{"id":8015,"date":"2006-08-15T23:00:00","date_gmt":"2006-08-15T23:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.clubotaku.org\/nijiwp\/?p=8015"},"modified":"2015-09-21T19:58:02","modified_gmt":"2015-09-21T20:58:02","slug":"blue","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.clubotaku.org\/niji\/manga\/blue\/","title":{"rendered":"Blue"},"content":{"rendered":"<p>J\u00e1 se compararam as mang&aacute;s de Kiriko Nananan com breves storyboards, n&atilde;o s&oacute; devido &agrave; sua caracter&iacute;stica gr&aacute;fica de representar personagens nas vinhetas sem mais informa&ccedil;&atilde;o visual, como tamb&eacute;m pelos seus di&aacute;logos esparsos, vulgares, contempor&acirc;neos, realistas (de que as tradu&ccedil;&otilde;es francesa e inglesa parecem dar boa figura).<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.clubotaku.org\/nijiwp\/wp-content\/uploads\/11094.jpg\" alt=\"1\" width=\"640\" height=\"290\" class=\"aligncenter size-full wp-image-20555\" srcset=\"https:\/\/www.clubotaku.org\/nijiwp\/wp-content\/uploads\/11094.jpg 640w, https:\/\/www.clubotaku.org\/nijiwp\/wp-content\/uploads\/11094-300x136.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><\/p>\n<p>Blue &eacute; uma s&eacute;rie de 10 cap&iacute;tulos que contam a hist&oacute;ria de um amor adolescente entre duas adolescentes. N&atilde;o se trata de mem&oacute;rias, mas de algo que nos &eacute; contado num ligeiro desfasamento em rela&ccedil;&atilde;o ao presente da ac&ccedil;&atilde;o. Essa leveza &eacute; da maior import&acirc;ncia. Se bem que o amor &eacute; entre duas raparigas, nada sabemos do que se ter&aacute; passado depois, e tamb&eacute;m n&atilde;o se explora uma qualquer dimens&atilde;o sociol&oacute;gica. Importa apenas que essa atrac&ccedil;&atilde;o existiu, foi sentida de modo diferente pelas duas raparigas, Kayako e Masami, e que foi sempre acompanhado por um teor eleg&iacute;aco, mesmo quando respirava.<\/p>\n<p>&Eacute; essa leveza que &eacute; transmitida por toda a estrat&eacute;gia gr&aacute;fica. A indistin&ccedil;&atilde;o entre as personagens, sobretudo as protagonistas, parece ser propositado, claro, e n&atilde;o uma mera &#147;falta de constru&ccedil;&atilde;o&#148;, ou um certo estilo &#147;&agrave; mang&aacute;&#148; a que nos pud&eacute;ssemos ter (mal-)habituado. Por outro lado, se existe a ideia feita de que o amor opera sobre pessoas que possuem j&aacute; caracter&iacute;sticas em comum e que, no seu exerc&iacute;cio e influ&ecirc;ncia, essas mesmas pessoas &#147;se v&atilde;o tornando cada vez mais parecidas uma com a outra&#148;, aqui essa ideia &eacute; elevada &agrave; operatividade gr&aacute;fica m&aacute;xima, quase como uma hip&eacute;rbole.<\/p>\n<p>Bastar&aacute; folhear outras hist&oacute;rias de Nananan (uma publicada em Sake Jock, pela Fantagraphics, e duas pela Viz em Secret Comics Japan) para notar que essa estrat&eacute;gia de simplificar os desenhos das pessoas n&atilde;o se repete sempre (outras particularidades &#150; a esquematiza&ccedil;&atilde;o das personagens, a aus&ecirc;ncia de detalhes cenogr&aacute;ficos, os brancos, um texto flutuante e narra&ccedil;&atilde;o extradieg&eacute;tica ou mon&oacute;logos interiores &#150; sim). Os desenhos de Kiriko Nananan parecem ter ganho um maior controlo dos contornos e dessa estiliza&ccedil;&atilde;o gr&aacute;fica quase industrial, em rela&ccedil;&atilde;o a trabalhos anteriores, como Heartless Bitch (na SCJ). J&aacute; antes falei desse poss&iacute;vel estilo &#147;industrializado&#148;, ainda que com um &iacute;mpeto mais fraco e frutos menos conseguidos, em rela&ccedil;&atilde;o ao Fujisan de Akira Sas&ocirc;.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.clubotaku.org\/nijiwp\/wp-content\/uploads\/2672.jpg\" alt=\"2\" width=\"640\" height=\"290\" class=\"aligncenter size-full wp-image-20560\" srcset=\"https:\/\/www.clubotaku.org\/nijiwp\/wp-content\/uploads\/2672.jpg 640w, https:\/\/www.clubotaku.org\/nijiwp\/wp-content\/uploads\/2672-300x136.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><\/p>\n<p>Os usos dos grandes espa&ccedil;os ou vinhetas em branco, a aus&ecirc;ncia de detalhes &#150; radicais, por vezes, apenas com as personagens vogando na vinheta &#150; tamb&eacute;m n&atilde;o s&atilde;o do mesmo teor que, por exemplo, os j&aacute; citados exemplos de Frederik Peeters ou o ambiente et&eacute;reo de Fazenda\/Nora nas hist&oacute;rias de Cotrim. Se por um lado, podem instigar-nos a um centrar das aten&ccedil;&otilde;es &agrave;s personagens implicadas, como que esbatendo as circunst&acirc;ncias em que se movem, elevando tudo o que &eacute; vis&iacute;vel a um simbolismo generalizado, por outro poder&aacute; decorrer de um honesto interesse pelo essencialmente humano: as emo&ccedil;&otilde;es, as liga&ccedil;&otilde;es moment&acirc;neas que todos fazemos no dia-a-dia, mas de forma entregue, nunca falsa.