenais. At&eacute; ao epis&oacute;dio 33, &eacute; David Sylvian com a For the Love of Life, mas &eacute; a partir da 34 at&eacute; ao final que a Make it Home de um tal de Fujiko Heming acerta em cheio no ambiente da s&eacute;rie, sobretudo na adequa&ccedil;&atilde;o dos tons musicais aos desenhos do livro infantil dos g&eacute;meos.<\/p>\n<p>Os sons de situa&ccedil;&atilde;o s&atilde;o a segunda grande parte musical de Monster, s&eacute;rie que gere t&atilde;o bem os sil&ecirc;ncios como as m&uacute;sicas-para-anunciar-que-algo-de mal\/bom\/excelente-se-vai-passar em determinadas cenas. Sobretudo em situa&ccedil;&otilde;es de maior suspense n&atilde;o se encontra em Monster a t&iacute;pica m&uacute;sica de filme de terror cheia de suspiros e pianadas tr&aacute;gicas, h&aacute; o sil&ecirc;ncio que &eacute; o mais assustador de tudo, &eacute; um sil&ecirc;ncio que &eacute; introspectivo, faz-nos olhar para dentro porque o maior terror n&atilde;o &eacute; o que est&aacute; no exterior. Nesse sentido, a m&uacute;sica (e a sua aus&ecirc;ncia) &eacute; a parte em que h&aacute; maior manipula&ccedil;&atilde;o dos sentidos (a par, claro, com a anima&ccedil;&atilde;o e os seus jogos de luzes feitos com a escurid&atilde;o e a noite, dois dos elementos mais dif&iacute;ceis de animar).<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.clubotaku.org\/nijiwp\/wp-content\/uploads\/3-14.jpg\" alt=\"3\" width=\"640\" height=\"290\" class=\"aligncenter size-full wp-image-21998\" srcset=\"https:\/\/www.clubotaku.org\/nijiwp\/wp-content\/uploads\/3-14.jpg 640w, https:\/\/www.clubotaku.org\/nijiwp\/wp-content\/uploads\/3-14-300x136.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><\/p>\n<p>N&atilde;o h&aacute; defeitos em Monster? H&aacute;. H&aacute; um defeito que o impede de ser a melhor s&eacute;rie de sempre. Em 74 epis&oacute;dios, houve tempo para humanizar as personagens, quer dizer, n&atilde;o leiam isto de forma errada. Elas s&atilde;o altamente cred&iacute;veis, o seu desenvolvimento ao longo da s&eacute;rie &eacute; feito de forma natural com as nuances espec&iacute;ficas de uma boa stroyboard que visa uma boa caracteriza&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Mas, mas n&atilde;o h&aacute; amor em Monster. Aguardar mais de 70 epis&oacute;dios pelo surgimento de la&ccedil;os entre as duas personagens principais e isso n&atilde;o suceder sen&atilde;o de forma t&atilde;o velada que pode at&eacute; ser apenas fruto da imagina&ccedil;&atilde;o do espectador, torna a s&eacute;rie vazia de cora&ccedil;&atilde;o. H&aacute; amizade, h&aacute; solidariedade, h&aacute; justi&ccedil;a, sobretudo justi&ccedil;a, mas falta amor. &Eacute; uma pena, mas se calhar &eacute; por isso que amamos a s&eacute;rie, mas n&atilde;o nos apaixonamos por ela. Ela &eacute; o homem da nossa vida, mas pode n&atilde;o ser a paix&atilde;o da nossa vida.<\/p>\n<p><b>Escrito por: Margarida Ponte<\/b><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>De que se faz um cl&aacute;ssico? De uma hist&oacute;ria sobre a culpa e a reden&ccedil;&atilde;o. 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