<\/p>\n<p>N&atilde;o &eacute; acreditar que o amor dure para sempre, mas simplesmente amar para sempre enquanto o amor durar, para lembrar Vinicius de Moraes. O contraste mais marcante permitido p&otilde;e esse estilo &eacute; precisamente a utiliza&ccedil;&atilde;o de personagens e d&eacute;cors t&atilde;o planos e reduzidos a um m&iacute;nimo de expressividade gr&aacute;fica para explorar pequenos tormentos emocionais que se desenrolam no interior, sem por&eacute;m entrar em grandes lances dram&aacute;ticos.<\/p>\n<p>N&atilde;o se trata nem de uma novela er&oacute;tica, nem de uma soap opera. Sinais simples, como a min&uacute;scula l&aacute;grima nos olhos de Kirishima na pg. 49, bastar&atilde;o para nos convencer de qual o tema retratado.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.clubotaku.org\/nijiwp\/wp-content\/uploads\/3616.jpg\" alt=\"3\" width=\"640\" height=\"290\" class=\"aligncenter size-full wp-image-20558\" srcset=\"https:\/\/www.clubotaku.org\/nijiwp\/wp-content\/uploads\/3616.jpg 640w, https:\/\/www.clubotaku.org\/nijiwp\/wp-content\/uploads\/3616-300x136.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><\/p>\n<p>A um primeiro olhar, poder-nos-&atilde;o surgir essas criaturas femininas t&atilde;o imp&aacute;vidas e superiores &agrave; emo&ccedil;&atilde;o humana como as que Furuya Usumaru havia explorado ironicamente em Short Cuts (Viz): as &#147;kogal&#148;. Ou mesmo como qualquer dessas personagens de bd ou merchandising derivado de Hello Kitty e simplesmente com o intuito de um certo fetichismo das raparigas japonesas. Se bem que todas as personagens pare&ccedil;am belas demais para serem realistas, Nananan brinca com essa aproxima&ccedil;&atilde;o, como j&aacute; havia feito noutros trabalhos.<\/p>\n<p>Por&eacute;m, sendo esta uma obra de maior f&ocirc;lego, torna-se a sua explora&ccedil;&atilde;o das emo&ccedil;&otilde;es femininas bem mais narrativa do que impressionista. Quer dizer, parece precisamente essa direc&ccedil;&atilde;o de &#147;criaturas distantes e frias&#148; que o estilo gr&aacute;fico de Kiriko Nananan parece apontar, para depois nos desviar dele radicalmente pela explora&ccedil;&atilde;o cont&iacute;nua dos enganos amorosos das duas raparigas.<\/p>\n<p>Tendo come&ccedil;ado na (como n&atilde;o?) Garo, faria parte do curr&iacute;culo da autora explorar um dom&iacute;nio relativamente recente na mang&aacute;, que n&atilde;o se coaduna com explora&ccedil;&otilde;es ch&atilde;s das rela&ccedil;&otilde;es humanas, mas parece vertido &agrave; representa&ccedil;&atilde;o de verdadeiras e acabadas personalidades.<\/p>\n<p><b>Escrito por: Pedro Vieira Moura<\/b><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>J\u00e1 se compararam as mang&aacute;s de Kiriko Nananan com breves storyboards, n&atilde;o s&oacute; devido &agrave; sua caracter&iacute;stica gr&aacute;fica de representar personagens nas vinhetas sem mais informa&ccedil;&atilde;o visual, como tamb&eacute;m pelos&nbsp;[ &hellip; ]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1283,5],"tags":[1700,1701,4697,1699],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.clubotaku.org\/niji\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8015"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.clubotaku.org\/niji\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.clubotaku.org\/niji\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.clubotaku.org\/niji\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.clubotaku.org\/niji\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=8015"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/www.clubotaku.org\/niji\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8015\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":20561,"href":"https:\/\/www.clubotaku.org\/niji\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8015\/revisions\/20561"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.clubotaku.org\/niji\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=8015"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.clubotaku.org\/niji\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=8015"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.clubotaku.org\/niji\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=8015"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}